Já com vários trabalhos publicitários assinados com forte sensibilidade estética (vale a pena ver Period e a forma como o corpo feminino é filmado), a dinamarquesa Emilie Thalund apresentou em San Sebastián, na secção New Directors, a sua primeira longa-metragem, Weightless (Vægtløs). O filme é um coming-of-age centrado na experiência feminina na adolescência, contado através do ponto de vista de Lea (Marie Helweg Augustsen), uma rapariga de 15 anos que passa o verão num campo de saúde e bem-estar, entre a floresta e o mar. Determinada a perder peso e ser aceite por quem a rodeia, Lea faz amizade com a colega de quarto, Sasha (Ella Paaske), e desperta para novos sentimentos na interação com Rune (Joachim Fjelstrup), um monitor adulto do campo. Por entre a vulnerabilidade da adolescência, nasce o desejo, mas aumenta também a pressão social sobre o seu corpo.
Sobre o título, a cineasta explicou ao C7nema: “A ideia do título Weightless (Sem Peso) traz uma sensação de estar sem gravidade, algo que raramente experimentamos — talvez apenas na água. Mas também sonhei com um mundo em que o “peso” não fosse nada, em que fosse possível sentir-se sem peso. A protagonista vai perdendo um pouco de si mesma, perde os próprios limites, e no final sente-se mental e emocionalmente “sem peso”.”

Embora rejeite a ideia de autobiografia direta, Thalund admite que o filme nasceu de um lugar pessoal, sublinhando ainda a importância de vozes próximas: “Sinto-me muito conectada à adolescente que fui — nas experiências com a amizade, o corpo, o desejo, a sexualidade e também no confronto intenso com o olhar masculino.” Para construir a narrativa, trabalhou com a coargumentista Marianne Lentz e fez pesquisa junto de jovens que frequentaram campos semelhantes ao retratado, bem como de raparigas que viveram relações com professores mais velhos: “A minha irmã interpreta a mãe da Lea e foi uma parceira criativa importante. Ela própria vive num corpo maior e trouxe experiências valiosas. Eu também já tive um corpo maior em adolescente. E a amizade feminina entre Lea e Sasha é inspirada no que vivi: muitas vezes fazemos coisas desconfortáveis porque as amigas também fazem. Demora algum tempo a descobrir quem somos e a ter força para dizer “não quero”.”
Nesta construção, o processo foi também colaborativo com as jovens atrizes: “Elas participaram cedo no processo. O guião não estava fechado quando as escolhemos, mas deram feedback e ajudaram a atualizar o olhar adolescente que nós, já nos 30 e 40 anos, já não tínhamos.”
Pelas cenas de cariz sexual entre a protagonista e um adulto, foi envolvida uma coordenadora de intimidade: “Ela só estava presente nas cenas mais delicadas, mas muito do trabalho foi feito antes, para criar um ambiente de confiança geral. Era necessário alguém neutro, a quem as atrizes pudessem recorrer se não se sentissem confortáveis. Isso tornou o ambiente mais seguro e equilibrado.”

Espaço, corpo e responsabilidade
Sobre a representação no ecrã, Thalund afirma: “Queria representar diferentes corpos, não apenas o corpo magro e branco que domina o cinema. O campo de férias é um espaço perfeito para isso: ao mesmo tempo assustador e excitante, um microcosmo onde tudo acontece intensamente. Além disso, queria filmar o verão dinamarquês, tão romântico e bonito, mas também capaz de transmitir algo sombrio, refletindo a personagem de Rune: encantador à primeira vista, mas com um lado obscuro.”
Um lado obscuro onde a realizadora recusa simplificações: “Era essencial não reduzir tudo a preto e branco, bom e mau. Não acredito em respostas absolutas. O interesse do filme é compreender: por que razão uma jovem procura esse olhar adulto? Muitas vezes é porque os rapazes da sua idade não a veem, e aparece alguém mais velho, atencioso. Mas o erro é do adulto, que não assume a responsabilidade. O objetivo era compreender a rapariga, sem culpabilizá-la.”
Trajetória e ambição
Mãe há cinco meses e já com ideias de novas longas-metragens, Emilie reflete sobre o percurso: “Sempre sonhei ser realizadora, mas parecia algo inalcançável, algo quase de super-herói. Estudei artes plásticas e arquitetura, depois entrei por acaso na publicidade. Tive a sorte de conhecer pessoas que acreditaram em mim e no projeto — e aqui estou, em San Sebastián, o que já é mais do que sonhei.”

