Quando, a 3 de julho de 2025, o diretor artístico do Festival de Karlovy Vary, Karel Och, anunciou que estariam 12 filmes na competição ao Globo de Cristal, apenas nomeou 11 títulos. A razão para a omissão da divulgação de um deles era simples: a última longa-metragem dessa competição era iraniana e, em consideração à “segurança dos seus criadores“, esperou-se que eles saíssem do país. Vinte e um dias depois, isso aconteceu, e “Bidad“, de Soheil Beiraghi, foi anunciado como o último concorrente ao prémio máximo do festival checo.
“Devido à complexidade da nossa língua, Bidad tem 3 significados em persa, dependendo da frase em que está inserida. O primeiro significado está ligado a algo sem choro ou sem gritos. O segundo significado é injustiça, mas com clamor. Já o terceiro é um termo técnico musical muito específico da música persa“, explicou Soheil Beiraghi ao C7nema, em Karlovy Vary.

Em “Bidad“ seguimos a jovem cantora Seti, que se recusa a aceitar o facto de as mulheres no Irão não poderem atuar em público. Agastada com a situação, perguntando mesmo “porque tem voz se não a pode usar“, ela escapa frequentemente durante a noite e canta num espaço público de Teerão, captando a atenção das redes sociais e das autoridades, que partem no seu encalce. “Há muito que desejava fazer um musical, embora não da maneira a que estamos habituados. Queria que ele abordasse questões sociais importantes”, disse Soheil, que antes de “Bidad” já tinha realizado uma trilogia de filmes (“I (Me)”, “Cold Sweat” e “Popular”) onde o foco eram as mulheres: “Desde o meu primeiro filme que tenho interesse em mulheres que têm nelas a força de dizer não. Pessoas que se levantam contra algo e têm dificuldades. Queria levar ao cinema essas mulheres incansáveis (…) Vou buscar essas mulheres ao dia a dia, observando como conduzem as suas vidas, nos seus momentos privados, e elas têm histórias épicas para contar. Creio que as mulheres são as guardiãs da vida. São elas que trazem a vida ao mundo. E admiro muito as mulheres que se levantam contra o regime.”
Regime esse que está preenchido por figuras autoritárias, religiosas e conservadoras, com os quais a geração Z (Zoomers, 1990-2010) iraniana tem colidido frequentemente: “Temos uma geração mais velha genericamente conservadora, tradicional e religiosa. O conservadorismo vem principalmente do sistema. Por outro lado, temos uma nova geração ultra progressista e muito ocidentalizada. A questão é se este novo poder que vemos crescer terá força para suplantar o outro, fortemente conservador. Ainda assim, há pessoas, mesmo de uma geração mais antiga, que estão do lado da Nova Vaga, como a mãe da jovem que vemos em cena. Ela também foi vítima do sistema. Ela queria ser cantora, mas acabou como dançarina. Todos acabam por ser vítimas do conservadorismo (…) Aquilo que as mães não tiveram, tentam providenciar as filhas. Têm relações complexas, mas muito fortes emocionalmente. Existe entre elas uma relação de amor tão grande que é proporcional à dificuldade que têm em viver juntas. ‘Bidad’ foi uma oportunidade imensa mostrar esta relação complexa”.

Afirmando que durante os dois anos de preparação do filme ouviu várias músicas que poderiam estar no filme, consoante as emoções que queria implantar, Soheil explica ainda o surgimento de uma personagem masculina, que vai proteger Seti das autoridades, no último terço da obra. E mais que “o homem “cavaleiro salvador” da “dama em apuros“, o realizador aponta a conexão entre as duas personagens para a ligação entre duas gerações, a Z e a Millennial (1981-1996): “A geração Z iraniana fez um regresso ao passado musical do Irão. A geração Millennial, que viveu a Guerra Irão-Iraque, tem dentro dela algo que não expressa. São pessoas com um coração que contradiz o que fazem. Eles nasceram sob grande vigilância e, quando se juntaram à geração Z contra o regime, foi um grande encontro. A Z levou a sua atitude bastante destemida e os Millenials o cuidado e a atenção. Isso vê-se bem na cena final, em que a Millennial serve de escudo para proteger a Z”.
O Festival de Karlovy Vary decorre até dia 12 de julho.

