Estado da região Sudeste do Brasil, vizinho de Rio de Janeiro e de São Paulo, o Espírito Santo encontrou um porta-voz cinematográfico para as suas belezas naturais e para as suas invenções no terreno da fantasia na obra de Rodrigo Aragão, realizador respeitado em âmbito internacional nas raias dos clubes de fãs do horror, que volta às telas, neste fim de semana, com “Prédio Vazio”.
“Quero que meus filmes tragam apenas violência, até porque ela já está no ar, todos os dias, nos noticiários, o que me leva a buscar o fantástico e a perceber que as almas refletem aquilo que todos nós um dia vamos viver: a morte”, explica o cineasta ao C7nema.
Inspirado em “Suspiria” (1977) e na abordagem de Dario Argento (o papa do Giallo) para tramas de tónica claustrofóbica, entre quatro paredes, “Prédio Vazio” investe num clima anos 1970, embora se ambiente num presente em que telemóveis são surrupiados num piscar de olhos. O elenco aposta numa atriz que virou diva para quem faz curtas-metragens e também aposta nas longas-metragens de baixo orçamento, mas de ambição autoral enorme: Gilda Nomacce, espécie de Bette Davis de Ituverava, cidade de São Paulo.
“Um dia, o pai do Rodrigo viu-me pendurada no texto, na rodagem de uma sequência, e falou, carinhoso: ‘cuidado, ela não é uma menina’. O cinema dele tem algo que vai além do naturalismo e do realismo. Por isso, nesse filme, não via minha personagem como predadora e, sim, como uma mulher solitária que busca afetos”, explica Gilda.
O seu desempenho (elogiado em todas as mostras por onde passou) amplia o prestígio do Wes Craven de Guarapari, zona litoral do Espírito Santo famoso pelas suas areias monazíticas, que são consideradas radioativas e com propriedades terapêuticas. Em 2008, “Mangue Negro” desatacou-se em maratonas de filmes de género por utilizar efeitos especiais rudimentares com uma inteligência inegável. Passou pelo Fixion Sars Fantastic Festival, no Chile, e pelo Morbido Festival, no México, angariando fãs. “A Noite do Chupacabras” veio na sequência, em 2011, com mais coágulos derramados, chamando atenções no Festival Rojo Sangre, em Buenos Aires, e noutros eventos. Mobilizando a imprensa internacional, Aragão viu a sua grife estética consagrar-se como um herdeiro do legado de José Mojica Marins (1936-2020), o Zé do Caixão, aclamado por filmes de culto como “Esta Noite Encarnarei No Teu Cadáver” (1967).
“Continuo a fazer tudo igual ao que fazia no passado, com o entendimento de quero seguir a viver em Guarapari, onde agora tenho um estúdio, e com a certeza de que aprendi a ter calma. Já não tenho mais o ímpeto de querer faz o maior filme possível. Valorizo o entendimento do que posso e do que tenho e do que amo em tudo o que faço agora. Passei um mês a construir o edifício onde se passa ‘Prédio Vazio’, o que me leva a ter um céu feito de algodão em algumas cenas e um mar feito com saco plástico”, diz Aragão.
Em “Prédio Vazio”, a jovem Luna (Lorena Corrêa) busca a mãe (Rejane Arruda) desaparecida durante o último dia de Carnaval em Guarapari. Imagens de época e uma música antiga, que vende os encantos da cidade, qual um hino lúdico, delineiam o passado daquele local idílico, onde existe um edifício que é usado – para locação – durante os dias da folia. A sinistra figura vivida por Gilda é a única moradora do local, arrasta segredos…e algo mais.
“Foi São Dario Argento quem me explicou como fazer um filme nesse lugar. Um ambiente como um elevador todo o mundo sabe como é. Como construir medo nesse espaço? Coloquei a equipa para assistir a ‘Suspiria’ para entender como resolver esse desafio. Ele, no fim dos anos 1970, conseguiu fazer algo surpreendente. No exemplo dele, podemos tentar. Fiz um filme rodado com três lâmpadas e três lentes e assumi um visual setentista para isso”.

