Frédéric Farrucci leva um “moicano” corso a Veneza

(Fotos: Divulgação)


Depois de dar nas vistas em 2019 com “La nuit venue”, que arrecadou 2 Césars, o cineasta Frédéric Farrucci invadiu o Festival de Veneza e a secção Orizzonti Extra com uma nova produção carregada de tensão. Filmado na Córsega, “Le Mohican” segue a história de Joseph Cardelli, um pastor que é forçado a vender as suas terras junto à costa a um grupo de mafiosos que procura explorar a região com fins turísticos. Quando ele diz não à proposta e se defende, matando um dos mafiosos, começa a ser perseguido com toda a brutalidade. 

Frédéric Farrucci

A ideia do filme vem de um documentário que filmei em 2017, sobre um pastor na costa da Córsega, em pleno século XXI”, disse Farrucci ao C7nema. “Acima de tudo, em cima da mesa estava a atitude de vida de alguém que não admitia abandonar o que fazia”. 

Revelando que a sua ficção tem como foco a inquietude de alguém que não quer mudar de vida, o realizador diz que não precisou investigar muito sobre a questão criminal, já que todos sabem que as máfias estão bem implantadas na Córsega e em vários territórios. “É um território que conheço e sei que é habitado pelo crime”, revelou o realizador, acrescentando a intenção  de “estilizar” esses criminosos com elementos que encontramos nos westerns: “A prática do crime e da máfia acontece um pouco por todo o mundo, e segue a linha dos westerns. Pessoas que são de um território e são afastados dele por razões económicas. O que procurava era avaliar até que ponto os interesses económicos comandam tudo, em detrimento dos indivíduos e do território em si. O capitalismo esmaga e normaliza tudo. E, como diz o Roberto Saviano, ‘a máfia está sempre na vanguarda do capitalismo’”.

Referindo que dezenas de westerns serviram de referência e influência para o seu filme, ele menciona um “especial” que também aborda o conflito de território e de civilizações: “The Man Who Shot Liberty Valance”, de John Ford.  “A Córsega reúne todos os elementos dos westerns e da criação de mitos e lendas”, dispara Farrucci, que dá ao seu “Moicano”  o estatuto de herói e estrela das redes sociais: “O filme tem a dimensão de um conto. Interessava-me muito usar um instrumento do capitalismo, as redes sociais e o Twitter, contra o próprio capitalismo, dando uma dimensão política coletiva a um ato individual (…) O que gosto no filme é um homem que diz não a um sistema, sem se justificar e sem razões políticas para isso. Dizer sim à proposta de venda das suas terras seria o fim do seu mundo. Será a sua familiar, Vannina (Mara Taquin), que vai dar uma dimensão política à decisão dele dizer não ao sistema”. 

Alex Manenti em “Le Mohican

Descrevendo o cinema de género como “um cavalo de troia que permite, através de intrigas e referências cinematográficas, refletirmos sobre o estado do mundo, as ideias e a própria sociedade”, Farrucci elogiou a intensidade que o ator Alex Manenti trouxe para a produção, referindo ainda que apesar da intromissão dos elementos de género, procurava autenticidade e realismo. E para esse fim, muitos dos não-atores que vemos em cena acrescentam bastante.

O Festival de Veneza termina a dia 7 de setembro.

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