E se os filhos soubessem tudo sobre a vida dos pais? Frédéric Hambalek impõe a questão em “What Marielle Knows”

(Fotos: Divulgação)

E se, de um dia para o outro, os filhos soubessem todos os diálogos e ações que os pais praticaram durante o dia? É esta a curiosa premissa que “What Marielle Knows”, na competição ao Urso de Ouro do Festival de Berlim, apresentou às audiências.

O filme, dos mais surpreendentes da maratona germânica, começa com uma enorme estalada na cara de Marielle (Laeni Geiseler), uma adolescente de 13 anos que, depois desse evento, ganha o poder (ou maldição) de conseguir ouvir e visualizar as ações dos pais sem ter de estar na sua presença. Um poder que vai colocar as figuras parentais numa “pilha de nervos”, como que despidos de toda a privacidade e obrigados a agir sabendo que estão a ser vigiados em permanência. “Quando comecei a escrever o filme não tinha filhos, agora tenho dois”, disse o realizador Frédéric Hambalek ao C7nema ,dias depois de o filme estrear na Berlinale.

Julia Jentsch e Felix Kramer em “What Marielle Knows

Assumindo que inicialmente o seu projeto estava destinado a mostrar mais sequências com a perspectiva da adolescente, o realizador confidenciou que a sua nova vida como pai levou-o a se focar no olhar dos pais perante a situação, movendo todo o conceito em torno de algumas questões que se foram impondo: “À medida que ia escrevendo e com o novo papel de ser pai, fui trabalhando em alguns medos que eram novos para mim. Pensei muito em como os meus filhos me vão ver. Vão gostar de mim, como pessoa? Estas são questões que colocas diariamente e cada vez mais fui levando os meus medos para o guião (…) No início, o filme tinha uma perspetiva maior da Marielle, mas a partir do momento em que me tornei pai decidi focar a atenção nos pais, que tomam as decisões por ela. Com isso, deixei a audiência lidar com as mesmas questões com que os pais dela têm de lidar. A verdade é que os pais não conseguem provar as capacidades da filha e têm de acreditar na sua palavra quando ela lhes diz que consegue ouvir e ver tudo o que fazem” 

Apesar de ter pensado que poderia seguir esse dom de vigilância através de capacidades tecnológicas existentes atualmente, Frédéric optou pela via do sobrenatural para não distrair o espectador, focando-se primeiramente em questões sobre o comportamento humano e as questões existenciais que se colocam: “Segui a abordagem sobrenatural, mas na execução deixo algumas ambiguidades fluírem. Não me lembro exatamente de como a estalada seria o desencadeador do super poder da Marielle, mas queria algo que tivesse uma implicação física. Pretendia algo que preocupa os pais, mas que serve igualmente como a razão para as novas capacidades que adquire”.

Frédéric Hambalek

Apesar de ter cortado várias cenas em que Marielle estava presente, o realizador queria manter no filme a perspetiva da jovem. Por isso mesmo, imagens dela, sempre a olhar para a câmara, que servem como espécie de separador entre cenas, fomentam a sua força, poder e omnipotência. “Criámos estas imagens super simples que nos lembravam da sua perspetiva, enquanto nos davam um estilo visual que se afastava do resto do filme, que é mais realista”, diz o cineasta, relembrando que vivemos em tempos em que estamos a perder a privacidade, muitas vezes de forma subtil.” Basta pensar nas mensagens que enviamos. Aquela notificação de que as mensagens foram lida, retira-nos logo privacidade e mudaram a forma como agimos perante as pessoas. Tive de as desativar, para ter um pouco mais de liberdade no responder imediatamente. A forma como filmei, com espelhos e movimentos de câmara que refletem de certa maneira a maneira como somos captados diariamente por objetos de vigilância, mostram a forma como não conseguimos escapar neste mundo moderno. Mas confesso que não quis sublinhar essa metáfora e por isso falei com o responsável pela fotografia para nunca nos escondermos  por trás de vidros ou espelhos como frequentemente vemos no cinema de horror. Queria sempre uma abordagem ao rosto das personagens, como forma a mostrar intimidade. Era esse o sentimento que queria, da câmara estar muito próxima da intimidade (…) Normalmente são os pais que controlam os filhos, mas neste caso é o inverso. Não era propriamente uma mensagem que queria passar, mas sei agora, como pai, que apesar de os querer educar, temos de ser muito honestos em relação à vida”.

Embora tenha pensado que o filme teria vários momentos de humor, foi apenas na Berlinale que o realizador entendeu que estavamos perante uma comédia assumida: “Só há dois dias, na estreia, percebi que o filme funcionava bem como comédia. Estava na premiére e fiquei  muito admirado com os risos das pessoas. Nunca imaginei que o filme teria tantos risos associados. Sempre soube que teria momentos engraçados, mas não sabia que as pessoas entrariam com tanta facilidade no meu humor de estranheza.

Ainda que “What Marielle Knows” tenha saído de Berlim sem qualquer prémio oficial, o filme de Frédéric Hambalek sai com a certeza da sua capacidade em atrair massas além do seu país natal, a Alemanha. E quanto ao seu futuro, existe outra certeza. Esta pequena pérola germânica certamente vai se assumir como um pequeno objeto de culto.

O Festival de Berlim termina a 23 de fevereiro.

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