Os traumas da juventude na Checoslováquia comunista estão em grande destaque em “Perla”, segunda longa-metragem de Alexandra Makarova, que depois de estrear no início do ano no Festival de Roterdão chega agora ao coração da Chéquia, na secção Horizontes do Festival de Karlovy Vary.
No filme estamos no início da década de 1980, em Viena, e Perla, artista e mãe solteira de origem eslovaca, reconstruiu a sua vida com a filha, Júlia, e o seu companheiro, Josef. Vivendo no exílio, ela tenta deixar para trás o seu passado de fuga, mas sente-se forçada a voltar à Checoslováquia quando o pai de Júlia, Andrej, contacta-a inesperadamente para lhe dizer que está gravemente doente. Correndo o risco de atravessar a fronteira e ser detida, Perla parte para um regresso transformador que vai mexer em todas as suas relações humanas.
“Sempre me impressionou muito como as mulheres da minha família e de outras famílias viviam e perseguiam sonhos, eram resilientes, tinham filhos, e muitas vezes no ato de fugirem da perseguição tinham de se afastar dos que mais amavam”, disse Alexandra Makarova ao C7nema. “São coisas que acontecem agora, basta pensar na Síria ou em Gaza. Como estas mulheres sofrem tudo o que sofrem e ainda têm de pensar nos filhos. Acima de tudo, ao longo dos anos e das guerras, a responsabilidade de cuidar dos miúdos ficou, maioritariamente, nos ombros das mulheres. Por exemplo, todos sabemos que os soldados que voltaram da II guerra mundial estavam traumatizados com o que viveram. A grande responsabilidade com os filhos passou para as mulheres”.

Afirmando que o que mais a estimulou criativamente “não estava no facto de alguém fugir do país, mas de ter de voltar após uma fuga”, Alexandra acrescenta que a relação que tem com a sua mãe foi também inspiradora: “Talvez, inconscientemente, procurei ter com este filme uma espécie de catarse, um entendimento, da relação que tenho com a minha mãe. Tinha a ideia que ela não me amava, mas ama e toma decisões que vão contra o padrão que temos dos pais em relação aos filhos. (…) Todos podemos tirar ilações das decisões que tomamos, mas acho mais interessante num filme não expor as razões de certas atitudes.“
Sobre a preparação para o projeto, a realizadora afirmou que preparou todos os elementos da época retratada durante 2 ou 3 anos, enquanto aguardava pelo financiamento. Definindo o seu filme como a conjugação de uma composição artística com as memórias deste tempo, Alexandra confessa que assistiu a muitos documentários da época, sobre pessoas e locais, mas recorrer a ficções, pois as que eram filmadas nos anos 80 pareciam descrever pessoas ainda presas na década de 1960.
“Perla” junta-se assim um conjunto de filmes (como “Leto” e “The New Year That Never Came”) assinados por uma nova geração nascida nos países da antiga URSS e que já teve a oportunidade de crescer em liberdade. Sobre a opção de abordar este tema, Alexandra prefere contar uma história que ouviu da própria família, para explicar o que leva tantos cineastas atualmente a contarem histórias sobre o passado e herança comunista: “Estávamos em 1968 e a União Soviética e os membros do Pacto de Varsóvia invadiram o país para interromper as reformas. A minha família é de uma cidade a Este e os tanques chegaram lá primeiro que a Praga. Um familiar era jornalista e, quando os russos vieram, encontrou uma fotojornalista no centro da cidade de Kosice que lhe deu dois rolos de fotos por revelar para levar até ao jornal. Um dia depois essa mulher enforcou-se. Muitos fizeram o mesmo. Houve toda uma uma geração de jovens que ansiava pela mudança e não aguentaram a morte do sonho. Os sonhos de uma geração foram esmagados. Tinha de falar sobre isso.”
O Festival de Karlovy Vary decorre até dia 12 de julho.

