Ao longo dos anos 1990 e da primeira metade dos anos 2000, a tradição de excelência do Rio Grande do Sul em curtas-metragens de grande inventividade foi alimentada por uma forte inquietação criativa de Gustavo Spolidoro, cujos filmes marcaram presença no Festival de Gramado. Velinhas (1998), Outros (2000) e o brilhante De Volta ao Quarto 666 (2009) saíram todos premiados do certame. Em exibição nos cinemas com a longa-metragem Os Dragões, o realizador, nascido no Porto Alegre em 1972, regressa ao evento esta sexta-feira para receber uma distinção honorária: o Prémio IECINE.
A justificação do júri de Gramado: “Gustavo Spolidoro foi escolhido pela sua atuação multifacetada. No seu trabalho pioneiro na criação cinematográfica, destaca-se pela difusão das possibilidades de experimentação da linguagem do cinema e pela formação contínua de novas gerações de realizadores.”
Paralelamente à consagração, acaba de lançar um site para partilhar as suas ideias e reunir a sua obra. Em www.gustavospolidoro.art.br é possível ver três das suas sete longas-metragens, como Ainda Orangotangos (premiada nos festivais de Lima e Milão), Morro do Céu e Errante. Também estão disponíveis 20 curtas, como Início do Fim, que passou por Sundance e Roterdão, além de diversas experiências audiovisuais.
Nesta conversa com o C7nema, faz um balanço do seu percurso nas telas.
Destacou-se como pilar do curta-metragem antes de transitar para as longas com Ainda Orangotangos, e fez do formato — das pílulas narrativas — um espaço de tensão e investigação. Há novos curtas no seu horizonte?
Participei de uma geração de realizadores de curtas que experimentaram e se destacaram neste formato, como Eduardo Nunes, Camilo Cavalcante, Phillipe Barcinski e Débora Waldman, entre outros. Toda a primeira fase da minha carreira, de 1998, com Velinhas, até 2007, com Ainda Orangotangos, foi de experiências ficcionais. Depois, explorei o documentário — de Morro do Céu (2009) a Errante (2015). A seguir, estimulado pela presença da minha filha Aimée (hoje com 18 anos), vivi uma fase infantojuvenil, com a série Ernesto, o Exterminador de Seres Monstruosos, entre 2015 e Uma Carta para o Pai Natal, em 2023. Agora, mais amadurecido, retomo o desejo de um cinema mais autoral — mas não sei ainda quando nem como o farei. Nunca deixei de fazer curtas: são 24 ao longo deste período, em diferentes bitolas, formatos e suportes. As ideias e instigações continuam a surgir. Sinto que, com o tempo, perdi o ímpeto revolucionário da juventude… aquela arrogância, não é? Mas ainda tenho muito por experimentar.
O que esses pequenos grandes filmes da sua génese enquanto realizador lhe deram de mais valioso? E o que a tradição gaúcha do curta-metragem, dos anos 1980, lhe ofereceu como via de expressão?
A liberdade criativa e narrativa. O impacto de filmes como Terral, de Eduardo Nunes, e Ocaso, de Camilo Cavalcante, incentivaram-me a fazer um cinema mais ousado, num período em que ainda partilhava salas de imprensa com Kleber Mendonça Filho, escrevendo sobre os filmes que via nos festivais para um dos primeiros sites de cinema em língua portuguesa, o Webcine Brasil, entre 1996 e 1997.
Que caminhos estéticos o filme Os Dragões aponta? O que esta longa representa na sua busca enquanto cineasta?
Não sei bem se tenho essa resposta. Os Dragões foi filmado há sete anos, embora só tenha sido lançado agora. Já está em exibição há 12 semanas. Neste mesmo período, criei o projeto de empoderamento audiovisual Câmara Causa, voltado para projetos sociais, escolas públicas e formação de professores — uma iniciativa que tem dado grandes alegrias profissionais. Foram 40 edições e mais de 290 curtas realizados, visíveis em www.cameracausa.art.br . Os caminhos que mais me interessam hoje são os de produzir filmes de baixo orçamento, com equipas mínimas e estruturas horizontais. Interesso-me pelo modelo de realização de Sean Baker — em Tangerine, Projeto Flórida e Red Rocket — e de Céline Sciamma em Bande de Filles e Petite Maman. Projetos com poucas localizações, personagens fortes, crítica social sem clichés e impacto narrativo.
Que narrativas podemos esperar do seu site? Há algum filme a nascer aí?
Em breve pretendo disponibilizar no meu site os argumentos dos filmes que realizei, bem como uma secção chamada Roteiros para Dar e Vender. Tenho muitos filmes escritos que nunca chegaram a concretizar-se por falta de financiamento — é o caso da minha primeira quase-longa, O Homem Que Roubou o Mundo, escrita com Gibran Dipp e Ivana Verle. Há também os que não avançaram porque, no fim de contas, me apercebi de que não me identificava plenamente com o guião. São mais de 30 roteiros de curtas ao longo dos anos, muitos dos quais ficaram pelo caminho.
Como avalia o atual estado do cinema gaúcho?
Com o passar dos anos, perdemos a posição de terceira força do cinema brasileiro. As políticas públicas perderam-se pelo caminho, e não há continuidade na formação de gerações nem na realização de editais consistentes. Santa Catarina soube aproveitar muito melhor as possibilidades da Ancine (Agência Nacional do Cinema). Minas Gerais há anos produz muito, e Recife/Pernambuco tem editais anuais há mais de uma década. Não é por acaso que grandes realizadores e filmes surgem desses lugares todos os anos. Há tanto sucesso acumulado que obras como Tatuagem, de Hilton Lacerda — apesar dos prémios e reconhecimento — não têm o destaque que merecem. Já aqui, alguns dos melhores filmes das novas gerações, como Castanha, de Davi Pretto, são ou foram feitos com recursos de editais pequenos ou mesmo com financiamento próprio.

