Rodrigo Areias: Grãos de invenção na praia do algoritmo

(Fotos: Divulgação)

Realizam-se já mais e melhores edições do Festival de Locarno — hoje celebra-se a de número 78 — e o português Rodrigo Areias está sempre presente, com filmes que produziu ou realizou, como é o caso do ensaio memorialístico em formato documental NOVA ’78, apresentado no fim de semana na maratona suíça. Num dos primeiros encontros do C7nema com o realizador de Guimarães nas terras helvéticas, em 2021, quando esteve em Locarno com A Távola de Rocha, ele fez uma síntese da sua ambição artística. “Prefiro produzir pessoas do que filmes. É melhor produzir maus filmes de boas pessoas do que bons filmes de más pessoas. Quando produzo, luto para oferecer aos artistas com quem trabalho um espaço de liberdade criativa“, disse.

A centelha libertária que iluminava o seu olhar à frente das operações da Bando À Parte, a sua produtora, também brilha no seu trabalho como cineasta, prolífico e inquieto.

Há quase 30 anos, quando me interessei pela música, Portugal não era um lugar onde o sonho de viver da arte parecesse viável, sobretudo para alguém que vem de uma cidade pequena, como Guimarães. Nesse sentido, os meus sonhos de me tornar músico e viver do rock’n’roll não se concretizaram. Mas percebi, por outros caminhos artísticos, que esses sonhos não eram tão inalcançáveis. No caso, o caminho do audiovisual. Decidi então mudar de vida e fazer cinema. Tocava guitarra há muitos anos e foi uma experiência importante, porque destruiu uma série de mitos. Nos anos 90, tinha uma banda chamada Blue Orange Juice, algo parecido com os Sonic Youth. Depois toquei com vários outros músicos, criando ligações. Estou no cinema profissionalmente desde 2001. Foi uma escolha em que mantive o interesse por uma expressão artística de investigação“, contou-nos numa conversa anterior com o C7nema.

A conversa atual centra-se no trabalho de arquivística de NOVA ’78. Feito em parceria com o Reino Unido, o filme mostra imagens nunca antes vistas da lendária Nova Convention, um evento de três dias realizado na cidade de Nova Iorque entre 30 de novembro e 2 de dezembro de 1978. Concebida como uma homenagem ao escritor William S. Burroughs (1914–1997), a “convenção” incluiu seminários, atuações musicais, leituras e performances. Participaram dela uma mistura singular de académicos, editores, escritores, artistas, roqueiros e discípulos da contracultura. O evento teve um pequeno contratempo: os organizadores anunciaram a presença de Keith Richards, o que fez esgotar os bilhetes. Contudo, o cancelamento de última hora de Richards provocou uma certa instabilidade no humor da plateia.

Na entrevista que se segue, o artista por trás de Hálito Azul e 1960 explica o seu processo criativo.

‘NOVA ’78’ conta com a realização de Rodrigo Areias e Aaron Brookner

Como é que os arquivos de “NOVA ’78” chegaram até si? O que representa um arquivo enquanto objeto fílmico?

O arquivo chegou-me através do seu detentor, Aaron Brookner, correalizador do filme. Na verdade, o Aaron já trabalha os arquivos do tio, Howard Brookner, há mais de uma década, e eu já conhecia parte deles. Em janeiro de 2022, quando pensavam já não haver mais nada para descobrir, surgiram mais 40 rolos de película nunca antes vistos. O Aaron ligou-me logo a convidar-me para participar neste projeto. Fiquei naturalmente muito entusiasmado e fizemos a recuperação de parte desse arquivo em Guimarães, bem como a montagem de imagem e som.

O Brasil recebe agora “O Pior Homem de Londres”, que estreia por lá em setembro, e vai ver uma das suas parcerias com Edgar Pêra, “Não Sou Nada”. Como se processa o vosso modo de criação e o que o leva, recorrentemente, a apostar nele como voz autoral?

A minha relação com o Edgar já tem 25 anos de trabalho, cumplicidade e amizade. Estamos neste momento em fase de montagem da sua próxima longa-metragem, Guerrilha no Asfalto. O nosso processo de trabalho é de grande proximidade, e considero que o meu papel enquanto produtor é garantir que uma voz tão fora do comum como a do Edgar tenha liberdade criativa para criar como lhe apetece. É esse o meu grande objetivo: proporcionar-lhe as condições para que, enquanto artista, possa fazer o que deseja criativamente. Sei que é uma luta utópica no mundo atual, mas é precisamente essa a função da arte.

O que um festival como Locarno, para onde vai sempre, representa hoje como montra para o cinema português — e o que mudou com a chegada de Giona A. Nazzaro?

Um festival como Locarno simboliza essa mesma liberdade. Tem grande dimensão e projeção internacional e mantém um princípio autoral, abrindo espaço a filmes mais radicais, mais fora do algoritmo que mais cedo ou mais tarde nos irá aprisionar a todos. Não acho que a chegada de Giona A. Nazzaro tenha alterado substancialmente a imagem que o festival já tinha sob a direção dos diretores anteriores — como Carlo Chatrian — mas revejo-me profundamente no princípio eclético da programação atual de Locarno, onde se olha o cinema sem preconceitos, onde se homenageia Jackie Chan e Rossellini no mesmo festival, e onde eu posso ir ver ambos sem preconceitos.

Quais são os novos projetos enquanto realizador? E enquanto produtor?

Como realizador, estou a finalizar um novo documentário filmado em Super 8mm, centrado nas tradições orais da periferia europeia, com gravações na Islândia, Lapónia, Ucrânia (durante a guerra), Sardenha e Portugal. Entretanto, já estou a preparar a minha próxima longa-metragem de ficção, intitulada Balada de Prata, uma adaptação de dois contos de Gonçalo M. Tavares, com Aki Kaurismäki como produtor associado, que filmarei no próximo ano entre a Ucrânia e Portugal. Como produtor, temos mais de duas dezenas de filmes em produção. A lista é longa e inclui também coproduções com o Brasil.

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