Já com um enorme historial de presenças no Festival de Berlim com narrativas em que as mães têm uma posição central nas narrativas, como se viu em “Que Horas ela Volta?” (2015) e “Mãe Há Só Uma” (2017), a brasileira Anna Muylaert regressou a terras germânicas nesta 75ª edição da Berlinale com “A Melhor Mãe do Mundo”, um drama que conta a história de Gal, uma catadora de lixo que, para escapar do marido abusivo (Seu Jorge), coloca os seus dois filhos pequenos, Rihanna e Benin, no topo do seu carrinho e atravessa São Paulo, e todos os seus perigos, até à casa do primo. Convencendo as crianças de que estão numa grande aventura, Gal – estrondosamente interpretada por Shirley Cruz – revela-se uma força da natureza, ainda mais quando percebe que o ponto de destino ganha contornos de cilada e não de segurança.
“A questão da mãe é central para mim, pois acho que é a educadora básica e uma figura política. Não tem a ver com o factor dela não ser valorizada como merece, mas sim o de ter um valor político inexistente”, disse a realizadora ao C7nema em Berlim, onde o seu filme foi apresentado na secção Berlinale Special. “Não está escrito em lado nenhum que uma mãe precisa de apoio para ser mãe. Ela tem uma responsabilidade gigante e não existe nem um livro que o governo te dê para ajudar. Ela entra nessa grande responsabilidade sem saber nada”.
Frisando que a figura da mãe “precisa ser olhada pela sua importância”, Anna estabeleceu as diferenças entre este “A Melhor Mãe do Mundo” e “Que Horas ela volta?”: “Em relação à figura da empregada doméstica, a babá, essa é uma figura central sobre classe, raça e afeto na história do Brasil. Agora não é já tanto, mas antes, ao falares de uma personagem com essas características, falavas de tudo. No ‘Que Horas ela volta?’, era isso. Aqui, neste filme, as coisas nasceram da imagem de uma catadora que circulava com os filhos na carroça. Estamos numa classe social ainda mais baixa do que empregada doméstica.”
Reconhecendo que a força da imagem de uma catadora carregando os filhos comandou tudo, a argumentista e realizadora, que conta ainda no currículo com o filme “O Clube das Mulheres de Negócios” (2024), explicou que o seu mais recente projeto veio ainda do seu desejo de falar de abusos. “Descobri essas catadoras na rua e praticamente a história se fez sozinha”, confessa, descrevendo o processo de construção da narrativa e a sua investigação. “A primeira catadora como que falei, a Fabiana, mora na Favela do Moinho, em São Paulo. É a mesma região onde morou a Carolina Maria de Jesus, que era uma catadora dos anos 50 e 60 que escreveu um diário. Nos anos 70, um jornalista, Audálio Dantas, ouviu falar dela, achou-a e publicou os seus relatos. São relatos de uma força, inteligência e sensibilidade enorme. Esses textos foram fundamentais, mas a ida à casa foi também importante. Era uma casa muito pobre com algumas paredes de papelão, com muitas pessoas a dormirem lá. Havia muita pobreza, mas uma alma exultante, interessante e inteligente. A sua sinceridade e retidão mexeu estruturalmente comigo. Numa cooperativa conheci muitas outras dessas mulheres e dei um mergulho no projeto que ainda durou uns anos”.

Na liderança do filme de Anna Muylaert encontramos Shirley Cruz, que com uma potência no que toca à imagem da “mãe coragem” que desempenha. “Ela interessou-me muito logo pelo seu rosto forte e pela coragem“, explica a realizadora: “Fez um teste brilhante de uma personagem quebrada e, depois, fizemos todo um trabalho de leitura, conversas e confissões de histórias de abuso. Achava importante o físico da personagem, por isso ela trabalhou com um preparador. A Gal Martins trabalha com um arquétipo de animal e foi a Shirley que veio com a ideia da búfala”.
“Na minha carreira gosto sempre de falar de coisas maravilhosas, engraçadas e leves, mas ter uma mulher preta em cena é também um ato político”, explicou-nos Shirley, que acompanhou Anna Muylaert durante a nossa entrevista no Berlinale Palast. “A Anna é uma pessoa que faz um cinema de fé. Ela tem fé na humanidade e na transformação do ser humano e da sociedade. Depois de ter trabalhado com ela no “Clube das Mulheres de Negócios”, ficámos amigas. Quando soube deste papel, quis imediatamente fazer parte do projeto. A Gal tem todos os ingredientes que me agradam. É mulher, mãe e preta. Como artista, era um desafio que exigia muito trabalho. Eu não sou a Gal. Não sou uma preta periférica, não sou uma coitada. Tenho um casamento maravilhoso de 11 anos, cheio de amor. Não sou a Gal e, por isso, houve muito trabalho envolvido para me transformar nela. O meu norte era a Anna. Eu sabia o que ela não queria e senti isso logo nas leituras. Ser a protagonista de um filme de Anna Muylaert muda a vida. Houve muito preparo técnico, escutei muito a Anna e ela me deixou à vontade para que a Gal existisse com aquela potência. Também convivi com as catadoras, que me deram a sua bênção e estão também em cena. Aprendi a meter a mão no lixo, num processo com muito de verdade”.

Admitindo que na indústria do audiovisual e cinema brasileiro, os artistas negros ainda “não têm o tempo de tela” que gostariam, Shirley relembra que se se estreou como atriz em “Cidade de Deus” (2002) e que agora participa na série homónima da MAX. “Vim de uma escola que foi a “Cidade de Deus”, o filme. A partir dali foi possível pensar em construir uma carreira. As minhas referências são a Zezé Motta, a Rute de Souza e a Léa Garcia. Fui acreditando, mas até chegar a ser uma protagonista de Anna Muylaert, e apesar de fazer coisas em que acredito, tive de trabalhar em projetos porque também preciso pagar as minhas contas. 90 % das vezes estou em cena a fazer algo com muita felicidade e tesão, associado à dignidade. A arte nunca esteve dissociada da política e sinto-me uma artista, não uma celebridade. Penso sempre no que quero e se posso oferecer alguma diferença”.
Relembrando que a maioria do dinheiro para produzir ainda está na mão dos “homens brancos”, Shirley Cruz e Anna admitem que as coisas têm progressivamente mudado nos últimos anos, particularmente depois do surgimento do digital. “Temos câmaras nas mãos, facilmente. As favelas, os subúrbios estão a produzir”, diz Shirley, sendo completada por Anna numa referência à cada vez maior presença de atores negros nas novelas. “A entrada do streaming contribuiu para isso”, explica Shirley, referindo que essas novas plataformas digitais aumentaram muito o volume de trabalho: “De alguma forma, está a começar a fica feio se não colocares um preto na produção. Acho também muito importante dizer que a partir dos projetos sociais, a formação é essencial. Não vão haver pretos na frente das câmaras se não existirem também atrás delas. Está muita gente a escrever e já existem muitas salas de roteiro com a participação de preto. A diretora de fotografia deste filme é uma mulher negra, lésbica e suburbana. Fazer este filme como uma diretora de fotografia preta foi muito menos difícil. Este foi um filme muito duro de fazer. Muito, muito difícil. Ainda estamos longe do ideal, mas já não vivemos como se não existíssemos no audiovisual. As coisas avançaram muito e não sou humilhada como a Zezé Motta foi. A Rihanna, que faz o filme como a minha filha, não será tão humilhada quanto eu eventualmente sou. Tudo o que as minhas amigas antes de mim fizeram, reverberou em mim”.
O Festival de Berlim termina a 23 de fevereiro.

