No dia seguinte à conquista do prémio honorário Berlinale Camera pelo conjunto de serviços prestados ao longo de quase quatro décadas à preservação de acervos, Rainer Rother desabafa um honesto “não faço ideia” diante da pergunta do C7nema acerca das futuras retrospectivas da Deutsche Kinemathek, instituição da qual é diretor artístico desde 2006. A resposta não traz arrogância ou desdém, mas, sim, a sinceridade de quem está a um passo de se reformar. Em abril, ele sai de cena no momento em que a cinemateca germânica, em operação na capital alemã, muda de endereço. Deixa de vez a Potsdamer Platz e passa a ter como base de operações cinéfilas o E-Werk, uma subestação de energia dos anos 1920, localizada perto do Checkpoint Charlie, que foi usada mais recentemente como casa noturna.
“Vamos ter uma sala de projeção, pequenina, com 35 lugares, mas que é nossa”, diz Rother.
Há cerca de 20 anos, ele mantém ligações com o Festival de Berlim, sempre à frente da seção Retrospectiva, este ano voltada para filmes de género da sua pátria. Ele também é responsável pela Berlinale Classics, que trouxe uma cópia restaurada de “Dirty Harry” (1971) às telas do evento. Nascido em 1956, Rother estudou Literatura e História Alemã e concluiu o seu doutorado em 1988. De 1989 a 1991, foi professor na Universidade de Hanover e, de 1991 a 2006, foi diretor da cinemateca do Museu Histórico Alemão, onde também foi curador de exposições. Incluía entre elas “The German Empire of Images. Ufa 1917-1945”; “The Final Days of Humanity. Images of the First World War”; e “Paths of the Germans 1949-1999. Unity and Law and Freedom”.

Na entrevista a seguir, na condição de detentor de uma das mais respeitadas honrarias da Berlinale, Rother analisa o que a inteligência artificial pode trazer de positivo para a restauração.
Teme o avanço da extrema-direita sobre o futuro do cinema alemão?
Quando estiverem no poder, eles vão afetar todos os segmentos da cultura do nosso país, como a literatura, as artes plásticas… Não é só o cinema. Vão chegar com a determinação acerca do que é permitido ou não dentro das suas fronteiras, que são estreitas, avessas à pluralidade.
Até lá, a Berlinale, que o premiou com o prémio honorário resiste. Como define o papel do festival no cenário atual da produção cinematográfica?
Um festival é baseado num recorte curatorial de qualidade. O que se vê aqui não é o padrão, pois a curadoria é determinada por profissionais vindos de países diferentes, portanto, de contextos culturais distintos, que demonstram habilidades profissionais diversas.
Ao largo da sua conexão com a Berlinale, tem, até abril, a Deutsche Kinemathek para coordenar. De que maneira entende o papel da inteligência artificial no trabalho de restauração e de preservação dos filmes? A IA assusta-o?
Estamos a trabalhar com ferramentas digitais já há muito tempo, a fim de remover ranhuras dase películas. Só que esse trabalho é acompanhado sempre pelo olhar de um profissional, humano, que tem pesquisas sobre a corrente estética representada ali naquele corpo fílmico. Na fase de scanear uma cópia para o restauro, a IA pode ser útil. O nosso trabalho é salvar filmes. A fim de garantirmos essa salvação, necessitamos de dinheiro. Há gastos. Nem sempre é fácil convencer as autoridades desse investimento. Para além dele, temos o trabalho de estimular os jovens a ver filmes, a descobrir filmes.
Depois de tantos anos dedicado ao cinema, o seu olhar ainda está aberto a descobertas?
Ainda sou fascinado pela vivência de uma boa história. A experiência de descobrir um novo veio narrativo me instiga. Ver uma realizadora como Nora Fingscheidt construir o seu legado dá-me prazer e confiança no cinema alemão, assim como me alegro, no ambiente mais clássico, ao ver um grande filme como “Conclave”, de Edward Berger.
Além dessas duas vozes autorais, há outras expressões criativas no cinema alemão de hoje que lhe agradam?
Estou muito feliz com a variedade da nossa filmografia. O que me aborrece é notar que, diante de um contingente de quase 200 filmes produzidos por nós a cada ano, entre documentários e ficções, poucos títulos têm espaço nas nossas salas. Muitas produções alemãs sofrem com falta de espaço em sala.
Que dica de filme ou de realizador(a) daria para quem deseja conhecer o cinema alemão?
Escolher um caminho, aqui, seria desleal com toda a diversidade que temos, e qualquer resposta que der há de envolver algo que fuja do cânone. Cria-se identidade quando se foge do cânone. O que sugiro, para quem estiver a nos ler em Portugal ou no Brasil é: descubra o cinema alemão com liberdade, mergulhe no que temos.

