Depois de arrebatar elogios em Toronto e em Veneza, de onde saiu com o prémio de Melhor Guião, “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, chegou ao Teatro Principal, no arranque da 72ª edição do Festival de San Sebastián, nesta sexta-feira, atiçando a curiosidade basca sobre o período em que o Brasil viveu sob o comando de generais, de 1964 a 1985. A década de 1970 é o epicentro histórico da nova longa-metragem de Walter Salles, vencedor do Urso de Ouro de 1998 com “Central do Brasil”, que concorreu ao Oscar em 1999. Estima-se que a sua nova película será a produção indicada pela Academia Brasileira de Cinema para representar aquele país na caça a uma vaga na disputa pela estatueta hollywoodesca. Essa escolha será anunciada na próxima segunda-feira.
Produzido por Rodrigo Teixeira (de “A Vida Invisível” e “O Farol”), esse drama ambientado numa era de regime militar marca o regresso de Salles à ficção 12 anos depois de “On The Road” (“Na Estrada”). Com o enredo baseado num romance biográfico homónimo de Marcelo Rubens Paiva, no palco da dramaturgia está a família do romancista, os Paiva: Rubens (Selton Mello), Eunice (Fernanda Torres), filhas e filho. Eles vivem na frente da praia, numa casa de portas abertas para os amigos, com música e alegria reinantes. Vivem assim até o dia em que Rubens, um ex-deputado, é levado por agentes do governo à paisana e desaparece. Eunice – cuja procura pela verdade sobre o destino do seu marido se estende por décadas – é obrigada a se reinventar e traçar um novo futuro para si, para a sua prole e para a luta pela democracia. A mãe da atriz, a diva Fernanda Montenegro (estrela de “Central...”) vive Eunice em idade mais avançada. A eletrizante montagem – trunfo da fita – é assinada por Affonso Gonçalves, parceiro habitual da Todd Haynes e Jim Jarmusch.
De passagem por Donostia, Walter conversou por e-mail com o C7nema.

Como era a sua relação com a literatura de Marcelo Rubens Paiva antes da aproximação a “Ainda Estou Aqui” e o que esse livro, em especial, revela sobre a força que esse escritor tem? Por outro lado, penso o quanto a literatura assume papéis potentes na sua obra como realizador e abro mais uma questão: o quanto a prosa do Marcelo, de certa forma, também contagia a linguagem do seu novo filme?
Conheci a família Paiva, Rubens, Eunice e os seus cinco filhos, Veroca, Eliana, Nalu, Marcelo e Babiu, em 1969. Eles vieram morar no Rio, cidade para onde eu voltava após cinco anos no exterior. Assim, passei parte da minha adolescência na casa que eles haviam alugado no Leblon e que está no centro de “Ainda Estou Aqui”. Nalu era minha amiga mais próxima, enquanto Marcelo era um pouco mais novo do que eu. O assassinato de Rubens Paiva marcou um antes e depois, não só para todos que o haviam conhecido, mas também deixou uma cicatriz aberta na história do país. Ao escrever “Feliz Ano Velho”, Marcelo complexificou essa perda e expôs não só uma tragédia pessoal, mas também deu voz para toda uma geração. É um extraordinário relato de juventude.
“Ainda Estou Aqui” é um registro de maturidade, de uma profunda e dilacerante beleza, em que Marcelo reconhece que a sua mãe tinha sido a heroína silenciosa da família. O livro do Marcelo sobre os seus pais e o relato da reconstrução que a sua mãe faz da memória tocaram-me profundamente. O filme nasce dessa compreensão, e não existiria sem o livro de Marcelo.
Como foi o reencontro nos sets com Fernanda Torres 25 anos depois de “O Primeiro Dia”, um dos seus filmes mais tocantes? Que conexões se deram nesse reencontro?
Foi um presente. A Nanda é uma cúmplice e coautora desde “Terra Estrangeira”, que a Daniela Thomas e eu dirigimos em 1995. Admiro a inteligência aguda da sua atuação, que vem da compreensão profunda que ela tem dos seus personagens. “Ainda Estou Aqui” era diferente de tudo que a Fernanda já havia feito, demandava uma atuação baseada na subtração, na necessidade de dizer muito com pouco. A Nanda abraçou essa ideia, confiou. Essa fé no cinema que ela tem tornou o filme possível. A Nanda elevou o filme, como a dona Fernanda havia feito com “Central do Brasil”. “Ainda Estou Aqui” é um filme sobre uma família, realizado por uma família de cinema, composta por Fernanda Torres e pela extraordinária Fernanda Montenegro, por Daniela Thomas, produtora associada do filme, por mim. Família que agora se amplia com novos cúmplices como o Selton, como o Murilo Hauser e o Heitor Lorega e outros atores e artesãos incríveis que abraçaram o projeto.
Qual é a relevância de San Sebastián e da sua (secção) Perlak na carreira atual do filme?
San Sebastián é o festival onde estreou “Terra Estrangeira”, tudo começou ali. O grande crítico José Carlos Avellar foi o nosso padrinho nessa jornada, e sinto falta dele todos os dias. Retornei a San Sebastián com “Central do Brasil” e “Diários de Motocicleta”, que ganharam o prémio de público do evento, e retornei mais recentemente com o documentário sobre Jia Zhang-ke, “Um Homem de Fenyang”. Voltar para San Sebastián é um pouco como retornar a uma casa do cinema, que me foi apresentada pelo Avellar.

