Quase três anos depois da sua passagem pela Mostra de São Paulo, Praia do Silêncio, de Francisco Garcia, encontra finalmente o seu merecido espaço no circuito exibidor brasileiro. Com uma fotografia elegante, assinada por Pedro Maffei e Rafael Martinelli, este drama do realizador de Borrasca (2019), produzido por Beto Brant e Renato Ciasca, propõe uma reflexão sobre as ressacas morais do país a partir das memórias e vivências de um professor aposentado, interpretado por André Gatti. A aproximação de uma jovem tira-o da inércia — jovem essa que oferece à atriz Ana Abbott a oportunidade de revelar toda a força do seu talento dramático, embalada pela trilha sonora delicada de Pedro Santiago.
Francisco Garcia reflete sobre a dimensão existencial do filme na conversa que se segue com o C7:
Qual é o saldo do inventário de solidões que se constrói entre as tuas personagens?
Desde Cores, a minha primeira longa-metragem, a solidão circunda as minhas personagens — e, pelo que venho a escrever para os próximos projetos, continuará a fazê-lo. Praia do Silêncio não foge à regra: é o registo da incomunicabilidade entre pai e filha, o reflexo de um país na era das expectativas decrescentes. A projeção daquilo que poderia ter sido e não foi. Um filme sobre solidão e tristeza, culpa e arrependimento de um pai que abandonou a filha surda há muitos anos. Uma espécie de fantasma de um passado que se arrasta — um filme sobre o amor desencontrado e a promessa utópica não cumprida.
O que representa André Gatti no teu estudo de figuras masculinas alquebradas?
O André foi meu professor e é um amigo pessoal. Tem uma beleza muito particular, que me encanta filmar. Eu e Gabriel Campos escrevemos o argumento — ou antirroteiro, se assim se pode dizer — já a pensar nele para protagonizar. Representa uma geração que foi ultrapassada, mas não superada; atropelada pelo tempo e pela realidade que se impôs sobre os seus sonhos. Sonhos que, no entanto, não envelhecem. Procurei encontrar poesia onde poucos a veem, dar movimento a relações estáticas e dar voz a um passado que não se revelou. O André é, para mim, um pouco de tudo isso.
Como foi pensada a construção de luz na fotografia?
Por incrível que pareça, a nossa ideia era fazer um filme com características fotográficas nórdicas, embora ambientado no litoral brasileiro — com frio e mar em ressaca. Por isso optámos por filmar no inverno; contudo, o frio não apareceu, e a fotografia do Rafa e do Pedro adaptou-se magistralmente, transformando-se num filme solar nas cenas diurnas e de breu nas noturnas. Um chiaroscuro que deu personalidade à obra e acabou por se tornar um dos pontos fortes do resultado final.
O que tem do clássico The Dead (Os Vivos e os Mortos, 1987) nesse precipício de mundo que filmas, e que tanto lembra o canto de cisne de John Huston?
Para ser sincero, nunca associei Praia do Silêncio ao filme de John Huston, mas agora faz todo o sentido — seja pela ideia inicial do nosso filme ter características nórdicas, como disse acima; seja pelo facto de a filha de Huston protagonizar essa longa-metragem, já que o nosso também fala sobre uma relação paterna desencontrada; ou ainda porque o filme de Huston se centra em relatos de memória, como o nosso, se não me engano… Em algum ponto, as semelhanças convergem.
Onde filmaram? Quando? Com que dimensão de equipa e duração? Por que caminhos passou o filme desde 2022?
O meu modelo de produção é muito independente, demorado e, consequentemente, doloroso. Depois de um filme extremamente verborrágico (Borrasca), quis fazer um filme silencioso, com a liberdade total que um projeto sem orçamento permite. Em 2018, se não me falha a memória, numa ação entre amigos, fomos dez pessoas até à casa da minha família, no litoral de São Paulo, e rodámos o filme em quinze dias. Posteriormente, encontrei a Drama Filmes e a Fênix Filmes, que disponibilizaram verba para a finalização — sou-lhes muito grato por isso.
Não houve uma carreira em grandes festivais: é um filme difícil, ainda que belo. Estreámos na Mostra de São Paulo, em 2022, e depois passou por festivais mais pequenos. Se hoje o filme entra em exibição, é por muita persistência do Gatti, que sempre dizia — citando Gustavo Dahl, seu amigo — que “o ciclo de um filme só se fecha quando ele é comercializado nos cinemas”.
Portanto, esta estreia, ainda que modesta, é para todos os que me ajudaram nesta jornada, mas sobretudo uma homenagem ao Gatti.

