“Cada pessoa tem direito a ser protagonista da sua própria história”: Tribeny Rai estreia “Shape of Momo” em San Sebastián

(Fotos: Divulgação)

Oriunda de Siquim (Sikkim), estado no nordeste da Índia que faz fronteira com o Butão, o Tibete e o Nepal, a realizadora Tribeny Rai estreia-se nas longas-metragens com Shape of Momo, um drama que se afasta do exotismo com que a região costuma ser retratada no cinema indiano — e em particular em Bollywood — para apresentar um retrato cru e sensível da vida numa aldeia dos Himalaias.

Inspirada pela sua própria vivência numa casa cheia de mulheres e pela sensação de não-pertencimento que acompanha tantos jovens migrantes internos, Rai — que saiu da sua aldeia para estudar cinema e depois regressou — propõe uma narrativa em camadas, onde a convivência quotidiana revela o peso do patriarcado e das expectativas sociais. Ao mesmo tempo, dá voz a personagens complexas, raramente vistas no cinema, e aborda a forma como diferentes gerações lidam com a contemporaneidade – explorando as tensões entre tradição e modernidade, entre género e classe, entre raízes locais e influências globais.

À conversa com Tribeny Rai, interessava perceber como Shape of Momo nasceu da vivência pessoal, mas explora temas universais: o peso da classe (e da casta), a migração entre cidade e aldeia, e o papel das mulheres em sociedades conservadoras. Rodado na própria casa da realizadora, o filme dá corpo a várias gerações de mulheres e contraria os estereótipos. E falar com Rai foi como entrar na mente da protagonista, Bishnu, que se torna reflexo de muitas lutas (e defeitos) partilhados.

Tribeny Rai

O seu filme aborda uma multiplicidade de temas — da migração à luta de classes, do papel das mulheres na sociedade ao confronto entre tradição e modernidade, passando ainda pelo capitalismo e pela turistificação de territórios naturais e rurais. Como foi o processo de integrar tantas camadas e encontrar equilíbrio entre elas na narrativa?

Os filmes de que gosto têm muitas camadas e são complexos. Mostrar apenas duas pessoas a apaixonarem-se não resulta para mim. Tem de haver mais: a classe a que pertencem, a casta, especialmente na Índia, onde essas divisões estão tão presentes.

Era essencial para mim que a história fosse sobre uma mulher, sobre uma casa cheia de mulheres. Mas, ao mesmo tempo, queria que mostrasse o que acontece na sociedade: o sistema de classes, o sistema de castas, as migrações. Tudo isto faz parte de quem somos enquanto seres humanos. Não podemos simplesmente contar a história de uma mãe e de uma filha e excluir o ambiente em que vivem. Esse contexto acrescenta complexidade.

O quanto da sua experiência de vida está no filme e como encontrou a ficção nessas vivências?

Várias coisas são inspiradas em pessoas que conheço. Todos os meus amigos que viram o filme disseram-me que a protagonista tem muito de mim. Claro que algumas situações foram inventadas para servir melhor a narrativa, mas quase tudo nasce das minhas experiências e das mulheres à minha volta. Por exemplo, há uma cena em que a avó faz perguntas pela cirurgia de mudança de sexo. Isso aconteceu de facto. O meu avô perguntou-me: “Ouvi dizer que hoje em dia há uma operação em que um homem pode ser transformado numa mulher.” Para ele era apenas isso: uma operação. Não conseguia compreender a complexidade da questão.

Todos estes tópicos misturam-se assim com a sua própria história familiar.

Sim. Somos quatro irmãs. Eu sou a terceira. Os meus pais nunca tiveram um filho rapaz e cresci com essa ausência. Sentia que tinha de compensar: tinha de estudar mais, esforçar-me mais, para ser notada. Quando o meu avô me disse que podia ser “como um neto”, no momento fiquei feliz e pensei: “Consegui.” Mas depois, refletindo sobre o tema, percebi como era triste: por mais que me esforçasse, nunca seria vista como um filho. Eu era — e sou — uma boa filha, mas nunca vista na mesma linha. Há muita dor e perda neste filme, porque são experiências que vivi e continuo a viver. 

E como começou o processo de escrita deste filme e nasceu a ideia de o filmar?

Quando comecei a escrevê-lo, estudava em Calcutá, numa escola de cinema. Quase todos os meus colegas foram depois para Bombaim trabalhar em Bollywood. Eu voltei para a minha aldeia, em Siquim. Senti que tinha uma responsabilidade. Cresci sem ver protagonistas no cinema que se parecesse comigo. Via histórias e rostos com os quais não me identificava. Achei que, depois de aprender cinema, tinha de dar algo de volta. Quando voltei encontrei uma sociedade muito conservadora, cheia de julgamentos. Não tinha as oportunidades da cidade e, ao mesmo tempo, sentia o peso da pressão social para ser de determinada maneira. Vivi assim dois ou três anos. Mas percebi que muitos jovens passam pelo mesmo: mudam-se para cidades maiores em busca de oportunidades ou liberdade, mas vivem esse conflito. E pensei: “Esta história tem de ser contada.”

Por outro lado, senti que ao fazer o filme poderia encontrar respostas. Mas o que encontrei foram ainda mais perguntas.

E quando decidiu que o cinema era aquilo que queria para a sua vida?

Estudei jornalismo porque sempre gostei de escrever. Alguém me falou da escola de cinema, onde o governo dava bolsas e onde, diziam-me, “bastava ver filmes para passar”. Achei que era um sonho. Os meus pais ficaram céticos, mas apoiaram-me. Já o resto da família  e outras pessoas da aldeia não percebiam a minha decisão. Só quando a minha primeira curta-metragem foi a um festival e saiu no jornal é que entenderam o que eu fazia.

Agora já há orgulho. Com a seleção em San Sebastián, sinto que todo o estado se sente representado. E já vêm o ser realizadora como uma carreira. Acho que sou uma das primeiras realizadoras mulheres de Siquim, e este será talvez o terceiro filme em dez anos a viajar para festivais. Não há muitos cineastas nem filmes feitos na minha região. Siquim está entre o Butão, o Nepal e o Tibete. Somos diferentes fisicamente e também culturalmente. Tenho mais afinidade com o cinema do Sudeste Asiático, com realizadores como Apichatpong Weerasethakul, ou de Jia Zhangke, do que com os filmes de Bollywood com que cresci. 

É bom ver que há pessoas na minha região a mexerem-se para filmar histórias mais diversas em torno de pessoas e temas menos explorados.

“Shape of Momo”

Estudou numa faculdade que carrega o nome de Satyajit Ray, alguém inevitável de falar quando se fala de cinema indiano. Ele foi uma influência?

É um nome monumental, mas cresci num local muito remotp sem acesso ao cinema mundial. Bollywood é o que lá chegava. Vi O Tempo dos Ciganos, do Emir Kusturica, e Rashomon, de Akira Kurosawa, para preparar o exame de entrada na escola de cinema. Quando estava na escola toda a gente dizia para eu ller coisas do Ray, Tarkovsky e Kurosawa em profundidade, mas não queria seguir os clássicos, queria descobrir os meus próprios cineastas. Mas depois acabamos todos por voltar a eles.

Tendo em conta a fuga ao exótico como pensou as locações e a estética do filme?

Vou contar-lhe um segredo. O filme foi filmado na minha própria casa. Como estávamos em casa, tivemos tempo para preparar planos com ligações emocionais fortes. Trabalhámos muito com cores, com o diretor de fotografia: a Bishnu começa com vermelhos vivos, em contraste com ambiente, mas no final veste tons que se fundem com a natureza, mostrando que se torna parte dela. Primeiro, ela parece alguém deslocado do espaço, depois – progressivamente – vai se integrando. A mãe, a avó, a irmã usam verdes e castanhos desde o início, sempre ligadas ao espaço. Pensamos também em planos que mostrassem gerações como “ramos da mesma árvore”: personagens em sobreposição, quase a emergirem umas das outras.

Uma das coisas que se destaca também é referências ao turismo, que depreendemos venha da forma exótica como este local é retratado, como bom para visitar.

Sim. Como disse, não temos uma indústria para mostrar a nossa região como ela é e quando vêm filmar de fora, usam-nos como figurantes “exóticos”: sempre felizes, sempre simples, sem complexidade. Somos sempre personagens secundários das histórias. Eu queria mostrar que cada pessoa tem direito a ser protagonista da sua própria história.

Queria também estudar a estrutura de classes. Quando comecei o guião, estava muito zangada, era quase como um desabafo pessoal. O meu co-roteirista e co-produtor trouxe objetividade. Ajudou a dar camadas à protagonista: ela é forte, mas também preconceituosa em relação a mulheres de classes mais baixas. Quisemos mostrar todas as suas nuances, boas e más. Além disso, o conflito entre as duas irmãs foi essencial. Quando discutimos com alguém próximo, dizemos coisas que revelam mais sobre nós do que sobre a outra pessoa. Quisemos mostrar isso: como as palavras expõem fragilidades e contradições.

Com este primeiro filme lançado, o que podemos esperar do seu futuro? Vai continuar nestas temáticas no futuro?

Não sinto pressão, porque é o meu primeiro filme. Mas quero continuar a explorar as emoções humanas, que são tão complexas. Numa conversa, o que dizemos nunca é exatamente o que sentimos. Esse espaço de contradições e complexidades é riquíssimo para o cinema.

Mas tenciona experimentar géneros ou vai seguir uma linha mais realista no drama?

Sim. Na escola fazia filmes experimentais, inspirados por Kusturica, Agnès Varda. Mas a minha mãe nunca os entendia. E pensei: “Se a pessoa que mais amo não consegue se ligar ao que faço, que sentido tem o que faço?” Por isso, o primeiro filme tinha de ser mais narrativo. No futuro posso explorar outras formas, mas quero sempre manter o foco nas emoções humanas.

E o que espera da receção ao seu filme na região onde foi filmado? Sente algum tipo de pressão nisso?

Um pouco, mas também confiança. Muitos homens da minha comunidade não entendem o privilégio que têm na sociedade e não entendem o que é viver numa casa cheia de mulheres, onde existe o medo constante de ter de trancar portas e janelas todas as noites.

Quero que este filme os faça refletir. Para a região de Siquim, é um feito enorme estar em San Sebastián, e esse orgulho talvez pese mais do que qualquer crítica que possa receber. Mas espero que também abra espaço para uma sociedade mais inclusiva para as mulheres.

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