Mehrnoush Alia confessa ao C7 que inscreveu 1001 Frames na Berlinale como se fosse um filme dos EUA (onde mora parte do seu tempo) para evitar que o governo do Irão, a sua pátria de berço, patrulhasse sa ua criação artística de modo a atrasar o seu lançamento. O ADN do projeto é iraniano.
“Tive medo que pudessem interrogar a minha equipa ao perceber que é uma narrativa centrada em camadas simbólicas de abuso num processo de realização artística“, diz a cineasta ao C7nema no Armazém da Utopia no Festival do Rio, onde 1001 Frames terá projeção na terça, às 21h15, no Estação NET Rio, e na quarta, às 16h, no CineCarioca José Wilker.
Na dinâmica dramatúrgica, um grupo de atrizes faz testes para o papel de Sherazade, numa adaptação de As Mil e Uma Noites. Durante as audições, elas percebem que o diretor tem intenções que vão além do elenco, desvendando uma estrutura de poder e assédio que se espelha na história contada na obra literária, transformando um teste para um papel num cenário de pesadelo.

Na conversa a seguir, Alia dá uma panorâmica da realidade cinematográfica da sua nação.
Que procedimento guia 1001 Frames?
A câmara está na sala e há uma voz masculina que eu não personifico. Busco um traço do cinema de found footage, de filmes de terror, que me instiga. É uma observação que expõe um mecanismo de controlo e de poder.
Mais do que um estudo sobre opressão simbólica, 1001 Frames é um filme sobre fazer cinema. O que mais te surpreende nesse exercício artístico?
Neste filme, essa dimensão metalinguística sempre esteve presente. É inerente, pois a ideia de audição de atrizes existe em todos os filmes, em todos os processos de cinema. Mas uma coisa que aprendi com esta experiência foi a reação do público e também da distribuidora. Quando começou a procurar vias de lançamento, disseram-lhe que o nosso filme “não era suficientemente iraniano”. Percebi então que existe uma expectativa, por parte da comunidade internacional, sobre o que um filme iraniano deve ser. Achei interessante notar esse cliché do que é o Irão e do que são as mulheres iranianas, e perceber que há quem queira reforçar essa imagem. Não estão habituados a ver personagens femininas que falam, que respondem, que lutam, que são jovens e fortes. Isso também foi uma descoberta.
Aqui no Festival do Rio, além de conhecer a geografia carioca, há algum filme que queiras ver?
Quero ver alguns dos filmes iranianos que estão no festival. Ainda não tive tempo de ver o resto do catálogo, mas quero ver os iranianos, porque esses filmes não se encontram em lado nenhum. São todos filmes subterrâneos, clandestinos, o que é interessante, porque só se podem ver aqui, em festivais.
Lembras-te da última vez que foste a um cinema no Irão?
Sim. O meu pai estava a visitar o Irão e levei-o a ver uma comédia, porque as comédias iranianas são o que as pessoas mais vão ver ao cinema. Então levei-o a ver algo divertido.
E essas tais comédias são boas?
Não muito boas, mas dá para rir um bocado. Não há grande qualidade, mas pronto… Existem bons filmes no Irão que estreiam nas salas, mas honestamente, desde o grande movimento, os bons artistas já não colocam os seus filmes nos cinemas. Agora há os cinemas subterrâneos. Não têm necessariamente a melhor qualidade técnica, mas têm um projetor, bom som, e as pessoas vão lá ver filmes. Vi lá alguns bons documentários feitos de forma clandestina.
Há algo novo a caminho nos teus horizontes profissionais?
Tenho alguns projetos que estou a tentar pôr de pé. Vamos ver. Espero que sim.

