Com 59 anos, Samuel Le Bihan tem construído um percurso sólido e multifacetado no panorama audiovisual francês, com passagens pelo teatro, cinema e televisão.
Após o sucesso em filmes como Capitaine Conan (1996), de Bertrand Tavernier — que lhe valeu o César de Melhor Esperança Masculina nos Césars —, Le Pacte des Loups (O Pacto dos Lobos, 2001), de Christophe Gans, e Frontière(s) (2007), de Xavier Gens, o ator nascido na Normandia, em Avranches, acrescentou o da série televisiva “Carpe Diem”(2024-).
Foi, no entanto, como Alex Hugo, um polícia marselhês transformado em investigador das montanhas alpinas, que conquistou a atenção máxima do público. A série tornou-se um verdadeiro fenómeno de longevidade em França (2014-), graças a uma abordagem “simples e clássica” na combinação do suspense e das paisagens bucólicas. A isto acrescente-se uma interpretação contida e cheia de carisma por parte de Le Bihan — um herói marcado pela melancolia e determinação.
Foi a propósito do sucesso de Alex Hugo que em janeiro passado nos sentámos à mesa com o ator e celebrámos, através de uma breve conversa, os dez anos da série e a sua presença nela.
Como é trabalhar numa série com mais de 10 anos e 3 dezenas de episódios?
Sou o primeiro a ficar surpreso com a longevidade do projeto, porque nunca teria imaginado. Todos os anos perguntamo-nos: vamos regressar? Mas temos muito sucesso e conseguimos sempre ter episódios que se renovam e que são bastante surpreendentes. Existe uma espécie de excitação permanente.
Enquanto não estivermos sentados numa zona de conforto em que tenhamos a impressão de estarmos apenas a babar-nos com o que temos, conseguimos renovar-nos e encontrar novos espaços para a criação. Mas estou bastante feliz e divirto-me com o Alex Hugo.

Ao longo desses 10 anos, como se trabalhou a renovação da série e da personagem?
Os episódios vêm de autores e realizadores diferentes. Há uma pequena competição entre cada um, que os leva a querer ser um pouco melhores que os outros. Isso cria qualidade, força-te a não ficar no conforto e a dar o teu melhor. Depois, ao nível das histórias, podemos sempre encontrar muitas coisas interessantes em todo o lado.
Como é que tudo começou? Participou num casting para a série?
Sim, foi um casting, era para um trabalho. Não era uma série, mas sim um projeto isolado. Correu bem e a France Télé pediu-nos para fazer um segundo, depois um terceiro, e assim sucessivamente. Todos os anos fazemos dois ou três. Tornou-se uma série, e funciona. E assim vamos avançando. Todos os anos dizem-me: “Bem, vamos fazer isto outra vez.” “Sim, está bem.” “Estás livre?” “Sim, estou livre.”
Os episódios vão sendo filmados com realizadores diferentes, mas existe alguma espécie de showrunner?
Não. Não há showrunners. É um pouco uma confusão (risos), pois cada um faz o seu próprio trabalho. Existe uma produtora e ela faz um bocado do trabalho do showrunner. Mas, ao mesmo tempo, ser showrunner – no sentido americano – é um trabalho sério e que vai além de produzir.
Esta situação tem a ver com o facto de desde o início o Alex Hugo nunca ter sido planeado dessa forma. Avançamos conforme as coisas correm, não existe um verdadeiro projeto. A cada temporada começamos de novo, fazemos perguntas, procuramos, e fazemos propostas.
A personagem que interpreta deu-lhe algo para a sua personalidade ao longo destes dez anos?
Gosto da necessidade de liberdade da personagem, do seu senso de justiça, da sua relação com o ambiente, da sua filosofia, da forma como aborda a vida e a questão da felicidade. Traz-me paz, mas também é um espelho de quem sou e do que gostaria de ser. Esta personagem é muito pura, é autêntica nas suas decisões, é um homem corajoso.
Ele fez a escolha da liberdade e essa escolha impôs solidão. Ele assume essa solidão. Depois, na sua ideia de justiça, envolve-se totalmente nisso através do seu trabalho. Mas acho que tem uma verdadeira vocação. A sua relação com o ambiente é algo que partilho. Na verdade, os seus valores são valores que partilho e que me inspiram.
Vai continuar a ser o Alex Hugo por mais algum tempo?
Ainda temos ideias para o fazer evoluir, mas estamos numa profissão em que nunca sabemos o que vamos fazer amanhã. De qualquer forma, temos ideias sobre como podemos fazer evoluir o Alex Hugo. E há espaço para evoluir. Vamos ver.

Tudo mudou com o streaming. Há uma nova concorrência. Como é viver 10 anos a mesma personagem num mundo de séries sempre a surgirem e a serem canceladas?
O Alex Hugo é há algo que está fora de moda. Há algo de muito clássico que pode ser visto até como um pouco antiquado, mas, por outro lado, é também intemporal. No fundo, é uma série muito simples, pois oferecemos uma investigação policial num ambiente natural. Isso é reconfortante e ao mesmo tempo intrigante, despertando a nossa curiosidade, enquanto nos faz ver outra forma de vivermos as nossas vidas. Ir para as montanhas, dar um passeio na natureza, ter amigos. Há uma relação humana bastante forte.
Neste sentido, sentimo-nos um pouco fora da concorrência. Existe uma concorrência feroz na TV, com séries que trazem temas e conceitos muito atraentes. Nós permanecemos na simplicidade, no clássico. E isso é algo que tem o seu próprio público.
Tem carreira no teatro. Ainda continua a atuar nos palcos?
Fiz muito teatro, mas parei. Acho que a última peça que fiz foi em 2016.
Como escolhe os projetos atualmente? É uma questão de dinheiro? Uma questão artística?
Hoje as minhas escolhas são mais por razões artísticas. São sobretudo personagens que quero interpretar. Especialmente, nos últimos anos, fui atrás de desafios em personagens difíceis de interpretar.
Foi o caso em Seul (2024), onde interpreto este marinheiro que viaja pelo mundo; um outro filme que fiz sobre mineiros (Gueules noires, 2023); ou o papel de um advogado que defende uma mulher que matou o filho (Tu ne tueras point, 2023).
Estes temas difíceis e complexos exigem muito trabalho. O sucesso de Alex Hugo permitiu-me fazer essas histórias e filmes mais complexos.
Mas o Alex Hugo é o papel com que as pessoas mais o identificam quando anda pela rua…
Sim, é verdade. Posso estar muito identificado com essa personagem, e por isso não me propõem tantos papéis no cinema. Mas não me importa, tenho outros trabalhos em séries e telefilmes além do Alex Hugo. E isso não é mau, porque sou eu que proponho e componho muitas vezes os projetos em que entro. Sou co-produtor e também escrevo. No geral, faço coisas bastante diferentes, porque as filmagens do Alex Hugo ocupam apenas dois ou três meses por ano.
Falamos de televisão, falamos de streaming. Os meios de produção mudaram consideravelmente desde que fez o Alex Hugo pela primeira vez?
Temos menos dinheiro do que antes. (risos) Ao mesmo tempo, a tecnologia evoluiu muito. O material é menos pesado, mais leve. E funciona tudo a bateria, o que facilitou e ajuda a consumir menos energia. Mas, apesar desta maior flexibilidade nas filmagens, há surpreendentemente menos dinheiro. Há mais filmagens e menos dinheiro do que antes. Talvez seja porque haja menos publicidade. Não sei. Mas isto acontece também nas plataformas: há mais trabalho para os atores, mas menos dinheiro. Claro que há séries que escapam a isso e têm mais dinheiro.
Onde se vê nos próximos anos?
Não sei.
Há ainda algum projeto que sonha fazer?
Não sei, depende da abordagem dos papéis. Há papéis que quero fazer. Escrevo, vendo, desenvolvo. Por exemplo, queria explorar a paternidade. Então escrevi sobre isso.
Mas não tem um plano?
Não sei. Quero viajar — seja por trabalho, seja nas férias entre filmagens. Claro que há desejos, mas podemos realizá-los todos? Já realizei muitos, então está tudo bem. Mas realizarei todos? Não sei.

