Juliette Binoche observa o mar de Copacabana do alto de um hotel, antes de preparar com o chef do estabelecimento uma chávena de chocolate com a medida exata de cacau em pó e temperatura. A chegada da atriz francesa ao Brasil, neste fim de semana, é suficiente para tornar esta 27.ª edição do Festival do Rio uma das mais marcantes e de maior reverberação internacional da história do evento.
Muitas compatriotas suas — Jeanne Moreau, Catherine Corsini ou Claire Denis, por exemplo — já passaram pela maratona cinéfila carioca, mas a sua visita era aguardada desde o início dos anos 2000, sobretudo quando Caché (2005) foi lançado em solo latino-americano durante o festival. “O que me move no cinema é a hipótese de me doar”, disse Binoche ao C7nema, numa conversa que assinala a presença da sua primeira longa-metragem como realizadora no Festival do Rio: In-I In Motion (2025), baseado numa performance de dança sua com o bailarino Akram Khan, e programado para exibição no Cine Odeon, no domingo.
O filme integra uma seleção de 74 produções e coproduções recentes da pátria presidida por Emmanuel Macron que desfilarão por um circuito de salas de exibição — 25 ecrãs no total —, além do Pavilhão do RioMarket do Armazém da Utopia, do Museu do Amanhã e do Teatro Gláucio Gill. Esta iniciativa insere o Festival do Rio nas ações da Temporada França–Brasil 2025, que celebra os 200 anos de relações diplomáticas entre os dois países. A aproximação envolve debates e encontros de negócios com profissionais franceses e brasileiros, num verdadeiro intercâmbio de saberes. A Carta Branca ao Forum des Images — espaço parisiense de exibição e reflexão — apresenta uma retrospetiva de títulos realizados por mulheres.
Na conversa que se segue, a vencedora do Óscar por O Paciente Inglês (1996) explica que lugar ocupa hoje a França no audiovisual e reflecte sobre o seu percurso criativo.
Qual foi o momento em que o cinema se desenhou como uma das suas paixões?
Tive a sorte de ser estimulada pela minha mãe a amar todas as formas de arte, a partir do interesse pela expressão humana que existe em cada uma delas — seja a pintura, a dança ou o cinema, onde aprendi imenso sobre a vida, na troca com instrutores de interpretação e com cineastas.
Faz parte de um universo muito particular, o da cultura francesa, em que o cinema tem um valor estratégico. Como avalia hoje esse cinema?
O nosso governo parte do princípio de que a arte deve ser apoiada. Com esse apoio, há expressões cinematográficas que, por vezes, saem uma porcaria, mas também muita coisa boa. O cinema de autor que fazemos é forte e preserva uma pluralidade que, por vezes, dá origem a filmes palavrosos. Temos de tudo, sobretudo espaço para sermos nós próprios.
Nessa trajetória autoral, lança-se agora na realização com In-I In Motion, uma reflexão sobre o que existe de poético no movimento dos corpos. Não é um filme sobre dança, mas a dança faz parte da sua gramática. Como encontrou a sua poesia?
Partimos de sensações. Robert Redford viu a nossa performance em Nova Iorque e sugeriu que a transformássemos em filme. Tínhamos vídeos dos ensaios, mas era importante não saber o que surgiria dali, pois trata-se de uma narrativa que se insurge contra o controlo. Nas suas entrelinhas políticas, dado o ethos do contemporâneo, o toque sem permissão prévia — que já não parece bem-vindo — apareceu como caminho. Hoje, não parece “dentro das regras” o facto de uma mulher se lançar sobre um homem, mas podia ser interessante desafiar isso na nossa coreografia, para levantar questões.
Modificou a versão original apresentada em San Sebastián. O que o público do Festival do Rio vai ver?
Um filme com trinta minutos a menos, pois senti que estava demasiado longo. Assim que saímos de San Sebastián, passei uma segunda e uma terça a cortar imagens. É um work in progress. Muda em prol de uma verdade.
A passagem pelo Festival do Rio coincide com a campanha brasileira para que O Agente Secreto vá aos Óscares. Presidiu o júri de Cannes que atribuiu dois prémios — Melhor Ator e Melhor Realização — ao thriller de Kleber Mendonça Filho, com Wagner Moura. Que relação mantém com o cinema brasileiro?
Foi muito bom ver esse filme. Gosto muito de Walter Salles e do seu Central do Brasil (1998), pela forma como expressa respeito pela condição humana.

