À conversa com Rui Pedro Tendinha sobre o seu livro de autoajuda (de Hollywood) e sobre a curta «A Estrada para Mazgani»

(Fotos: Divulgação)

Entrevistar o Rui Pedro Tendinha tem o seu quê de singular, pois partilhamos essa singular profissão de ver filmes. Poderia ter sido uma conversa de café, mas acabou por ser uma resposta a um mail enviado para Londres onde o Tendinha se deslocara para entrevistar alguém made in Hollywood…

Conheço o RPT há 20 anos e reconheço esta sua relação quase umbilical com o cinema (melhor, com os filmes). Entre idas ao cinema, ao clube de vídeo do bairro, os visionamentos de imprensa e as antestreias… Sempre foi um ‘papa filmes’. Impressionava-me quando me desafiava a ir ver um filme pouco relevante às salas do Pão de Açúcar, em Alcântara, só porque não o tinha visto e iria sair de cena na semana seguinte. Teria que o papar… Mas percebe-se que quem vê tantos filme e experimenta essa proximidade da ‘imitação da vida’, acaba por testar a sua própria experiência em certas cenas no ecrã. A quem já não aconteceu isso que atire a primeira pedra… Daí que esta ‘encomenda’ para fazer um livro tipo ‘auto-ajuda’ acabe por ter um efeito curioso. A mim, fez-me sobretudo procurar alguns dos filmes que me escaparam. Nesse sentido, quem sabe, até poderão mesmo ter mudado um pouco a minha vida. 

Qual foi a motivação para conceber um livro de auto-ajuda baseado em filmes? 

A motivação partiu de uma encomenda. Uma encomenda que pudesse fazer jus a moda dos livros de cinema formatados em lista. Achou-se que poderia ser boa ideia fazer uma listagem de obras que pudessem transmitir exemplos de vida. Obviamente, aceitei na condição de não fazer um livro meramente moralista e factual. Não, nada disso. Quis que fosse descontraído e parcial. E, já agora, e bastante pessoal pois são apenas os filmes que vi durante o meu crescimento de cine-filho até hoje. A editora quis que fossem apenas filmes made in Hollywood para não cair no vale tudo. 

Apetece perguntar: tens encontrado ao longo desta longa relação afectiva com o cinema esse lado de ‘ajuda’? No bom sentido, claro. No sentido em que o cinema nos ensina algo sobre a vida?… 

O cinema deu cabo da minha vida. Um divórcio, uma relação falhada e uma vida económica miserável. Mesmo assim, uma vida falhada sempre a ver cinema tem um lado irónico. Mas, passe a boutade, posso sempre dizer que ir ao cinema convulsivamente fez com que não me tornasse na personagem do Michael Fassbender do «Shame», ou um mero copy numa agência de publicidade. E sim, alguns dos exemplos que ponho no livro ajudaram a minha vida. Exemplos?: na secção 5 Filmes para ser Melhor Amante«Noites Escaldantes» ensinou-me duas ou três coisas. Na secção Para Aprender de Vez a Respeitar a Natureza, depois de ver «O Lado Selvagem» apeteceu-me apostar mais nas caminhadas pelas serras… 

Houve algum filme em particular que te fizesse pensar ter a actividade de ver e escrever sobre filmes como profissão? 

Não. Foi toda uma conjugação de acasos e destinos. A dada altura percebi que via uma obra de cinema com um olhar de anti-entretenimento. O lado sensorial do cinema fez-me querer ser espectador permanente. Às duas por três já achava o prazer da arte cinematográfica maior do que a vida.

Percebe-se que tens uma particular relação com a década de 80 e o cinema de geração de John Hughes. O que mais te fascina nele?

 O Hughes para mim é sinónimo de aprendizagem de uma fórmula de sinceridade aliada a espectáculo. Eu poderia ser todos os geeks dos seus filmes mais o Ferris Bueller. Todos os putos da minha geração devem muito ao seu cinema mesmo quando ele produzia produtos menos felizes. E o melhor do seu cinema era uma constante vontade de aliar o discernimento da música pop com o lado emotivo de percorrer uma ideia de vitalidade dos corpos jovens. Ver muito Hughes fez-me ficar um bocadinho melómano… 

Inevitável pergunta: entre os anos 70 e 2010, meio século de cinema, quais os filmes que mais te marcaram? Podes acrescentar actores e realizadores. 

Atenção, o livro não tem necessariamente os filmes da minha vida. Tem os filmes que achei que podem servir como dica de auto-ajuda. Por exemplo, odeio «O Rebelde Salvador» e acabei por o incluir esta na secção Para Saber Perdoar. E quanto a filmes preferidos, sou generoso, pois são mais do que as mães. E quando me perguntam, apetece-me responder com a vibração do momento. Neste momento acabei de vibrar com o «Headhunters» e apetece me dar os seguintes exemplos de filmes que me marcaram: «Eyes Wide Shut», porque senti um lado religioso que ainda hoje me intriga, «The Hunger», porque o cinema também passa pelo chamado prazer inconfessável… e «Goodfellas», porque só aqui consegui perceber como o cinema pode ser uma experiencia de adrenalina.

Qual o filme português que mais te marcou?

«Os Mutantes», de Teresa Villaverde. Comoveu-me aquela câmara que filmava toda uma agitação juvenil tão à flor da pele… 

Para terminar, mencionas o teu pai no prefácio – a quem dedicas o livro -, por ter sido o primeiro quem te levou ao cinema. Lembras-te de que filme foi?  

Obviamente que não. Penso que foi no Alvalade ou no Caleidoscópio. Estava escuro. E dormi.  

Vais apresentar no Indielisboa  «A Estrada para Mazgani» (passa no dia 4 de Maio), o teu road movie musical. Como foi essa experiência e o que descobriste neste músico? 

Foi uma experiencia de perceber que no género do documentário só * podemos arriscar se não pararmos para respirar. Foi também uma aventura humana. As tantas parecia o «Planes, Trains and Automobiles», do John Hughes. Mas o jovem Mazgani não é o John Candy… Acima de tudo, descobri alguém que tem uma pose para defender. Este filme de estrada só faz sentido se entrarmos de peito aberto no rock deste músico. Ah! E tentei evitar o cliché da peripécia…Preferi antes montar uma ponte entre o lugar do palco e as luzes das cidades desta Europa de hoje.

Tens outros desafios para fazer filmes ou escrever um livro? 

Estou a realizar um filme onde, aí sim, só poderia ter a óptica de um teórico do cinema. Estou ainda a preparar dois docs para Arte …Livro? Apetecia-me pegar no James Gray e fazer um livro de conversa… 

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