Depois de em Boi Neon (2015) investigar a masculinidade num Nordeste brasileiro em mutação económica, e de em Divino Amor (2019) questionar a ascensão evangélica através de uma parábola bíblica provocadora, Gabriel Mascaro regressa agora aos cinemas nacionais com O Último Azul (2025), filme onde evoca novamente as suas inquietações através da história de uma idosa que, num Brasil que coloca qualquer pessoa com mais de 75 anos em colónias encerradas, decide contrariar o destino e embarcar numa viagem para cumprir o seu sonho: o de voar.
Coube à veterana Denise Weinberg, cheia de espírito e resiliência, interpretar o papel dessa mulher, que vai contar com a ajuda de um barqueiro (Rodrigo Santoro) e de uma vendedora de bíblias digitais (Miriam Socarrás) na sua jornada.
Nesta conversa com o C7nema, Mascaro fala sobre o seu diálogo lúdico com a distopia, o road movie e o coming of age, e reflete sobre como o absurdo do cotidiano brasileiro molda o seu cinema. Com humor, lirismo e ousadia, o realizador partilha ainda as reações emocionadas do público mais velho perante o seu Último Azul.

Quando vi O Último Azul em Berlim, veio-me à cabeça um filme japonês chamado Plano 75, em que quem chegava aos 75 anos era lhes proposto a eutanásia – e já havia antecedentes num filme do Shohei Imamura (A Balada de Narayama). Parece existir uma preocupação global em relação ao que fazer com os idosos…
É muito interessante essa lembrança de outros filmes. Mas, na verdade, pouquíssimos na história do cinema tematizam de forma frontal o envelhecimento. Quando existem, geralmente lidam com a finitude da vida, a despedida, a morte. Como o Amor do Michael Haneke ou Tokyo Story do Ozu, em que os idosos parecem não pertencer mais ao presente.
Queria fazer o contrário: um filme sobre a pulsão, o desejo e o presente. Mas não existe género no cinema que abrace o corpo idoso enquanto protagonista. Nunca vi uma distopia, um coming of age ou um road movie com idosos como protagonistas de descobertas. Então, acho que por isso o filme vai, de maneira muito lúdica e lírica, brincar com esses géneros, quase como num filme infantil, mas que joga de maneira inversa e coloca esse corpo idoso numa jornada.
A sociedade espera do corpo idoso um corpo domesticado. É isso que é escrito enquanto narrativa para os corpos idosos. É a domesticação, é a memória do passado, é o avôzinho da casa. Não existe uma personagem numa jornada. Não existe impulso de vida.
Muitos dos seus filmes, como o Divino Amor, e este falam dos mecanismos de controle social que se adaptam sobre toda a sociedade. É outra das suas preocupações?
O que é curioso desse trabalho e no Último Azul é que o mecanismo de controle e vigilância social desse corpo idoso é transferido do Estado para as pessoas. A burocracia do Estado brasileiro é transferida para as pessoas. No filme, o Estado transfere o poder de polícia para os delatores. O filme cria uma alegoria desse Estado travestido de bem-estar social que diz que o futuro é para todos, mas cria um sistema de controle e vigília do corpo idoso, em especial, de maneira alegórica. Por isso vemos frases grafitadas nos muros: “devolvam o meu avô”.

Existe uma brincadeira no mundo literário que diz que se deviam transferir os livros das distopias e sci-fi para a seção “atualidade”. Como autor, sente que tem que puxar um bocadinho mais porque as distopias começam a tornar-se reais muito cedo.?
O ir mais longe aqui foi uma inversão. Optámos por não fazer um ir mais longe tecnológico. É o contrário. É ir mais longe enquanto paradigma de comportamento social. Nesta distopia, não existe nenhuma tecnologia disruptiva, nenhuma tecnologia que já não exista hoje.
O que muda é a normalização da mudança comportamental e cultural que permite que um cata-velho, um carrinho, leve os idosos do ar livre para uma colónia de idosos. O filme brinca de maneira lúdica com a mudança do conceito um pouco de distopia, para as tecnologias do presente.
A distopia é comportamental, cultural. Um carrinho que leva idosos pelas ruas como se fossem cães, por exemplo, não é uma tecnologia nova, mas um desvio de sentido no uso das coisas. E o filme não define um espaço-tempo. Poderia ter passado há dez anos ou ser amanhã. É um espaço-tempo suspenso, com humor. O humor vem porque o espectador reconhece que aquilo já faz parte da nossa realidade.
Numa conversa com Davi Pretto, a propósito de um filme distópico que ele realizou, mencionei que vemos muitos exemplos de distopias a virem do Brasil. Perguntei-lhe se havia um excesso de distopias no cinema brasileiro e ele respondeu-me que, dada a história do país desde a sua fundação, existiam distopias a menos. Também sente isso?
Acho que ainda se fazem menos distopias do que o país merecia. O Brasil é um país absurdo, surreal no dia a dia..É muito interessante e natural a maneira como o cinema tem que reagir a uma sociedade tão absurda.
Mas, com alegria, vemos um renascimento: tivemos anos de governo que tentou esconder o cinema — a própria agência de cinema fez isso! Agora voltamos fortes: Oscars, Berlim, Cannes. E isso é uma resposta ao absurdo, mas também com humor e acessibilidade.
O Último Azul é bem musical, lúdico e lírico. No Brasil, no primeiro fim de semana, 56 mil pessoas foram assistir a ele. Muitos levaram avós ao cinema. Tenho recebido fotos lindas.
E como tem sido a reação dos idosos ao filme?
Tem sido muito interessante. O filme ecoa neles de uma maneira muito singular. Acho que daria uma grande reportagem. São pessoas que nunca viram um filme sobre um corpo idoso desejante e a pulsar no presente. Que alegria, que delírio de viver. Dava uma ótima reportagem pegar nuns idosos e ver como o tema bate neles. Tem sido muito bonita a reação.

Os corpos e os sonhos são recorrentes no seu cinema, como vê no Boi Neon e no Último Azul. Que temas o movem como realizador?
É difícil dizer. Acho que você como crítico de cinema consegue, talvez, entender até mais do que eu, sobre o meu próprio cinema. Para mim, o processo não é tão consciente.
O projeto do Último Azul tem mais de dez anos. Não parte de uma história, mas de um desejo de investigar algo. Em Boi Neon, era a masculinidade num Nordeste em transformação económica. Estava a deixar de ser agrário para se tornar uma região super pop, industrializada, produzindo moda surf num lugar árido, sem água. Queria investigar como esse corpo masculino existia nesse contexto paradoxal.
Agora, queria investigar o corpo idoso, mas demorou mais tempo a desenvolver porque não existiam referências. Os filmes existentes sobre idosos eram todos sobre a despedida. Eu queria um corpo em reinício, numa nova jornada.
Até que ponto a conjuntura política, social e religiosa influencia o seu cinema e o seu processo criativo?
Este projeto era mais antigo, mas o Divino Amor surgiu primeiro porque o Brasil estava a passar por uma transformação muito rápida do movimento evangélico. Eu trouxe essa loucura de pensar uma orgia gospel, uma suruba religiosa em troca de casais em favor da família.
Acho que os meus projetos nascem um pouco contaminados com essa irreverência, com esse desejo de criar um jogo aí entre a trajetória e os géneros também. Acho que o Divino Amor é quase uma parábola bíblica sobre o renascimento do novo Messias. É quase que fazer uma pergunta, dentro de uma estrutura bíblica, “e se o Jesus viesse novamente? E dentro de uma suruba religiosa? É uma provocação, mas ao mesmo tempo é uma parábola bíblica, porque Jesus nasceu sem o ato da concepção. Ele não teve o pai ali, é o Espírito Santo. Para mim, a própria história bíblica já é uma provocação.

Apesar das marcas de autor já visíveis, continua a considerar-se um experimentalista?
Sim, acho que o desejo de experimentar e a inventividade é que me move. Neste filme, de forma mais lúdica, mais lírica.
O meu montador espanhol dizia: “é um filme joguetón”. Não sei se temos palavra equivalente em português. É um filme brincalhão.
E agora? O que é que se segue? Já tem algum plano delineado? Já está a trabalhar em algum filme?
Estou ainda numa campanha muito intensiva a trabalhar no lançamento do filme, mas espero daqui a uns dois meses conseguir parar a cabeça e concentrar a energia nos projetos, noutros desejos. Mas, por enquanto, não tenho nada escrito. Mas tenho muita vontade de me aquietar e começar a pensar no próximo.
Costuma rever criticamente os seus filmes ou prefere deixá-los no passado?
Não fico remoendo. Mas o processo crítico continua vivo no lançamento. Às vezes, vejo que algo que pensei não foi percebido. Isso fica comigo e pode voltar em outro filme. A imperfeição é boa, permite continuar a experimentar. O desejo de criação é isso. E é também uma aprendizagem.Cada filme traz erros e acertos que alimentam o próximo.






