Premiada no Festival do Rio com Torre das Donzelas (2018), Susanna Lira — uma das mais prolíficas documentaristas da América Latina e presença constante no território das séries e curtas-metragens — voltou a agitar a competição pelo Troféu Redentor, na noite de terça-feira, com uma longa-metragem de ficção. #SalveRosa consagra a alquimia entre as atrizes Klara Castanho e Karine Teles.
Na história, Rosa, uma adolescente de treze anos, é uma celebridade da Internet no auge da fama. A angústia instala-se quando descobre que é manipulada e vive uma vida construída sobre mentiras. O contraste entre a imagem perfeita nas redes sociais e a realidade opressiva cria um drama visceral sobre exposição precoce e relações tóxicas. Esta teia de violências simbólicas e manipulações é um tema recorrente na carreira da cineasta, que participa ainda no festival com Réquiem para Moïse, distinguido com o prémio de Melhor Argumento em Gramado, no passado mês de agosto.
Realizado em coautoria com Caio Barretto Briso, este filme de 19 minutos e 16 segundos examina o racismo subjacente ao assassinato do imigrante congolês Moïse Mugenyi Kabagambe, morto a golpes de taco de basebol num quiosque na Barra da Tijuca, em 2022. A narrativa amplia o espaço de resistência que a obra de Susanna Lira dedica ao combate à microfísica da exclusão.
“Moïse tem um significado muito importante para mim, porque revela sentimentos invisíveis. Captar e fazer ecoar as vozes dos amigos dele, e poder documentar o manifesto em busca de justiça, dá-me a certeza de que esse é um dos papéis mais importantes do documentário”, disse a realizadora ao C7nema, via WhatsApp, ao celebrar a boa receção de #SalveRosa.
“O Festival do Rio é a minha casa afetiva no cinema”, acrescenta. “Toda a minha trajetória de crescimento como cineasta foi acompanhada e apoiada pela curadoria do festival. Estar nesta edição com dois filmes — um documentário e uma ficção — é um reconhecimento ímpar, sobretudo porque ambos estão no centro do meu propósito de continuar a fazer cinema: revelar o que não queremos encarar na sociedade em que vivemos. Ao ver os dois filmes programados, percebo o quanto esse cinema do desconforto se tornou quase um adjetivo natural no que tenho produzido nos últimos anos.”
Há dois meses, Susanna Lira abriu os estúdios da sua nova produção, ainda inédita, Apenas 3 Meninas, para uma visita do C7nema. As filmagens decorreram em vários bairros da Zona Norte do Rio de Janeiro. São Cristóvão foi um dos locais de rodagem deste filme da produtora Panorâmica, em coprodução com a Elo Studios e a Paramount Pictures Brasil.
O enredo, inspirado em factos reais, acompanha o movimento do grupo Girls Up Brasil. Em 2020, três adolescentes lançaram uma campanha em prol da dignidade menstrual, depois de se confrontarem com dados alarmantes: uma em cada quatro jovens brasileiras não tem acesso mensal a pensos higiénicos. A ONU estima que uma em cada dez meninas no mundo deixe de frequentar a escola todos os meses devido à menstruação. Perante esta realidade, decidiram agir, contribuindo para a criação da primeira lei no Brasil que garante a distribuição gratuita de pensos. A Lei Estadual 8.924/2020 (inspirada no trabalho da deputada Tabata Amaral e na iniciativa Girl Up) foi proposta pelo deputado Renan Ferreirinha e aprovada por unanimidade pela ALERJ em 2021.
No grande ecrã, esta saga conta com um elenco de destaque: Mel Maia, Lívia Silva e Letícia Braga interpretam as protagonistas Amora, Irene e Luana, respetivamente. Shirley Cruz, Juliana Alves, Nicole Orsini e Milhem Cortaz completam o elenco.
“Este é um filme sobre a renovação da esperança. Precisamos de ver as pessoas na sua complexidade. Quando pensamos na realidade de quem vive com um salário mínimo, numa casa onde residem mulheres jovens, a compra de pensos higiénicos nem sempre é prioridade. Mas o direito à dignidade menstrual é uma questão de higiene básica. A ausência de um penso higiénico afeta a vida, o quotidiano”, afirma Susanna Lira. “Numa sociedade historicamente marcada pelo ódio ao corpo, tento tratar a menstruação longe dos tabus.”

