Nas curtas-metragens que realizou — como Belle gueule (2015) — Emma Benestan já delineava o seu território cinematográfico: a análise das relações entre homens e mulheres, onde desejo, poder e violência se cruzam. Com Fragile (2021), esse olhar aprofundou-se. Mas é em Animale — o seu mais recente filme, uma espécie de retorno ao universo de Prends garde à toi — que esse olhar ganha uma nova dimensão, agora imerso no cinema de género, entre o western e o horror.

“Cresci a 40 minutos da Camarga, por isso conheço-a desde a minha infância. Tenho ascendência argelina e o meu pai mostrou-me muitos westerns quando era pequena, particularmente do John Ford. Na adolescência, inconscientemente, comecei a pensar que seria poderoso ver uma mulher argelina como protagonista — algo que nunca vemos neste tipo de filmes.”, explica Emma Benestan ao C7nema, uns dias antes do seu filme encerrar a Semana da Crítica no Festival de Cannes. ”Sempre senti a Camarga como um faroeste. A verdade é que especialmente nos anos 1960 e 1970 tivemos westerns na Camarga. Quando comecei a escrever o guião, havia algo de orgânico na minha abordagem de western. É um território muito importante para mim. Gosto de filmar em territórios e cenários que se sintam insubstituíveis. Como um ator insubstituível num papel. Este é um filme que não podia ser filmado no Arizona, em Paris ou na Normandia.”
O filme acompanha Nejma, uma jovem que treina arduamente para vencer a próxima corrida camarguesa, um desporto onde o touro não morre, nem é ferido. Após uma noite de celebração com amigos, Nejma acorda ferida, desmemoriada, com o corpo marcado por um trauma que não consegue recordar. Quando os seus rivais começam a ser encontrados mortos, a linha entre realidade e pesadelo desfaz-se. Será que uma fera selvagem vagueia pela região? Ou será a própria Nejma quem se transformou?
Benestan voltou a escolher Oulaya Amamra, com quem já trabalhara em Belle gueule, para o papel principal. A própria atriz reconheceu ao C7nema que não conhecia nada do mundo da corrida camarguesa, nem da cultura toureira. “Não conhecia de todo este mundo, as tradições camarguesas e até a cultura toureira”, disse a jovem estrela de Divinas (2016) ao C7nema. “Nunca tinha estado perto de um touro na minha vida. Temos sempre uma imagem na nossa cabeça de como as coisas devem ser, e os touros para mim eram criaturas enormes, violentas, que dão medo. Foi também impressionante trabalhar com pessoas que vivem e trabalham no quotidiano com eles e transmitiram-me o que conheciam deles. Foram os melhores professores possíveis e havia uma conexão entre os criadores e os touros. Sabiam os nomes, as personalidades de cada animal. Todos os animais são diferentes, como os atores, e imprevisíveis. Observei-os muito, até a sua respiração e suspiros, para me inspirar para o papel e para identificar a minha personagem. Foi de alguma forma mágico.”

“Ficou claro que o facto de a personagem ser uma mulher num mundo dos homens nunca seria uma questão essencial para a personagem da Nejma, que objetivamente carrega nela características mistas de atributos de homens e mulheres“, acrescenta Emma. Já Oulaya admite que se preparou muito para as exigências do papel: “Houve também uma preparação psicológica para lidar com os animais, senti-los, comunicar com eles, sentir a sua energia. Senti também ser um animal, uma besta, algo que provoca medo, mas que carrega uma solidão dolorosa. Ela está só numa família que trabalha com os animais. Isolei-me muito.”
Já habituada ao mundo dos documentários — onde os imprevistos são frequentes —, Emma Benestan sublinha que o facto de ter de lidar com animais selvagens como os touros trouxe algumas complicações à sua ficção, exigindo um trabalho cauteloso nos sets e um desenho coreográfico particular para integrar os animais no filme.

Evitando sexualizar Nejma, cujo “corpo sofre pelo trauma, mas também pelas suas metamorfoses”, Emma segue também em Animale a linhagem do body horror feminista mais recente, que nomes como Julie Ducournau (Grave; Titane) e Coralie Fargeat (The Substance) trouxeram para as salas de cinema com múltiplas premiações. Sobre esta nova vaga do cinema francês, Emma explica: “Não posso falar em nome da Coralie ou da Julie, mas creio que crescemos todas num tempo em que a animalidade feminina era erotizada. Creio que pegamos nesses elementos e voltamos a questioná-los. É uma nova vaga que vem do #MeToo e #BalanceTonPorc e que questiona muitas coisas que estavam padronizadas, desafiando o olhar masculino. Queremos, fundamentalmente, mostrar novas formas de existir. Há sempre uma questão masculino-feminina no meu cinema e não é pelo sabor dos tempos“.
“Existe uma nova geração que quer mudar as coisas.“, conclui Oulaya Amamra, que admite voltar a trabalhar com Emma no futuro. “Cresci com a Emma, colaboramos na minha primeira curta metragem quando tinha 12 anos”.
“Animale” chega aos cinemas nacionais a 31 de julho.






