Vencedor da prestigiante distinção Europa Cinemas Label, como o melhor filme europeu na secção Panorama do Festival de Cinema de Berlim, “Hysteria” tornou-se uma das sensações do certame germânico, não apenas pelo seu tom provocante, mas principalmente pela forma como o jovem realizador alemão de origem turca, Mehmet Akif Büyükatalay, agarrou o público e a crítica cinematográfica com um jogo de segredos, acusações e mentiras que invadem a vida de uma jovem estagiária assistente de realização, Elif, apanhada no epicentro de uma revolta nas filmagens de uma obra centrada num ataque incendiário ocorrido em Solingen, Alemanha, em 1993, quando um grupo de neonazis incendiou a casa de uma família turca, provocando 5 mortos.
Partindo do pressuposto dessas filmagens, que começam a descambar quando se descobre um exemplar do Alcorão queimado no set, Mehmet cria um alucinado thriller psicológico repleto de reviravoltas que deságua num mar de histeria generalizada. “A ideia começou com o conceito de alguém perder uma chave, colocar o seu número à disposição caso a encontrassem, e alguém ligar”, explicou o cineasta em Berlim ao C7nema, momentos depois do seu filme ter as primeiras exibições. “Tudo se passava numa casa em que a chegada de alguém mudava a dinâmica de todos até chegarmos a um grau de histeria. Era uma forma de eu falar de nós, como sociedade, pois já não conseguimos mais falar uns com os outros”.

Continuando um discurso cinematográfico em torno da incomunicabilidade que reina na sociedade, “Hysteria” prossegue um diálogo iniciado com o filme estreia do realizador, “Oray” (2019). Nessa estreia, a personagem-título era forçada a lidar com as consequências de dizer a palavra errada na hora errada, tendo de lidar com questões de interpretação dos escritos sagrados. Aqui, é a vez de um Alcorão queimado servir de gatilho a um desenrolar de eventos alucinante, mas que o realizador acredita que não lhe trará problemas. “Conheço bem os muçulmanos e não somos uma massa em fúria como nos retratam”, explica o cineasta, que apesar de mostrar no seu filme alguns casos graves em que quem queimou o Alcorão teve de lidar com sérias consequências, mostra igualmente imagens de um ímã a dizer que a questão de queimar o livro sagrado pode não ser vista de forma tão séria, “pois na interpretação do líder religioso, o Corão pode ser queimado em diferentes situações”. “São questões de interpretação”, explica Mehmet, que não mostra receio com os prognósticos que apontam para a possibilidade da extrema-direita chegar ao poder na Alemanha. “As coisas podem piorar com a extrema direita no poder, mas também podemos estar – tal como vemos no meu filme – num estado de histeria. Tenho esperança que se entendermos os nossos erros, sairemos mais fortes. De certa maneira, a esquerda tem apregoando a ambição da justiça e da liberdade. Agora chegou a direita a dizer “Make it great again”. A nova vaga dos ataques à migração começou há 10 anos com a questão da Síria e nunca conseguimos falar como sociedade de um tema muito complexo. Esta falta de comunicação e incapacidade de abordar temas duros levou a situação a piorar. Toda a gente está louca. Até os partidos de esquerda só falam de migração, como se não houvesse mais nada a falar”.
Defendendo que o “o cinema tem de voltar a ser radical na forma e conteúdo”, Mehmet, que é também produtor, assume a sua responsabilidade como criador. Por isso mesmo, a provocação faz parte do seu ser e vai continuar a guiá-lo na indústria. Sobre o futuro, ele adianta que quer fazer uma “história de amor”, mas com um daqueles sorrisos que nos avisa que não será uma “love story” convencional.
O Festival de Berlim termina a 23 de fevereiro.

