Com ADN (e vocação) de blockbuster, um dos filmes de género mais esperados da América Latina nesta reta final de 2025 — O Homem de Ouro, de Mauro Lima — tem a sua estreia marcada para sexta-feira, em sessão de gala no cinema Odeon, às 21h45 (hora brasileira), e promete esgotar as restantes projeções no Festival do Rio, que termina no dia 12.
A sua personagem central é um verdadeiro íman de multidões: Mariel Araújo Mariscot de Mattos (1940–1981). Entrou para a posteridade na história do Brasil pelas páginas policiais, na fronteira entre o anti-heroísmo populista do vigilantismo e a corrupção. É o símbolo do chamado Esquadrão da Morte, braço legalizado da execução sumária nos tempos da ditadura. Foi nadador-salvador, foi agente da lei, foi segurança noturno, foi contraventor… e acabou por se tornar mito. Morreu quando se preparava para uma reunião com chefes do jogo do bicho, abatido por uma submetralhadora automática Ingram M11. Trazia consigo duas pistolas — uma de calibre .45 e outra 6,35 — que não teve tempo de sacar.
Alguns dos episódios mais tensos da sua vida — incluindo o seu romance com a atriz Darlene Glória — chegam agora ao grande ecrã sob a realização de um dos mais argutos cronistas audiovisuais da malandragem carioca.
Mauro Lima tornou-se uma referência de excelência com o fenómeno de bilheteira Meu Nome Não É Johnny, visto por cerca de dois milhões de espectadores em 2008. Em O Homem de Ouro, o cineasta conta com o talento de Renato Góes no papel de Mariscot, que integrou a Scuderie Le Cocq, um temido grupo de extermínio formado por polícias, criado no Rio de Janeiro em 1965. Em 1969, juntou-se a uma divisão de elite composta por doze agentes.
O apelido dessa equipa: “Os Homens de Ouro”. O objetivo: executar criminosos. No decorrer das suas peripécias nesse grupo, Mariel foi expulso da corporação, passou pela prisão, escreveu um argumento sobre os seus feitos (A Fuga da Ilha do Diabo era um dos títulos que datilografou) e acabou assassinado. A sua paixão por Darlene (interpretada por Luisa Arraes) libertou faíscas e despertou ciúmes.

Na entrevista que se segue, Mauro Lima explica ao C7 detalhes da longa-metragem — encarada como um Scarface à brasileira — que terá sessões no sábado, às 18h30, no Reserva Cultural, e no domingo, às 21h15, no Cinesystem Belas Artes.
Que Mariel Mariscot descobriu neste processo de pesquisa?
O Mariel possível. Fizemos um documentário em paralelo, com material reunido pelo Rodrigo Brandão, filho de Mariel com Darlene Glória. Acabámos por ter a ideia de concluir o documentário inacabado, captando mais conteúdo, incluindo o próprio depoimento dele, o que acabou por transformar o filme numa mistura narrativa entre o Santiago, de João Moreira Salles, e o documentário do filho de Pablo Escobar. Foi algo surpreendente para mim cruzar esses testemunhos com arquivos de jornais e revistas, processos e entrevistas antigas. Ao confrontar todo esse material, pudemos concluir que o Mariel real é bastante diferente do Mariel mediático, digamos assim. Talvez desiluda quem o via como um herói que abatia inimigos em confrontos diretos com a delinquência, tal como pode frustrar aqueles que acreditavam que ele mandou vítimas para a vala comum em escala industrial. A bem da verdade, os números oficiais — e mesmo os alegados — relacionados com o seu grupo permitem-me supor que, pelos padrões de hoje, conquistariam o desprezo do agente da polícia aqui da esquina. Claro que nenhum número, por mais baixo que seja, justifica qualquer morte entendida como forma de justiça — sobretudo execuções a sangue-frio.
Que geografia urbana se desenha neste filme?
É uma questão presente, mas subjacente, uma vez que o Rio mudou bastante, e muito desse “GPS da época” teve de ser recriado. Isso também foi uma descoberta para mim, ao juntar o que lia, ouvia e via (em fotografias e filmes) com memórias difusas da minha infância. Perceber o que eram os itinerários antes da ponte Rio–Niterói, com as barcas; ou antes da Linha Vermelha; antes do elevado Paulo de Frontin em pé. Aquilo que era ermo e escuro, mesmo na Zona Sul, como certos cantos da Lagoa ou a Cruzada do Leblon, antes do condomínio Selva de Pedra. A orla que Mariel percorreu como nadador-salvador — o Lido, Copacabana, e por aí fora.
O que levou de Meu Nome Não É Johnny para o retrato deste mundo de ilegalidade?
As duas personagens têm algum parentesco no que diz respeito à ingenuidade do principiante, à testosterona juvenil, ao “deixa comigo”. Isso, até que a trajetória em fio de navalha começa a apresentar impasses e paradoxos que conduzem a caminhos sem retorno.
Qual é o desafio de criar um thriller — e de época — no Brasil?
Essencialmente, a falta de apego à memória arquitetónica e iconográfica. É difícil encontrar no Rio de Janeiro uma reta de cinquenta metros onde se possa filmar narrativas de época, mesmo com intervenção cenográfica. A cidade está cercada por grades tubulares antiferrugem, horrorosas. Os antigos edifícios com vãos e pilotis, ou os pequenos prédios com jardim e porta para a rua… hoje estão todos cercados por aço tubular. Fachadas muito reformadas, excesso de banners e poluição visual. E os interiores passam pela mesma tragédia. A nossa busca incessante por locações é cada vez mais inglória — e dispendiosa. No fim, grande parte da solução vem da pós-produção, aplicando elementos ou apagando outros.

