“O Sudão é um país roubado aos seus habitantes” — Hind Meddeb denuncia a destruição da sociedade civil em “Sudão, Lembre-se de Nós”

(Fotos: Divulgação)

Emocionada com a beleza do mar junto à zona portuária onde decorre o Festival do Rio, Hind Meddeb contou ao C7nema, orgulhosa, que rompeu os laços com o jornalismo para se dedicar ao cinema documental, trabalhando agora num registo livre e pessoal.

Quando se fala de África ou do mundo árabe numa redação, ou não há interesse, ou existe já um olhar pré-formatado sobre o que deve ser dito”, explica a realizadora, nascida em Paris, mas com três nacionalidades — marroquina, tunisina e francesa. “Poderia também ser cidadã argelina, mas ainda não pedi o documento”, acrescenta, entre risos.

O seu filme Sudan, Remember Us (Sudão, Lembre-se de Nós, 2024) volta a ser exibido no próximo sábado, no CineCarioca José Wilker. A narrativa parte de um país devastado por anos de guerra e mergulha-nos na luta diária dos jovens sudaneses, cujas histórias — por vezes dolorosas, outras vezes profundamente inspiradoras — revelam a capacidade de resistência e esperança de um povo em ruína. O documentário é, ao mesmo tempo, um apelo à consciência internacional para uma crise esquecida e uma celebração do poder criativo como forma de sobrevivência e de resistência.

Na entrevista que se segue, Hind Meddeb reflete sobre as fronteiras entre etnografia e poesia no território da não-ficção — e sobre como o cinema pode tornar-se um gesto de empatia, memória e escuta.

Hind Meddeb

Como nasceu o filme “Sudão, Lembra-se de Nós“?

Foi um filme totalmente espontâneo — nada estava planeado. Antes, tinha realizado outro filme em Paris, sobre os campos de refugiados de guerra que viviam nas ruas, muitos deles sudaneses. O sistema francês deixou de respeitar o direito de asilo há cerca de quinze anos, e essas pessoas viviam literalmente à espera do seu primeiro encontro com as autoridades, dormindo na rua. Nesse processo, conheci muitos sudaneses e acabei por fazer um filme sobre um homem que escapou ao genocídio no Darfur e que, já em França, escrevia poesia enquanto pedia asilo. Tornámo-nos amigos. Quando começou a revolução no Sudão, eles pediram-me que fosse ao país — “vai ver o nosso país”, disseram. Deram-me contatos de amigos e conhecidos. Fui sem saber se faria um filme, apenas para descobrir o país. Mas comecei logo a filmar. E tudo o que captei nos primeiros dias acabou por fazer parte do filme.

O seu olhar é próximo, mas não etnográfico. Como o definiria?

O meu olhar não é o de uma observadora externa. Venho de uma família do Norte de África — a minha mãe é metade marroquina, metade argelina, e o meu pai é tunisino. Falo árabe desde criança. Quando cheguei ao Sudão, senti-me em casa. Partilhamos problemas semelhantes — ditadura, manipulação religiosa, desigualdade. Identifico-me com as mulheres e com os jovens sudaneses. Sou estrangeira, sim, mas “tão longe e tão perto”. Essa distância permite-me ver coisas que para eles são banais. Enquanto filmava, os próprios sudaneses também filmavam, mas eles não olham da mesma forma. Para mim, o que é quotidiano para eles é extraordinário. O meu olhar é o do espanto.

Chamaria ao filme um filme francês ou africano?

Sem dúvida, é um filme africano. E universal. Os sudaneses, no fundo, somos todos nós. O filme fala da humanidade, da resistência e da criação em tempos de guerra e ditadura. Quando tudo te é tirado, o que te resta são as ideias, as palavras, a poesia. Mesmo sem nada, continuas a resistir.

E qual é, para si, o maior problema do Sudão hoje?

É um país roubado aos seus habitantes. O que está a acontecer não é uma guerra civil — é uma guerra dos militares contra os civis. O objetivo é destruir a sociedade civil para continuar a pilhar o país.

O Sudão é rico — tem terras férteis, ouro, urânio e as nascentes do Nilo. As milícias vendem as terras agrícolas aos Emirados Árabes Unidos, recebem armas em troca. É uma cumplicidade de genocídio. O povo sudanês é massacrado todos os dias para ser afastado das suas terras.

E tudo isto com o silêncio cúmplice de potências regionais — Egito, Rússia, países do Golfo. O filme é o testemunho de cidadãos que tentam recuperar o seu país. É sobre isso: reconquistar o Sudão.

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