“O melodrama é um fantasma”, diz Arnaud Desplechin

(Fotos: Divulgação)

De uma destreza notável no trançado de diferentes vértices de uma geometria de solidões e desconexões, Deux Pianos traz o habitué de Cannes Arnaud Desplechin, um dos mais prolíficos realizadores de verve autoral da França, a San Sebastián, na disputa pela Concha de Ouro. O seu mais recente argumento, escrito a quatro mãos com Kamen Velkovsky, deleita a sua câmara com a luz da cidade de Lyon e a sua cena musical.

Um pianista da mais alta virtude ao teclado chamado Mathias (vivido por François Civil) regressa à região para reencontrar a sua antiga tutora, a maestrina Elena (Charlotte Rampling, em estado de graça), que se debate contra uma doença incurável. Ele cruza-se ainda com a sua paixão de outrora, Claude (personagem de Nadia Tereszkiewicz), agora casada e mãe de um filho. O pianista suspeita que possa ser o pai. Entre as suas dúvidas, a angústia de Claude, uma morte das mais inusitadas e o penoso calvário de Elena, o artesão do folhetim por detrás de Reis e Rainha (2004), Feliz Natal (2008) e Frère et Soeur (2022) compõe um mosaico de perdas que se recusa a ser pessimista, sem medo da tristeza.

Em que medida Mathias, o protagonista de Deux Pianos, carrega consigo algo de Paul Dédalus, o seu alter ego e personagem de vários dos seus filmes, em busca de recordações de uma juventude que ficou para trás? Existe em Mathias o tema do regresso ao já vivido, o que o torna um homem perigoso na trama, embora ele aporte numa trilha de doçura. O seu percurso em cena mistura-se ainda com outro tema, pois quis falar também de um assunto de que o cinema pouco se ocupa: as jovens viúvas. A jovem que enviúva em Deux Pianos conta uma piada de tom adulto, picante, em pleno funeral, e ninguém a entende. O mundo sobre o qual falo fazia confluir estas duas pessoas.

Deux Pianos

De alguma forma, essa questão da viuvez e uma relação amorosa de velhos amantes mal resolvida dão ao passado um tratamento fantasmagórico em Deux Pianos. De que modo esse traço fantasmagórico pode ser depurado pelas bases do melodrama, o seu género por excelência?

O melodrama é um fantasma. Amo esse filão cinematográfico porque expõe a verdade como algo que nos persegue e assombra. O cinema melodramático usa a dor para mostrar que a vida vence sempre qualquer partida contra a inércia.

De que forma, neste novo filme, dialoga com a tradição do género e com o legado de mestres como Fassbinder e Douglas Sirk?

Lembra-se de Un Affair to Remember (1957)? Pois este meu novo filme foi uma forma de homenagear o que Leo McCarey fez nesse clássico, cujo argumento foi refilmado várias vezes.

Nessa linha romântica, Deux Pianos exulta solidão. De que forma esses solitários traduzem o vazio e a falta de pertença?

Quando contei a longa ao elenco, antes das rodagens, percebi que havia entre eles uma solidão vertiginosa. A música parecia a única forma de consolo para aquelas pessoas. Mas essa solidão será sintomática do que se passa hoje na Europa? O continente europeu enfrenta atualmente uma crise de proporções apenas comparáveis às da II Guerra Mundial e, por isso mesmo, utilizo na dramaturgia o conceito musical da fuga. As personagens fogem num fluxo de sobrevivência. A música é a nossa fuga.

E o cinema?

Também. Os filmes serão sempre um caminho de transcendência, uma forma de expor o que sentimos.

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