Responsável por um dos mais belos e dolorosos filmes de 2024, a sino-americana radicada em Nova Iorque Constance Tsang partiu do íntimo e das memórias do pai para criar “Black Sun Palace”, filme estreado na Semana da Crítica do Festival de Cannes, mas que agora circula na rota dos festivais de cinema internacionais.
Com Chantal Akerman como modelo e fonte de inspiração, e seguindo a exploração da identidade sino-americana, Constance leva-nos a Queens, em Nova Iorque, onde seguimos Didi (Haipeng Xu), Amy (Ke-Xi Wu) e Cheung (Kang-sheng Lee), três figuras que se encontram num salão de massagens, mas cuja tragédia os faz navegar entre o amor, a dor e a culpa.
“Sou uma fã de Chantal Akerman”, disse-nos a cineasta no Festival do Cairo, onde o seu filme concorre na Competição Internacional. “O silêncio não é algo que eu use para que as personagens revelem ou guardem em si sentimentos. Queria antes criar a sensação de presença de outra pessoa no espaço. A câmara consegue… o cinema consegue captar a energia de duas pessoas num espaço e tem a habilidade de conectar as personagens e o espectador sem recurso a diálogos.”

Quando questionada sobre como parte do íntimo e pessoal (a história do pai) para criar uma narrativa de ficção, Constance fala em dois momentos no seu processo: “Na fase do treatment, coloco elementos muito íntimos. Quando passo para o guião, então a história torna-se mais narrativa. É como se passássemos da nossa sessão de terapia para a criação de uma história. Durante esse processo consegues uma versão muito mais coerente daquilo que inicialmente tinhas”.
Estética
“Abordei e procurei uma linguagem cinematográfica que não estivesse agarrado às minhas experiências cinematográficas na escola de cinema. Procuro a minha voz o que gosto, em vez do que um professor me diz para ver e ser. O maior desafio é esse. Descobrir qual é a tua voz. (…) Depois tens a produção, que sentes como uma maratona. É uma prova de endurance. (…) Desde o início, eu e o diretor de fotografia, o , tínhamos coisas específicas a captar, fosse um tom ou uma palavra. Fizemos uma listagem, uma planta de como faríamos o filme. Depois disso, partimos para as locações e estudámos o que estes locais nos deram. Conhecendo o espaço, sabes logo o melhor ângulo para filmar, onde a câmara deve estar, etc. Quanto juntas os atores, captas espaço e pessoas. E captando pessoas, captas emoções”.
O elenco

Kang-sheng Lee e Ke-Xi Wu, protagonistas de “Black Sun Palace”, têm também experiência na realização, algo que segundo Constance Tsang foi uma enorme mais valia para o seu trabalho. “Foi uma benção trabalhar com atores que são artistas e entenderam perfeitamente o que pretendia fazer com este filme”, explicou-nos a cineasta, acrescentando que ambos puxaram por ela e tornaram o filme melhor. “Tivemos longas conversas na parte da escrita do guião, eliminamos coisas que eles sentiam que não faziam parte das suas personagens. (…) O Kang-sheng Lee tem uma forma muito distinta de atuar e ser. Enriqueceu bastante o filme”.
Como filma em película e não em digital, Constance Tsang sabia que havia limitações à “improvisação”, por isso os ensaios foram essenciais. “Com película, não temos takes intermináveis. É sempre preciso entender os beats emocionais de cada cena. Sabendo a força emocional de cada cena, até visitamos o terreno do improviso nos ensaios. Mas só estabilizando isso, filmamos”.
Uma Nova Iorque longe do cartão postal
Explorando o mundo encerrado da comunidade chinesa no bairro de Queens, Constance filma a maioria das cenas do seu filme em locações interiores, seja na habitação das personagens, nos restaurantes ou no salão de massagens, que funciona como o espaço central da história. “Ao aceder à história de migração dos meus pais, vi que o seu mundo era muito confinado ao da comunidade chinesa e não com a Nova Iorque que vemos habitualmente no cinema”, explicou a realizadora, que procurou mostrar o seu conjunto de personagens numa espécie de bolha. “Quis mostrar isso cinematicamente e este conjunto específico de personagens criou o seu próprio mundo”.
O futuro
Já a preparar um novo projeto, desta vez inspirado na história da mãe, Constance confessa que ainda está à procura da sua voz no cinema, mas afiança que esse trabalho já começou em “Black Sun Palace”. “Abordei e procurei uma linguagem cinematográfica que não estivesse agarrado às minhas experiências na escola de cinema. Procuro a minha voz e o que gosto, em vez de fazer o que um professor me diz. O maior desafio é esse. Descobrir a minha voz…”

