Retrato da comunidade de Covas do Barroso, no norte de Portugal, quando esta descobre que a empresa britânica Savannah Resources planeia construir a maior mina de lítio a céu aberto da Europa, a poucos metros das suas casas, “A Savana e a Montanha” é a terceira longa-metragem de Paulo Carneiro, aquela onde uma mensagem política e o ativismo local mostra todo o seu esplendor.

É que o responsável por “Bostofrio”, onde usava o pretexto de conhecer mais sobre o avô para falar de outras coisas, como descobrir-se a si próprio, e “Via Norte”, onde usa como “desculpa” os carros e o universo do Tuning para conversar com portugueses emigrados sobre as suas vidas, a comunidade e a identidade, vai diretamente ao coração do tema que aborda, usando a forma de um western para contar a “luta de sempre, do David contra o Golias, dos indígenas contra os cowboys”, na forma dos habitantes do Barroso contra uma grande empresa e um governo que a valida. “Este extrativismo a céu aberto a grande escala é a destruição de um território”, disse-nos o cineasta em Cannes, no dia em que o seu filme ia ter a estreia mundial via Quinzena dos Cineastas. “Quando fiz o Bostofrio, algumas pessoas da Cova do Barroso e ecologistas aproximaram-se de mim a falar do tema. Já sabia algumas coisas, mas não tinha um conhecimento aprofundado. Estava também cheio de coisas, entre elas filmar o meu projeto anterior, o “Via Norte”. Durante a pandemia vi um vídeo onde o Nelson, que vemos no filme, está a mostrar o vale onde estava planeada a construção da mina. Nesse momento fiquei chocado. Estamos a falar de um espaço muito vasto, de 600 hectares, de paisagem natural e baldios importantes para a agricultura e pastorícia da área. Devido ir até à aldeia com uma câmara e fazer uns vídeos para espalhar a palavra, porque creio que nas cidades não têm ideia do que se queria fazer ali, num espaço tão grande. É uma luta de sempre, do David contra o Golias, dos indígenas contra os cowboys. A ideia do western parte daí e da capacidade que as pessoas que encontrei têm de se rir de si mesmo e não se levarem tanto a sério. É bom ser irónico. Começámos a fazer um documentário, mas dei conta que não funciona. Esta é uma luta de ‘secretaria’ e as pessoas ficam muito deprimidas. Seria um filme triste. Não me interessava isso. O meu cinema não é a desgraça dos outros. Estas pessoas não são assim, este não é o povo do Barroso e por isso decidi fazer uma ficção. Na criação da ficção e do western apareceu nas pessoas um engajamento, a divertirem-se a fazer um filme a ironizar com a situação. Como ficção, queríamos acompanhar narrativamente as coisas como eles gostariam que fossem em termos práticos. Com advogados, providências cautelares e tudo mais, teríamos algo menos prático e mais de “secretaria”.

Caracterizando toda a ideia da indústria automóvel elétrica como mais uma forma de consumismo e capitalismo, Carneiro define todo o discurso sobre a questão como “hipócrita”, pois o que deveríamos fomentar era a utilização cada vez maior do transporte público e menos do privado. Ao invés, criou-se um novo mercado para estimular a indústria: “Termos um carro durante 20 ou 30 anos. Essa é a melhor maneira de agir, pois cada vez que se constrói um novo carro, está-se a consumir. Um carro elétrico consome até 30 vezes mais que um carro a combustíveis fósseis. Como isto é tudo uma grande hipocrisia, as baterias dos carros elétricos não são recicláveis e temos de as trocar daqui a 6 anos. Para explorar Lítio, que representa 1% na região do Barroso, imagina a energia que tens de usar. E essa extração não é feita com carros, tratores ou camiões elétricos. (…) É tudo uma farsa, o Estado mete impostos mais caros para os veículos antigos para estimular a indústria automóvel. A partir de meados dos anos 90, ao comprar um Peugeot, Renault ou Citroen percebes que são todos iguais, têm todos as mesmas linhas. Os carros deixaram de ter personalidade e já não há nada para explorar em termos de design. O que vamos vender de novo ao consumidor? Um carro elétrico… é marketing. É uma forma de fomentar o consumo. Achas que os países nórdicos ou a Alemanha vão querer explorar o Lítio lá? Vão querer fazê-lo nos PIGS (Portugal, Itália, Grécia e Espanha). O lixo vai para os outros, tal como nós fazemos para África”.
Definindo o seu cinema como “livre”, mas onde impõe certas barreiras, Paulo afirma que “cinema é mentira” e que os seus filmes não vão da A para B, mas de A para Z. “A Cinemateca é a minha escola de cinema. Não sou um geek do género western, mas gosto. Se calhar sou mais Rossellini que Leone, mas acho que não há fronteiras para nada. Podes fazer o que quiseres. Um filme na Quinzena de Cineastas vale tudo. Este jogo do género ajudou-nos a lidar com as pessoas, de forma a nos darem mais tempo“.
E ao usar a população do Barroso como “estrelas” da sua própria história ficcional, Paulo admite que foi muito divertido, mas complicado de gerir.” Às vezes era difícil porque as pessoas não tinham tempo para as filmagens. Ora tratavam dos animais, da horta, iam limpar terrenos, etc. Fomos sempre convencendo todos que o filme poderia amplificar a sua luta. Tentei sempre ser muito prático e rápido, para eles poderem fazer a sua vida normalmente”.
“A Savana e a Montanha” estreia nos cinemas nacionais a 24 de abril.






