Depois de “Saint-Cyr”, Isabelle Huppert reencontra Patricia Mazuy em “A Prisioneira de Bordéus”

Exibido na Quinzena de Cineastas do Festival de Cannes em 2024, “A Prisioneira de Bordéus” reuniu novamente no plateau a atriz Isabelle Huppert e a realizadora Patricia Mazuy, mais de 20 anos depois de “Saint-Cyr”, onde aquela que é uma das mais famosas atrizes do cinema francês e europeu atualmente desempenhava o papel de Madame de Maintenon, uma figura que ascende de origens humildes para se tornar uma cortesã da corte real e acaba por casar com o rei Luís XIV. “Foi uma experiência ótima trabalhar com a Patrícia”, explicou Isabelle Huppert ao C7nema, numa entrevista em Paris, em janeiro passado. “Desde o ‘Saint-Cyr‘ que tínhamos combinado voltar a colaborar. Quando me deu o guião do “A Prisioneira de Bordéus”, era óbvio para mim que iria trabalhar novamente com ela”.

A Prisioneira de Bordéus” nasceu de uma ideia de Pierre Courrège, que originalmente seria realizada em 2012, com a intenção de se focar nas questões sociais levantadas a partir dos locais de visita prisionais. Nas mãos de Patricia Mazuy, que reformulou a ideia, Isabelle interpreta o papel de Alma, uma mulher burguesa que vive isolada numa mansão após o marido ser detido. Ela vai-se cruzar com Mina (Hafsia Herzi), uma jovem mãe que mora num subúrbio distante e passa por inúmeras dificuldades. Elas conhecem-se numa sessão de visitas, no estabelecimento prisional, iniciando uma amizade quando  quando Alma oferece um quarto na sua casa a Mina.

Hafsia Herzi  e Isabelle Huppert

Creio que a minha personagem é a prisioneira do título”, diz-nos a atriz, que colaborara recentemente com Hafsia Herzi em “Les gens d’à côté” ( Os Novos Vizinhos), de Andre Téchiné. “Claro que há pessoas que acham que a prisioneira é a personagem interpretada pela Hafsia Herzi, e existem ainda outras que acham que somos as duas. Mas creio que a Alma é mais prisioneira que a Mina. Teoricamente, eu tenho tudo: um espaço fantástico, beleza, arte e dinheiro. Mas no fundo não tenho nada. Ao menos a Mina tem uma espécie de amor por parte do marido. A sua vida é precária e tem muitos problemas, mas dentro dela tem muito mais que eu. A minha personagem era uma bailarina e deixou a carreira pelo marido, tendo uma relação que não é de todo rica (…) A Patricia Mazuy deu-me muito cedo a direção da Alma para eu a levar onde queria. E eu queria escapar à melancolia burguesa com uma ligeireza, apresentando alguém que de forma inesperada seria engraçada e mostrava ser feliz. Isso trazia-lhe, de certa forma, uma maior complexidade, pois temos alguém que por trás do sorriso tinha muitas coisas escondidas. No guião não havia qualquer descrição da Alma, por isso ela guiou-me para onde eu teria de ir”.

Já com um novo filme estreado em Cannes, “A Mulher Mais Rica do Mundo”, onde interpreta a famosa sexagenária herdeira da L’Oreal, Liliane Bettencourt, que se envolveu com um escritor-fotógrafo de 27 anos, Isabelle diz que nunca é o arrojo de um papel que a move, mas sim uma “intuição de fazer um papel com a pessoa certa”. “A escolha não passa pelo papel que vais fazer, mas como o vais fazer. E como o vais fazer depende com quem vais trabalhar. Tem de ser alguém com a habilidade de projetar a sua visão”.

Por isso mesmo ela confidencia-nos que quer trabalhar novamente com Paul Verhoeven, com quem filmou “Ela”, mas admite que não fala com ele há mais de um ano. “Falei com ele há um ano, após o problema físico que teve. Pareceu-me bem. A ver se lhe ligo um destes dias. Gostaria de trabalhar novamente com ele”.

Hafsia Herzi  e Isabelle Huppert

E quanto a outros filmes em que participa, já conseguiu ver o célebre “Marianne”, que o C7nema conseguiu ver primeiro que ela. “Sim, finalmente vi. É um objeto muito estranho. Disseram-se que vai ter uma estreia nos EUA. Não sei como (risos). Presumo que seja por muito pouco tempo (…) Foi uma experiência que fiz e foi um trabalho muito curto. Filmei em 3 dias. Não conto as propostas que tenho anualmente, as coisas não funcionam assim, mas recuso várias“.

Quanto a outras atividades que vai mantendo conectadas ao cinema, destaca-se ainda a gestão de duas salas de cinema em Paris, o Christine 21 e o Écoles 21, onde tinha estado na noite anterio para ver, pela primeira vez, “Capote”, de Bennett Miller. “Temos uma retrospectiva ao seu trabalho. “Capote”, “Moneyball”, “Foxcatcher“. E até o primeiro documentário que fez. E temos ainda uma exposição de fotografia na galeria com objetos criados pelo Miller em conjunto com a IA.
E enquanto nos explica que dois dias antes também andou pelas suas salas para participar na exibição do cinema de Gilles Grangier, que descreve como um “cineasta maravilhoso dos anos 60, muito parisiense“, Isabelle garante que quem programa o que passa nas suas salas não é ela, mas o filho, Lorenzo.

A Prisioneira de Bordéus” chega aos cinemas a 5 de junho.

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