Malu: a língua das “solidões formadoras”

(Fotos: Divulgação)

Fã de John Cassavetes (1929-1989), o realizador Pedro Freire parece ter tomado emprestado do seu ídolo ecos de A Woman Under The Influence (1974) na hora de compor a Comédia Humana retratada em Malu, já em cartaz no Brasil. Lançada mundialmente no Festival de Sundance, nos EUA, a produção acaba de estrear no circuito comercial da sua pátria natal após colecionar láureas nas duas maiores maratonas audiovisuais do país. No dia 30 de outubro, recebeu o Prémio Paradiso (de apoio à distribuição) na Mostra de São Paulo. Antes, no encerramento do Festival do Rio, conquistou o troféu Redentor em quatro categorias: melhor filme (em vitória ex aequo com Baby), melhor argumento (escrito por Freire), melhor atriz (Yara de Novaes) e melhor atriz secundáriapt/coadjuvantebr (dado à dupla Juliana Carneiro da Cunha e Carol Duarte). A trama, que tem lotado sessões em circuito brasileiro, narra a saga de Malu (Yara), uma atriz de passado glorioso, que se vê presa num caos sentimental. A relação nada leve com a mãe conservadora, Dona Lili (Juliana), e a filha adulta, Joana (Carol), torna a sua crise ainda mais aguda. Um amigo, Tibira (Átila Bee), que mora com ela, tenta se equilibrar em meio ao caos que impera entre aquele trio.

Na entrevista a seguir, Freire explica ao C7nema como é seu processo de enfrentar a palavra na construção da dramaturgia, num processo de criação que, num passado recente, levou-o ao Festival de Veneza com a curta O Teu Sorriso.

O cineasta Pedro Freire conquistou o troféu Redentor de Melhor Argumento no Festival do Rio por “Malu”, que estreou mundialmente em Sundance

Qual é a dimensão solitária que perpassa a convivência daquelas três mulheres e de que forma essa solidão serve de interseção a elas? Como se escreve a solidão?

Tudo nesse filme parte das minhas memórias, tanto as mais racionais, objetivas, quanto as mais subjetivas: as minhas sensações, as atmosferas. A sensação de solidão nessa família sempre foi muito forte. Tanto a solidão de uma infância em que não havia espaço para ser criança quanto a solidão da mãe adulta que não reencontrava o espaço que tivera no passado, na sociedade; quanto a solidão de uma senhora que teve um trauma terrível do passado, que ela enterra bem fundo, com o qual ela não tem vocabulário emocional para lidar. O nosso maior desafio foi construir essas personagens de forma honesta, com sensibilidade para estas solidões tão formadoras.

Onde é que John Cassavetes entra, consciente ou não, no seu processo de construção de mise-en-scène e na sua forma de escrever?

Acho que Cassavetes aparece como influência forte desde o argumento. Ele era um grande argumentista e não se fala muito isso. As personagens que ele criava no papel eram de uma humanidade infinita, que me inspira muito na minha escrita. A forma como ele trabalhava com atores, partindo de Stanislavski, mas adaptando e transformando em cinema, foi a minha maior inspiração no meu jeito de trabalhar com o elenco nesse filme, improvisando muito nos ensaios, porém, tendo o texto absolutamente decorado nas filmagens, como Cassavetes fazia.

O que a palavra simboliza no seu cinema, que demonstra não ter medo do verbo em cena?

Em quase todos as minhas curtas, a palavra é muito central. Já tive dúvidas se deveria fazer filmes mais silenciosos, já tive preconceito contra mim mesmo, pensei besteiras como “o cinema não deveria dar tanta atenção à palavra falada”. Acho que tive que superar isso para conseguir fazer “Malu”, filme que é muito falado, e para conseguir encontrar, no meio de tantas falas, os momentos de silêncio que falam mais do que todos os outros. Adoro os silêncios da Carol Duarte no filme, por exemplo, pois todos tão preenchidos de vida, de situação dramática.

Que trilhas europeias o seu filme tem pela frente, entre festivais e lançamentos comerciais?

Na Europa, o filme passou por festivais na Alemanha, na Croácia e na Irlanda, e deve passar em Paris no ano que vem. Atualmente estamos buscando distribuição em diversos países europeus. Tenho o sonho de conseguir mostrar o filme lá para o público, para além de festivais.

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