Rodrigo Santoro: “O cinema brasileiro está no meu DNA. É o pilar de quem sou”

(Fotos: Divulgação)

Alçado à condição de estrela (premiada) já na sua primeira longa-metragem de veia autoral (Bicho de Sete Cabeças, indicado ao Leopardo de Ouro de 2001), Rodrigo Santoro brilhou em Hollywood na primeira década deste século, e lá ficou, a fazer blockbusters (300) e séries (Westworld), sem arredar pé da sua pátria natal, o Brasil. Desde domingo passado (16 de fevereiro), ele ajuda a produção audiovisual da sua pátria a notabilizar-se na Berlinale, à luz amazónica capturada pelos enquadramentos de O Último Azul. A produção assinada por Gabriel Mascaro virou uma coqueluche nas terras alemãs, chegando a 4 de setembro às salas de cinema nacionais.

No enredo deste river movie filmado por Mascaro, o governo brasileiro passa a transferir idosos para uma colónia habitacional para “desfrutarem” os seus últimos anos de vida em isolamento. Antes do exílio compulsório, Tereza, uma mulher de 77 anos (vivida por Denise Weinberg em colossal atuação), embarca numa jornada para realizar o seu último desejo: ter dignidade ser livre. Para isso, vai se enfiar numa jornada fluvial com direito a um barqueiro de coração partido (papel de Santoro) e uma vendedora de Bíblias digitais (Miriam Socorrás).

Numa conversa com o C7nema, o ator falou sobre a engenharia profissional que pauta as suas decisões.

Santoro com Denise Weinberg em “O Último Azul”

De Laís Bodanzky a Luiz Fernando Carvalho, passando por Walter Salles, Hector Babenco, Pablo Trapero e Fernando Meirelles, você tem uma escolha muito criteriosa de cineastas com quem trabalha. Onde é que o Gabriel Mascaro entra nesse rol de parcerias?

Ele entra no lugar da admiração. Boi Neon deixou-me admirado e chegamos a ter conversas para o Divino Amor, só que não tinha espaço na agenda. Conheci-o pessoalmente num bloco de carnaval em Olinda e notei que era interessante demais como artista e como pessoa. Nós ficamos flertando desde então e, um dia, ele me procurou dizendo que havia escrito um papel para mim, uma personagem afetiva.

O que esse barqueiro de “O Último Azul” tem de mais desafiante?

Ele é uma figura na contramão da representação do arquétipo masculino do homem que vive das travessias nas águas. É alguém que sofre por amor, no luto de um querer. É alguém que precisa do sobrenatural para esquecer a sua paixão, pois dói ficar sem ela.

O que a Amazónia de “O Último Azul” te trouxe de descobertas, de aprendizagem?

Eu surfei lá numa pororoca, uma vez, num programa de TV do Luciano Huck, faz tempo, mas para conhecer a Amazónia é fundamental permanecer lá, para sentir como se vive e notar como eles lidam com o tempo nos igarapés. Tanto que, ao aceitar o filme do Gabriel, pedi para ir para lá uma semana antes das filmagens, a fim de construir uma relação com o tempo.

Durante as filmagens de “Os Desafinados”, Walter Lima Jr., um dos realizadores mais respeitados com quem você trabalhou, disse-lhe que é importante saber valorizar o acaso. Como lida com essa lição hoje, como trata o acaso nos sets?

A passagem do tempo traz consigo coisas interessantes para a vida, como lidar com a necessidade de controle. Nada é mais permanente neste mundo do que a falta de controle. No entanto, o acaso também tem a sua permanência e eu dou boas-vindas a ele. A partir dele, crio e me reinvento.

Quando esteve em Cannes, na competição oficial, com “Leonera”, em 2008, você usou a sua fala na conferência no Palais des Festivals para falar do cinema brasileiro, à época, em campo na Croisette com “A Festa da Menina Morta”. Advoga em prol da produção do seu país de origem onde quer que vá? Que relação é essa de afeto?

O cinema brasileiro está no meu DNA. É o pilar de quem sou. Tanto é que decidi não me mudar para os EUA. Não tenho Greencard. Trabalho lá com visto. Identifiquei a necessidade de me manter conectado com o meu DNA e não me transformar num produto. Trabalho fora, onde for, com toda a dedicação, por demanda. No Brasil, eu me reabasteço e me reencontro.

Você segue feliz com essa estratégia?

Durmo tranquilo, pois estou perto dos meus afetos.   

Quais são as suas demais estreias para 2025, além de “O Último Azul”?

Tenho O Filho de Mil Homens, do Daniel Rezende, e Corrida dos Bichos, em que trabalhei com Fernando Meirelles. Estou a negociar um projeto mainstream americano e um projeto brasileiro para o segundo semestre.

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