Entregue a uma rotina permanente de cortar, juntar e incendiar canas numa vasta região selvagem de um pântano, Johan (Gerrit Knobbe), que tem a neta de 11 anos a seu cargo, irá sentir um chamamento quando o cadáver de uma jovem surge perto de onde vive. Instigado a investigar o “mal” que invadiu um território que considera seu, e onde atua num registo ritualizado de trabalho e relações, que incluem um isolamento pessoal controlado numa comunidade cada vez mais ameaçada pelos vícios do neoliberalismo, este homem de aspeto áspero, mas doce no trato, inicialmente cede à tentação de apontar do dedo acusatório do crime a uma vizinhança ancestral indesejada, mas, progressivamente, vai perceber que o “mal” está mais próximo do que pensava. “Reedland”, do cineasta holandês Sven Bresser, acaba de estrear na Semana da Crítica e já se tornou num dos favoritos a sair de Cannes com prémios.

Assentando no tom e na atmosfera pesada da região em que foi filmado, Weerribben-Wieden, nos Países Baixos, Bresser partilha com o espectador um mundo milimetricamente ritualizado que é rasgado pelo imprevisto. E daí surge uma inquietação que desperta em Johan o desejo de descobrir o que aconteceu e que segredos esconde um território meticulosamente fotografado. “Escolhi um local e uma paisagem específica, bem como os rituais associados a ela”, explicou-nos o realizador holandês em Cannes. “Estes rituais têm o seu próprio ritmo, o seu próprio tempo. Explorando um local como este, só me sentia confortável em ter os locais para interpretar os papeis que criei. Gostava da ideia de as pessoas assistirem os primeiros 15 minutos e pensarem que iriam assistir ao mesmo retrato de um homem durante mais 30 minutos. Mas esse retrato inicial é rompido por algo, começando assim – para o espectador -um novo filme que questiona o que estamos a ver (…) Usei este local, este espaço como se fosse um país com as suas próprias regras, cultura, a sua própria língua e até uma bandeira. Mas podemos alargar a visão, e olhar e encarar este local como um reflexo da Europa. Estas pessoas estão tão conectadas com a Terra que sentem que têm direito a ela e o que vem de fora, o outro, é um inimigo.”
Com uma direção de fotografia que foge aos clichés no atravessar de géneros (drama, filme fantástico, suspense), “Reedland” multiplica-se em camadas que se encontram frequentemente no estudo da personagem de Johan, alguém “que se tornou solitário devido às ameaças à sua comunidade e à sua existência”. “Vejo por exemplo, a minha aldeia natal, que tinha muito mais espaços comunitários abertos do que hoje. E até os governos vão encerrando muitos serviços nesses locais. Esta solidão na vida do Johan pode se tornar perigosa, quando não consegues partilhar o teu interior com os outros”, explica Sven, adicionando um caso criminal famoso nos Países Baixos como inspirador para a sua narrativa: “Há um famoso caso em que uma rapariga foi violada e morta numa pequena aldeia religiosa. Perto desta aldeia havia um centro de refugiados. Durante 10 anos, todos os habitantes dessa aldeia projetaram a violência para esse centro, tendo mesmo havido motins. Este caso foi uma das coisas que me inspiraram; esta ideia de projetar a violência e o mal no desconhecido. Porém, durante a escrita do guião, procurei retirar a questão política inerente ao caso. Retirando a questão da xenofobia, o filme abrange mais um medo humano que um medo político. As rivalidades que vemos no filme também se inspiraram em algumas que existiam no sítio que cresci. Rivalidades herdadas do passado, onde não faltam elementos tribais. Tentei explorar esse tribalismo de forma mais extrema.”
Explicando que nos Países Baixos há um ditado que diz que “O Mal é o outro”, Sven diz que hoje essa frase tem mais significado que nunca: “Se perdes a coesão social na tua proximidade, é mais fácil a violência entrar por aí (…) O mal vem de dentro ou de fora? Existem muitas camadas. De um lado, estes homens veem a sua situação ameaçada com as imposições europeias e negócios vindos da China. Por outro lado, também acusam os seus vizinhos mais próximos de algo, e até o governo que, segundo eles, está a destruir o local com as suas politicas neoliberais. Esse medo comunitário, do mal vir de dentro e de fora, está também no Johan. Que ameaça ele vê que nós não vemos? Este nós e eles pode muito bem vir da regulação atual do mundo, gerando-se um ódio enorme por pessoas que não conhecemos realmente.“
O Festival de Cannes prossegue até dia 24 de maio.

