The Baltimorons: uma comédia terapêutica e uma “carta de amor a Baltimore”

(Fotos: Divulgação)

Uma das maiores surpresas do SXSW deste ano, “The Baltimorons”, vencedor do prémio da audiência no festival de Austin, no Texas, começou a sua carreira europeia, e depois de ter feito as audiências alemãs sorrir no Festival de Munique, na semana passada, chegou agora à República Checa, a Karlovy Vary, inserido na sua secção Horizontes.

Realizado por Jay Duplass, que juntamente com o seu irmão, Mark Duplass, tem deixado a sua marca no cinema independente norte-americano, particularmente desde “The Puffy Chair“, “The Baltimorons” conta a história de Cliff, um homem que conhecemos inicialmente pela sua tentativa frustrada de suicídio. Protagonizado e escrito por Michael Strassner, em parceria com Jay, o filme teve a sua génese na vida do próprio Strassner que, não só teve de lidar com a adição ao álcool durante grande parte da sua vida, como com a depressão. “Lidei com depressão na minha vida. A cena inicial do filme [da tentativa de suicídio frustrada] é muito semelhante ao que me aconteceu e me levou a procurar a sobriedade”, explicou o ator e realizador ao C7nema, numa entrevista em Karlovy Vary. “Esse foi o meu ponto de partida para um filme que aborda o perdão e segundas oportunidades, tudo a partir do encontro fortuito de duas pessoas que não querem que o seu encontro termine”.

Michael Strassner e Liz Larsen

Confessando que está sóbrio há 7 anos, Strassner diz que não conseguiria escrever o argumento de “The Baltimorons” se, por acaso, estivesse apenas sóbrio há seis meses, pois no primeiro ano de sobriedade teve de reaprender a viver sem o álcool e as drogas que o acompanharam dos 14 aos 28 anos. “Muitas pessoas batem no fundo e, para mim, esse fundo foi a tentativa de suicídio falhada. Mas consegui pedir ajuda, sair disso e viver agora uma vida sem o álcool”, explica-nos, acrescentando que quando estava deprimido não pensava que conseguiria sair dessa vida, especialmente porque vivia no mundo da comédia: “Não sabia se voltaria a ter piada. Eu era um doido engraçado e sem álcool não sabia no que me iria tornar. Olhando para trás, agora vejo que era o louco do álcool”. 

No filme, Strassner é um homem que, depois de partir um dente em plena época natalícia, procura desesperadamente por um dentista. Será em Didi, uma solitária mulher abandonada pelo marido, que este homem vai encontrar o conforto, confiança e proximidade para falar dos seus problemas, partindo a dupla num processo terapêutico de resolução para com as suas vidas fragilizadas. “O bom de tudo isto foi escrever daquilo que sabes e viveste. Depois foi encontrar comédia nisso. O Jay Duplass ajudou-me noutro filme e ficámos amigos. Um dia fui almoçar com ele, contei-lhe a minha história e ele riu. Eram os mesmos risos que comecei a ouvir nas salas de partilha de histórias na reabilitação. Sim, são coisas dramáticas, mas podemos agora nos rir disso, graças a Deus (…) Para mim, consigo brincar com as coisas que vivi: as adições, o suicídio, temas que normalmente são considerados tabu. Se não consegues rir daquilo que viveste, então somos uma sociedade que já não consegue mais rir”.

Michael Strassner e Liz Larsen

Definindo Chris Farley, John Belushi, John Candy e Robin Williams como “heróis” e exemplos maiores de comediantes que “partiram antes do seu tempo”, Strassner explica que desde o início estava programado que seria ele a interpretar o papel de Cliff, considerando fulcral que a sua personagem partilhe com uma estranha os seus problemas de modo a seguir em frente com a recuperação. “Muitos de nós temos problemas e não falámos deles”, diz o ator e  argumentista, que escolheu a sua cidade natal, Baltimore, e a sua geografia, para o campo de batalha que Cliff e Didi terão de atravessar durante uma noite de descobertas. “Cresci naquela cidade até aos 22 anos e a geografia do filme é a minha. Adoro os filmes que o John Waters e o Barry Levinson filmaram em Baltimore e foi maravilhoso fazer este filme lá. Este filme é uma carta de amor a Baltimore. Aquela ponte que foi abaixo com o choque de um barco está no filme ainda intacta. Mais dois meses e não a tínhamos em cena. Adorei mostrar a cidade com um olhar natalício”.

O Festival de Karlovy Vary decorre até dia 12 de julho.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/8ok8

Últimas