Desde 2001, quando estava prestes a fazer 30 anos, o Festival de Gramado instituiu um prémio honorário anual para cineastas, atribuído ocasionalmente a figuras essenciais da produção audiovisual, como é o caso de Mariza Leão.
“Produzir não é só fazer contas. É também acompanhar cada tratamento por que um guião passa“, disse a produtora, responsável por sucessos como Meu Nome Não É Johnny (2008), que teve dois milhões de espectadores no seu país, onde ela é sinónimo de salas cheias — ou era, antes da queda gradual de público face à concorrência das plataformas de streaming.
Desde os anos 2000, tem conseguido sucessos comerciais consecutivos. Por isso — e pela sua forma singular de produzir —, esta noite receberá, no Palácio dos Festivais de Gramado, uma láurea chamada Eduardo Abelin. O troféu homenageia o realizador homónimo, nascido em Cacheira do Sul (RS) em 1900 e falecido em 1984, autor de clássicos como O Castigo do Orgulho (1927) e O Pecado da Vaidade (1932). Normalmente, esta distinção é atribuída a realizadores (como Laís Bodanzky, Joel Zito Araújo, Walter Lima Jr. ou Cacá Diegues), mas, dado o número de vozes autorais que Mariza já produziu e o impacto que teve nas salas de cinema do seu país, acabou por ser convidada para integrar o rol de homenageados da maratona gaúcha em 2025. Cabe à leoa da produção nacional uma distinção que coroa o seu cuidado com o cinema. Produziu títulos com grandes bilheteiras, que somam cerca de 20 milhões de espectadores, como a hilariante saga De Pernas Pro Ar (2010–2019). No sábado, apresentou no evento a série em cinco episódios Máscaras de Oxigênio (Não) Cairão Automaticamente, que causou impacto na Europa ao passar pelos festivais de Berlim e Munique. Na conversa que se segue com o C7nema, ela relembra o seu percurso no Festival de Gramado.
O que ainda a inspira a produzir?
A sessão de Máscaras de Oxigênio (Não) Cairão Automaticamente emocionou-me como me senti quando lancei o meu primeiro filme. Não consegui dormir de emoção, após a projeção da série em Gramado, no sábado. Sou apaixonada, sou sensível. A minha vida, de certa forma, mistura-se com o cinema, e cada filme que fazemos — seja uma comédia, um drama ou uma história de amor — emociona-me profundamente.
Na conferência de imprensa da sua homenagem, o crítico Luiz Zanin Oricchio levantou uma questão crucial sobre os números do cinema brasileiro. Apesar dos blockbusters do primeiro semestre, da nomeação ao Oscar com Ainda Estou Aqui e de prémios no estrangeiro, os números das bilheteiras não correspondem ao que a produção exige. O que se passa?
O Brasil lança hoje cerca de 200 filmes por ano, mas a quota de mercado concentra-se apenas em cinco títulos. Os restantes 195 mal são vistos, porque não existe uma política que trate a produção cinematográfica como ela merece. Estamos numa crise. Não é fácil lidar com tantos altos e baixos. Precisamos de uma política cultural consciente.
Lembra-se da primeira vez que esteve no Festival de Gramado?
Com certeza. Estive em competição com Até à Última Gota, de Sérgio Rezende, e depois regressei à cidade com O Sonho Não Acabou, O Homem da Capa Preta, Doida Demais e A Porta ao Lado. O mais curioso é que na altura não havia nem 50 hotéis na região, como hoje. Toda a comunidade cinematográfica ficava no (tradicional) Hotel Serra Azul, e a boémia da noite acontecia lá. É o festival brasileiro com o qual temos mais laços na nossa vida.
Quais serão os seus lançamentos para este ano?
A 31 de agosto, estreia na HBO MAX a série Máscaras de Oxigênio (Não) Cairão Automaticamente. A 9 de outubro, lanço o novo filme da atriz Ingrid Guimarães, Perrengue Fashion, e tenho uma nova longa-metragem do Sérgio Rezende, Por Nossa Causa, já programado para alguns festivais que ainda não posso revelar.
Desde o fenómeno popular De Pernas Pro Ar, em 2011, Ingrid Guimarães tornou-se numa parceira recorrente. Como funciona essa parceria?
Cada vez brigamos mais — afinal, parceria é como um casamento. Mas ela é, acima de tudo, uma amiga. Uma amiga muito talentosa.

