“Só encontramos bandas desenhadas nos cinemas. É terrível”: Colm Meaney em entrevista

(Fotos: Divulgação)

Com um legado que atravessa décadas no cinema, televisão e teatro, Colm Meaney continua a surpreender com a sua versatilidade e carisma. Incluído na lista dos “50 Maiores Atores Irlandeses de Cinema de Todos os Tempos”, pelo The Irish Times em 2020, Meaney conta com mais de 150 créditos entre a sétima arte e a TV, destacando-se a sua presença em filmes como The Commitments, The Snapper e The Van — baseados na trilogia de Roddy Doyle —, além de Con Air e Layer Cake, e em séries como Star Trek: Deep Space Nine (1993-1999).

Ainda antes de o vermos lá para o fim do ano em The Panic, no papel do banqueiro J.P. Morgan, o irlandês surge agora no Festival de Locarno com Legend of the Happy Worker, filme onde assume o papel de Clete, uma figura enigmática que introduz tensão e ambiguidade num mundo aparentemente feliz.

Realizado por Duwayne Dunham, Legend of the Happy Worker chega ao público como “uma fábula do nosso tempo”, misturando humor e crítica social numa estética que oscila entre o faroeste e a animação clássica da Disney. Com um estilo profundamente absurdo, o filme evoca inevitavelmente a atmosfera singular de David Lynch — que atuou como produtor executivo.

Numa conversa descontraída, Colm Meaney falou-nos sobre o projeto, o seu processo de atuação, as mudanças na indústria e a sua visão crítica sobre o futuro do cinema.

Pode contar-me como acabou por se envolver neste projeto e qual foi a sua primeira impressão ao ler o guião?

Foi um projeto que veio ter comigo. É um filme bastante invulgar, eu sei, mas chegou a mim de forma bastante normal: o meu agente enviou-me o guião e perguntou o que achava. Li e adorei. E nem sabia bem do que se tratava. Não conseguia imaginar como é que aquilo iria ser concretizado. Mas adorei a escrita dos diálogos e gostei imenso da personagem. Por isso, simplesmente disse: “Sim, vamos a isso.” E assim foi.

E como foram as conversas com o realizador sobre a sua personagem?

Bem, o Duwayne Dunham foi maravilhoso nesse aspecto, porque deu-me liberdade total. Disse: “Tudo o que quiseres trazer para esta personagem, para mim está ótimo.” E deu-me a entender que podia ser tão exagerado quanto quisesse, porque tínhamos mais ou menos decidido que este filme era como um desenho animado em live-action, por assim dizer. É muito cartoonesco em várias cenas e até em alguns diálogos.

Portanto, é tudo mais exagerado, mais amplo, nada naturalista. E quando percebi isso — e já se notava pelo guião —, este tipo é o vilão, mas também é incrivelmente dramático. Um verdadeiro fanfarrão. Inventa um monte de disparates, não ouve ninguém, simplesmente atropela tudo e todos à sua volta.

Isso deu-me carta branca. E o Dwayne apoiou totalmente a minha abordagem.

Thomas Haden Church e Josh Whitehouse em Legend of the Happy Worker

E quando se trabalha num projeto que começou há 30 anos e foi filmado há 7, isso traz mais pressão para um ator por ser um projeto de paixão do realizador?

O Dwayne é uma pessoa muito descontraída, percebes? Um verdadeiro surfista californiano. (risos) Nunca senti qualquer tipo de pressão da parte dele. Mas consigo imaginar que ele tenha sentido bastante, sobretudo na fase final. Os 30 anos a tentar concretizar o projeto já foram duros, mas depois de o filme estar feito, surgiram disputas de direitos e muita confusão do lado empresarial. Foi por isso que o lançamento demorou tanto tempo.

Imagino bem a pressão que ele sentiu. Este era o projeto de vida dele. E depois surgem todas essas complicações do lado do negócio, que nada têm a ver com a arte ou com o trabalho criativo.

E com uma carreira tão longa como a sua — tem mais de 150 créditos listados na IMDb —, como escolhe os seus papéis hoje em dia?

Leio os guiões. Se me entusiasmam, se me despertam interesse, avanço. Costumo ler primeiro como se fizesse parte do público. Se me prendem, volto atrás e releio, desta vez com foco na personagem que me estão a propor. Analiso melhor: vejo se me adequo ao papel, se consigo interpretá-lo, se quero interpretá-lo. Esse é o meu processo.

Está no meio há muito tempo. Passou do analógico para o digital e agora temos uma indústria diferente com o negócio do streaming. Como é que essas mudanças afetaram o seu trabalho como ator? Nos sets, na produção, no negócio em si.

Existem duas questões a ter em conta. As plataformas de streaming abriram mais oportunidades, de certa forma. O problema é que os cinemas foram completamente invadidos por filmes de super-heróis. Já não há mais nada. Os jovens que querem ver um filme novo e interessante, onde vão? Nos multiplexes só se veem filmes de banda desenhada — existe uma infantilização de gerações inteiras.

Por outro lado, o streaming deu espaço a realizadores que, nos anos 1970, teriam estreias em sala. Hoje até o Scorsese vai para o streaming. É uma loucura. Completamente insano.

Do ponto de vista do trabalho, a câmara digital basicamente destruiu o processo do ator. Durante mais de 100 anos, desenvolvemos uma forma de trabalhar: ensaiar com o realizador, mostrar ao diretor de fotografia (DOP), fazer ajustes, depois mostrar à equipa técnica, mais ajustes… Os atores iam depois preparar-se, enquanto a equipa montava tudo. E então ensaiava-se com a câmara. Toda a gente sabia o que estava a fazer. Era assim que se filmava em película.

Agora? Acabou. Dizem “ação” e experimentam isto, aquilo e aqueloutro. É uma confusão. Já estive em sets onde nem dizem ao ator onde está a câmara! Parte do trabalho do ator é saber onde ela está. Não é olhar diretamente para ela, claro, mas saber onde está para ajustar a sua posição… Isso já não interessa.

Sabe, tenho pena dos montadores. Devem receber milhares de takes inúteis. Pensam que isso acelera o processo, mas não acelera nada. Continua a demorar o mesmo tempo a filmar. Era muito melhor fazer bem à primeira.

Outra coisa que me incomoda nas câmaras digitais: fazemos um take, dizem “vamos fazer outra vez”. O DOP diz: “esperem, só um pequeno ajuste.” E esse ajuste obriga a outro, e outro. Meia hora depois, ainda estamos ali à espera. E eu dizia no set: “Isto já é outra cena, já não é o mesmo enquadramento. A câmara estava ali, agora está aqui.” É um caos. E o que mais me irrita? É que não há razão para não filmar corretamente com digital.

Falei com o Stephen Frears sobre isto e disse: “O digital destruiu o nosso processo.”
Ele respondeu: “Disparate, do que estás a falar?”
Perguntei: “Filmas em digital?”
“Sim.”
“E mudaste o teu processo?”
“Não.”
“Pois. Porque aprendeste no tempo da película. Muitos realizadores novos nunca filmaram em película e nem sabem do que estamos a falar.”

Colm Meaney e Cillian Murphy em How Harry Became a Tree

Olhando para a sua carreira, existe algum papel, personagem ou filme que guarda com carinho? Que pensa: ‘isto foi uma grande experiência’?

Sim, alguns. A trilogia baseada nos livros do Roddy Doyle — The Commitments, The Snapper, The Van. Três filmes irlandeses. Trabalhei com o Alan Parker em The Commitments e com o Stephen Frears nos outros dois. Foram experiências maravilhosas, uma personagem incrível. Interpretar a mesma personagem três vezes foi um presente. E não era um super-herói mascarado, era uma personagem real.

Também fiz um filme maravilhoso com o grande Goran Paskaljević, um génio sérvio, que se tornou um grande amigo. Chama-se How Harry Became a Tree. Estivemos no Festival de Veneza em 2001. Depois íamos para Toronto, mas enquanto estávamos a fazer escala em Paris, aconteceu o 11 de Setembro. Foi o colapso. O filme nunca chegou a ter distribuição. Foi uma perda. Um filme belíssimo, escrito por ele e pelo filho. Baseado num provérbio chinês, filmado na Irlanda, com produtores italianos. Uma mistura improvável. Mas era lindo. Parte-me o coração pensar que se perdeu.

Qual foi o maior desafio que encontrou em Legend of the Happy Worker? É alguém que gosta de desafios?

Sim. Gosto de variedade de projetos. Tento sempre diversificar. Este guião chamou-me a atenção precisamente por ser tão diferente. E, como disse, com boa escrita, um ator sente-se como um músico com uma boa partitura. É só tocar as notas. Esta personagem estava muito bem escrita. Levou-me a ser exagerado, dramático — e o Duwayne Dunham permitiu isso. Alguns podem achar a performance exagerada (over the top), mas eu gostei.

Gosta de performances exageradas?

Sim! Um dos meus favoritos sempre foi o Nicholson. Era intenso, percebes? Sempre adorei o trabalho dele. Era extraordinário.

E o que vem a seguir para si? Ainda valoriza mais o cinema do que o streaming, ou olha para os trabalhos de forma semelhante?

Bem, há um filme que fiz no ano passado, que deverá estrear em dezembro, chamado The Panic. Um guião brilhante sobre a crise financeira de 1907, que pouca gente conhece, porque foi ofuscada pela crise de 1929. O colapso foi causado por J.P. Morgan, que o orquestrou em benefício próprio. Falamos do J.P. Morgan, Charles Barney, Rockefeller, Teddy Roosevelt…

Acho que vai ter uma estreia limitada em dezembro, para a época de prémios, e depois um lançamento mais alargado em janeiro. Espero que tenha uma boa estreia nos cinemas.

Também acabei de filmar um projeto com a Sally Field em Vancouver, para a Netflix. Vai estrear por lá. A verdade é que só queremos que o filme encontre público — seja no streaming ou no cinema. Mas preferia que fosse no cinema.

Hoje em dia, só se vê super-heróis e bandas desenhadas nas salas.

Já não vai às salas de cinema?

Não. Não há nada que me interesse ver. Cresci nos anos 70, a ver Scorsese, Bertolucci, Hal Ashby. Ia ao cinema ver o trabalho desses mestres. Hoje em dia, só encontramos adaptações de bandas desenhadas nos cinemas. É terrível. É trágico. Mas é o que temos.

Acha que festivais como o de Locarno são importantes para trazerem obras diferentes que já não encontra nas salas comerciais?

Sem dúvida. É por isso que tento apoiar os festivais. Estive em Cannes este ano. Também vou a festivais pequenos. Qualquer espaço que promova o cinema tem de ser apoiado, senão desaparece.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/bn00

Últimas