Emir Kusturica prepara filme inspirado em Dostoiévski: “A memória é mais bonita do que a realidade”

(Fotos: Divulgação)

Ao encerrar a 17ª edição do Festival de Küstendorf, realizado num resort a três horas de Belgrado, o sérvio Emir Kusturica volta a concentrar as suas atenções no projeto “Crime No Punishment”. A sua nova longa-metragem de ficção será baseada na prosa de Dostoiévski. Há tempos que não se vê um filme novo do vencedor de duas Palmas de Ouro. Uma delas, a de 1995, foi dada a “Undergound”, e a outra, a de 1985, foi confiada a “When Father Was Away on Business”. Ele entrou para o Panteão dos realizadores autorais aí e lançou (até agora) o seu último filme em 2018, com “El Pepe, Uma Vida Suprema”, abordando a América Latina, território que conheceu nos livros.

Lula é dos meus. Um líder bastante ativo nas lutas políticas. Já (Javier) Milei parece afastado da realidade, e vai aprisionar os argentinos na eterna condição opressora dos colonizados e dos colonizadores”, disse Kusturica ao C7nema, ao expressar zero interesse em regressar ao território de Sarajevo, citado nas suas memórias, registadas em livros, como “Death is an Unverified Rumour”. “Que lá fique nas recordações, pois a memória é mais bonita do que a realidade”.

Na entrevista a seguir, ele faz um balanço político e estético da realidade, criticando a atitude imperialista dos EUA.

As plateias de Küstendorf viram “On The Waterfront” (“Há Lodo No Caispt/ “Sindicato de Ladrões”br), num contexto de uma programação exemplar na valorização da diversidade nas vozes autorais. Mas sempre que fala dos EUA, a utiliza o pronome “Eles” para se referir aos norte-americanos, parece carregar uma abordagem crítica feroz. Que mitologia circunda os Estados Unidos no seu imaginário?

Deles, nós vimos o melhor e o pior. Quando o mundo assistia à Era de Ouro de Hollywood, recebíamos de lá os melhores filmes e as melhores músicas. Mas quando veio a década de 1980, depois da Guerra do Vietname, a sua excelência poética foi transferida para a tecnologia, perdendo a suavidade. A América passou a produzir armas, para ganhar dinheiro, forçando a Europa a comprar-lhe combustível Foi para o Médio Oriente, porque é lá que a torta está, e eles querem a sua fatia. A torta é o petróleo, o gás. Um dia, ela vai se deslocar das terras europeias e lá do Oriente e migrar inteiramente para a América Latina. Se vocês não se protegerem, na vossa soberania, vão ter problemas.   

Os seus filmes mais recentes abordam personalidades latino-americanas, como o estadista uruguaio Pepe Mujica, e o jogador de futebol argentino Diego Armando Maradona (1960-2020). O que a América do Sul representa política e esteticamente no seu modo de olhar o mundo hoje?

A melhor projeção de um filme meu no grande ecrã foi em Cuba, com “A Vida É Um Milagre”, quando o escritor (colombiano) Gabriel García Márquez (um dos precursores da escola de cinema cubana) estava por lá. Eu descobri a América Latina lendo os seus livros e de outras vozes literárias importantes. O realismo mágico foi uma expressão de forte resistência, na arte, e é similar ao que vivemos na Sérvia. Há outras semelhanças, como o vosso histórico de lutas de sobrevivência, e a força que temos no futebol. Os brasileiros e argentinos têm equipas mais unidas que nós. Mas temos grandes jogadores.

Quando regressa aos cinemas com uma ficção?
Este ano. Estou a terminar o guião de “Crime No Punishment”. É um filme que se baseia em Dostoiévski, a partir de dois dos seus livros: “O Idiota” e “Crime e Castigo”. É uma história sobre um jovem que comete um assassinato por amor a uma prostituta.

De que maneira a experiência de curadoria no Festival de Küstendorf muda a sua perceção do cinema?

A vila onde vivo tem duas salas de cinema. A curadoria é feita pela minha filha (Maja Kusturica) e por Marko Milosavljevic sob o entendimento de que o cinema passa por uma transformação tecnológica forte, a partir da qual temos vários suportes possíveis para ver imagens em movimento. Mas o que se aprende de uma sessão via smartphone são informações e não aquilo que entendemos como Cinema, a partir da força narrativa da luz que se faz notar na projeção de um filme de Fellini num grande grande.  

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