Uma década depois de se estrear nas longas-metragens – e na Berlinale – com “Beira-Mar”, que venceu a mostra Novos Rumos da Première Brasil 2015, a dupla Filipe Matzembacher e Marcio Reolon retorna ao festival alemão com um estudo sobre as potencialidades narrativas do thriller erótico – ou do legado genealógico dele. “Ato Noturno” é um filme alinhado com as inquietações da comunidade queer, com as quais os seus realizadores se alinham, mais na linha do desejo do que na prática de uma palavra (hoje) espancada… “amor”.
“Por muito tempo, entre as personagens LGBTQIAPN+, o amor caiu numa espécie de lugar assimilacionista”, diz Matzembacher, esgarçando a fronteira simbólica entre um corpo assimilado e um corpo aceite. “Este é um filme de criação de atmosfera, de conflito. A natureza das nossas personagens é de negociação constante. Tipo: que parte do que eu sou vou ter que esconder hoje para ter sucesso em alguma etapa da vida”. “Não sei se o amor dá medo, mas para nós ele não é um motor”, explica Reolon. “Nem me interesso se as personagens amam, pois penso mais no quanto desejam e no quanto têm companheirismo”.
Esse é o ethos que desenha a obra desse par de realizadores do Rio Grande do Sul, que foram contemplados pela Berlinale de 2018 com o Teddy e o prémio CICAE com “Tinta Bruta”, depois laureado com o troféu Redentor de Melhor Filme no Festival do Rio. A recepção germânica a “Ato Noturno” foi calorosa, na seção Panorama. A essência de ironia política da fita provocou debates sobre o estado de coisas do conservadorismo brasileiro. “A Berlinale é uma janela para o mundo, que cuida muito bem dos seus filmes, mas traz essa marca política” diz Matzembacher.
“Tivemos uma experiência muito bonita com Berlim na estreia do ‘Beira-Mar’, pelo facto de mais de uma mostra ter nos chamado, a partir do Fórum”, lembra Reolon.

Em “Ato Noturno”, os cineastas acompanham o quotidiano do ator Matias (Gabriel Faryas), que busca a sua primeira grande chance de chegar ao estrelato em Porto Alegre, participando de um respeitado grupo de teatro. Quando a notícia de que uma grande série será rodada na cidade chega à sua trupe, a rivalidade entre ele e o seu colega de apartamento, Fabio (Henrique Barreira), entra em ebulição. Apesar de ter talento, Matias enfrenta um obstáculo ainda mais desafiante se quiser conseguir o papel do galã: para ter uma chance de realizar o seu sonho, o jovem terá que esconder parte de quem é e ceder às convenções de género. No entanto, ao se envolver com Rafael (Cirillo Luna), um político que disfarça as suas pulsões, o aspirante a estrela passa a encarar uma dinâmica opressora. O que o oprime, contudo, também estimula as suas vontades… e o seu prazer.
“Quando entramos na parte das sequências noturnas, no plano de filmagem, o nosso designer de som, que trabalha sempre conosco, disse: ‘Agora, sim, isso aqui parece um filme de você”, diz Reolon. “É que a noite combina desejo e perigo. E estamos a falar disso num contexto de personagens que performam. São personagens dentro dos personagens”.
Fotografado (com requinte) por Luciana Baseggio, ”Ato Noturno” é um dos candidatos mais fortes ao troféu Teddy desta Berlinale.

