Nascido na Suíça em Lausanne, filho de uma família de origem polaca, Lionel Baier já mostrou várias vezes que as revoluções europeias lhe interessam, principalmente o captar a azáfama delas do ponto de vista das personagens que as cruzam. Assim foi em “Ondas de Abril” (2014), onde colocava dois jornalistas da Rádio Suíça a serem enviados a Portugal para fazer uma reportagem sobre a revolução de 1974, e assim é em “The Safe House”, em que o famoso Maio de 1968 é um pouco mais que pano de fundo para a observação da dinâmica de uma família que vive bem perto do turbilhão.
“As revoluções são sempre um período em que sentimos realmente o tempo a passar e a história a construir se perante os teus olhos. A revolução portuguesa em 1974 ou a francesa em 1968 foram momentos de enorme felicidade nos dois países. Mudaram tudo”, disse o realizador ao C7nema após a estreia mundial do seu filme no Festival de Berlim, onde concorria ao Urso de Ouro. “No caso português, tudo mudou em um par de dias. Em França levou um mês. Estes foram também dois eventos importantes que marcaram a Europa. Fazer um filme em Portugal, na Polónia ou França foi um tributo a essas revoluções”.
Adaptando o livro de Christophe Boltanski, sobrinho do famoso artista Christian Boltanski, em que ele fala da sua família, Baier escolheu centrar o seu filme nos episódios do Maio de 1968, época em que um conjunto de protestos que começou com estudantes se expandiu e levou o governo nacional a deixar de funcionar brevemente depois do presidente Charles de Gaulle fugir secretamente de França para a Alemanha Ocidental no dia 29 de maio. Esse dia é essencial no filme de Baier, que se foca num rapaz de nove anos que está entusiasmado por ficar com os avós. A eles juntam-se dois tios divertidos – um artista plástico e um aspirante a intelectual – e a bisavó extravagante do rapaz. O rapaz passa vários dias no apartamento enquanto os pais participam nos históricos protestos estudantis.

“Senti-me próximo das bandas desenhadas do Gaston Lagaffe e não tanto do Pequeno Nicolau”, disse Baier, que dá ao filme a estética de fábula onde não falta mesmo um momento em que Charles De Gaulle se refugia na casa de família, deixando desesperados os seus seguranças e incrédulos todos os que assistem à sua chegada. “Na estética, procurei inspiração no Félix Vallotton (1865–1925), que trabalhou em França no início do século, particularmente focando-se nos interiores, tapeçarias e cortinas. Por exemplo, laranja, amarelo e vermelho estavam muito conectados com a cultura pop. Objetos construídos em plástico, eram muito comuns serem amarelos. Era uma cor que encontrava muito quando era pequeno. Na década de 1970, muitas das coisas que os meus pais tinham tinham estas cores e texturas. E interessava-me o azul e branco de Paris, do mundo e das ruas, e as cores pop de pequenas coisas. Podemos ver isso no Volvo com um verde pouco vívido e o Citroën num vermelho vivo, pois pertence à mãe e ela é mais moderna que o pai. No apartamento reparamos também em elementos modernos inseridos no ambiente.”
Dominique Reymond, William Lebghil, Aurélien Gabrielli, Liliane Rovère e o falecido Michel Blanc dão a alma a esta comédia dramática em tom de fábula que ainda não tem data de estreia em Portugal.

