Aos 75 anos, o realizador irlandês Jim Sheridan continua no ativo e não sonha sequer um dia reformar-se. “Sem o cinema, não saberia que mais poderia fazer na vida”, disse o septuagenário no Festival do Cairo, onde é convidado de honra, poucos momentos depois de nos informar que tem casa no Algarve e que recentemente visitou o Porto. “Talvez seja a paixão pela verdade e justiça que me mova, e não tanto o objetivo de apenas entreter. Na verdade, não estou tão interessado em entreter. Se fosse para isso, preferia antes ir a um jantar com amigos da 7ª arte.“
Apesar de nos seus planos não estar qualquer indício de afastamento da 7ª arte, o cineasta admite que, com a chegada das plataformas de streaming e a sede de entretenimento, a dificuldade em conseguir financiamento para os seus filmes aumentou. E não só para ele. “Estive num painel há uns 8 anos com uns 10 realizadores britânicos que estavam todos a trabalhar muito. De um momento para o outro, a torneira fechou. Estamos a falar de pessoas que na época recebiam imenso dinheiro para filmar e, de repente, viram a carreira acabar. É como se existisse uma linha que nos informasse que depois dos 50 anos, era o nosso fim. E se fores inglês, ainda pior. O streaming tornou a dominação americana ainda mais pronunciada”, explica o realizador, que ainda assim tem uma série de projetos em andamento, podendo um deles ser selecionado para Sundance e/ou Berlim. “Fiz um filme com 2 milhões, a maior parte dele vindo de fundos estatais. É sobre a morte de uma francesa na Irlanda e vai de encontro ao que a Europa é. É sobre a Sophie Toscan du Plantier. Na minha ótica, os franceses pressionaram os irlandeses a não investigar o caso. Fiz um documentário de 5 horas para a tv e depois criei a ficção. Mas depois filmei numa espécie de homenagem aos “12 homens em fúria”. Em 12 dias filmei 100 minutos de filme. Agora é uma ficção e está pronto. Estou a tentar meter o filme em Berlim e/ou Sundance. Confesso que não sei bem a relevância do filme fora da Irlanda e França, mas acredito ser universal. O filme tem a Vicky Krieps, Aidan Gillen e o Colm Meaney. Escrevi meros pontos do guião e os atores improvisam o que lhes vai na cabeça. Aprendi muito sobre atuação com eles”.

Daniel Day-Lewis
Particularmente conhecido por realizar filmes com Daniel Day-Lewis no protagonismo – “O Meu Pé Esquerdo”, “Em Nome do Pai”, “O Boxeur” – Sheridan acredita que faltam no mundo atores do calibre de Daniel, mostrando-se profundamente feliz com o anunciado regresso do ator, ausente das telas desde que protagonizou “A Linha Fantasma”, de Paul Thomas Anderson. “Espero que o Daniel vá com calma na sua relação consigo próprio. Acho que só mesmo o filho conseguiria fazer com que ele voltasse ao cinema”, disse Sheridan, acrescentando (em jeito de brincadeira) aquilo que ofereceu ao ator com a sua direção: “A única coisa que dei ao Daniel foi a habilidade de lixar a sua perfeição (risos). Ele é um ator fantástico e o que lhe ofereci foi essencialmente um elemento de caos. O Daniel é especial. Às vezes existe uma química entre as pessoas que não consegues bem verbalizar (…) Ele é muito orientado para a família, sincero e espiritual. Desejo que regresse ao cinema, pelo seu talento. Aquilo que ele tem para oferecer, pouca gente tem. Num mundo cada vez com menos valores, alguém como ele é uma inspiração. Espero que regresse e nos sirva de exemplo”.
América
Apesar do sucesso dos seus filmes na Europa e ter dado o salto para os EUA com filmes como “Na América” e “Get Rich or Die Tryin‘ – Vencer ou Morrer”, Sheridan confessa que sempre lhe meteu confusão que quando era para promover os seus filmes, estava confinado a apenas às cidades de Nova Iorque, Boston, Los Angeles e, ocasionalmente, São Francisco. Intrigado com isso, perguntou porque razão não ia mostrar o filme a Minneapolis ou ao Kansas, por exemplo. A resposta dos distribuidores foi clara: “Quando os questionava, olhavam para mim como se tivesse duas cabeças e diziam que filmes europeus não eram exibidos nos Red States (Estados Republicanos). No caso dos filmes britânicos, havia duas exceções. O James Bond e qualquer coisa ligada à família real. Nos Red States existe a clara noção que devem ser eles a governar a nação. Fiquei fascinado com essa divisão e vi algo semelhante ao que existia na Irlanda, com a separação de católicos e protestantes. Filmes com italianos, judeus e negros não entram nos Red States. Este facto da distribuição nos EUA sempre me fascinou.“

As crianças de “In América”
Depois do sucesso com “O Meu Pé Esquerdo”, “Em Nome do Pai” e “The Field – Esta Terra é Minha”, Sheridan filmou na América a história de uma família de imigrantes irlandeses que adapta-se à vida nas crueis ruas do bairro de Hell’s Kitchen, em Nova Iorque,ao mesmo tempo que sofre com a morte de uma criança. Sobre esse filme, o realizador afirmou no passado que as interpretações infantis nesse filme são aquilo de que mais se orgulha na carreira. Anos depois dessas afirmações, ele desenvolveu o que realmente o fascinou. “Aqueles miúdos eram incríveis. Senti-me a ir para o outro lado. Em vez dos dirigir colocava-me ao lado deles, fingia ser incapaz de fazer certas coisas e precisava da ajuda deles. E eles era os únicos que podiam ajudar. A mais velha era a realizadora e dizia “ação” e “corta”. Quis quebrar uma barreira. Quando fazes um filme a realidade que vives muda o filme em si”.
“Get Rich or Die Tryin’ – Vencer ou Morrer”

Numa carreira marcada por filmes políticos, Sheridan surpreendeu o mundo quando assinou “Get Rich or Die Tryin’ – Vencer ou Morrer”, filme protagonizado por 50 Cent, o qual é descrito pelo cineasta como muito “prestável” e alguém com quem estranhamente se identificou: “Senti uma maior afinidade com o 50 cent que a maioria das pessoas. O local de onde vem, Queens, é muito semelhante ao que cresci. Muitas drogas, traficantes. A questão era a glorificação da venda de drogas. Não o fiz no filme. Fiz um filme que mostrou as consequências desse problema. A cena mais estranha de tudo nesse projeto foi que, um dia, cheguei ao estúdio da Paramount e toda a gente que lá estava era negra. Normalmente viam-se 2 ou 3 negros, por isso perguntei o que estava a acontecer naquele dia. Explicaram-me que havia um visionamento e que escolheram apenas uma audiência negra para mostrar o filme. Esse era o target que apontavam para vender o filme. Foi uma má conceção que limitou Hollywood durante muitos anos. Foi um erro de 100 anos de que apenas os negros iriam ver filmes com negros. Foi uma barreira limitadora criada por nós próprios. Quando fizeram o “Black Panther” na Marvel perceberam que as coisas não eram assim. Aí percebeu-se o poder da distribuição“.
O Futuro
Para Sheridan, uma coisa é certa. Se um controle remoto estiver envolvido numa sessão, então não é cinema. O realizador mostra-se purista e afasta por completo a experiência individual de ver um filme em casa de uma visita o cinema, numa experiência comunitária. Além disso, a sala de cinema revela por vezes questões coletivas que fazem os cineastas pensarem: ‘Porque diabo fiz esta cena?’ Existe o que ele chama de inteligência comunal.
Por isso mesmo, o irlandês pensa ainda em cinema quando parte para uma produção e, além do projeto já citado acima, tem ainda mais uma mão cheia deles na agenda, incluindo dois que serão filmados no mundo árabe: a história da infância da sua parceira, Zahara Moufid, em Marrocos; e outro sobre um cavalo campeão. Mas é sobre outro projeto que recentemente escreveu que Sheridan se alonga: “Escrevi um guião sobre uma história alucinante na Irlanda, talvez o maior caso do #Metoo local. É sobre uma mulher que deu à luz um filho de um homem casado. Ela enterrou-o à nascença, mas o bebé acabou por dar à costa esfaqueado 28 vezes. A polícia prendeu a família toda da mulher e todos confessaram matar o bebé. Porém, o tipo sanguíneo do bebé que deu à costa não correspondia ao namorado da mulher. A polícia disse então que ela teve um caso com dois homens na mesma noite e concebeu gémeos. Isto aconteceu nos anos 80. Sabem, esta história tem semelhanças com a da Sophie Toscan, em que as pessoas no final da investigação dizem ‘que se lixe a polícia'(…) A meu ver, o problema não é apenas a polícia, que está sujeita a enorme pressão. Acho que o problema está nas esferas superiores, nos procuradores de justiça, nos políticos. Quero olhar para a espinha dorsal da Irlanda através desta história e também no caso da Sophie. De certa maneira, continuamos a ter a mesma Irlanda sobre a qual o James Joyce escreveu. Uma Irlanda onde existe uma enorme falta de responsabilidade no mundo legal e político.”
O Festival do Cairo prossegue até dia 22 de setembro.

