“Lost Country”: retrato inflamável da Era Milošević

(Fotos: Divulgação)

Primeira produção sérvia de impacto internacional recente a ser exibida na 17ª edição do Festival de Kústendorf, o áspero drama “Lost Country“, de Vladimir Perišić, cindiu as opiniões do evento eslavo, sobretudo após as declarações do seu realizador. Laureada com o prémio Louis Roederer Foundation Rising Star na Semana da Crítica do Festival de Cannes, a longa-metragem revive o período em que o estado jugoslavo ainda existia, em 1996, apesar das tensões da Guerra dos Bálcãs. O tema em si, com todas as suas dialéticas políticas, já é um assunto indigesto para a Sérvia. A forma como Perišić aborda o período inflamou ainda mais a ferida dos seus conterrâneos por trazer um painel mais ligado a angústias juvenis do que aos factos históricos – e as suas interpretações.

Informação é controle, como o cinema americano sempre nos mostra. Ao mesmo tempo, odeio metáforas. Gilles Deleuze (filósofo francês) dizia que metáforas são para gado. A arte nos oferece um entendimento maior da vida. Eu entendo a ficção como um veio para entender o real“, disse Perišić no Q&A pós sessão, após responder uma questão do C7nema sobre a relação indisfarçável do filme com “Os 400 Golpes“, de François Truffaut. “O cinema moderno mudou a forma com que a infância é representada no cinema. Isso já vem de Rossellini. Não sou tão reverente a Truffaut. Deixei que os jovens agissem diante de mim e capitalizei os seus sentimentos, pois não leram o guião. Eles apenas sabiam o que a premissa tratava e o filme foi sendo descoberto nos sets“.

Espécie de Antoine Doinel eslavo, Stefan, o protagonista de “Lost Country“, vivido por Jovan Giniv, vive uma fase de rebeldia, em especial no convívio com a sua figura materna, a assessora política Marklena (Jasna Djuricic). A sua rebeldia coincide com o governo de Slobodan Milošević (1941-2006). O facto de a mãe de Perišić também ser ligada a questões governamentais, gerou questões ácidas da plateia de Küstendorf.

Se a minha mãe fosse agricultora, eu faria um filme sobre agricultura, mas, por acaso, ela é política e eu não reduzo o meu filme a isso“, disse o cineasta. “Paul Schrader, autor do guião de ‘Taxi Driver’, diz que a força de uma personagem vem das suas contradições. Eu trabalhei com atores não profissionais. Filmava como se estivesse a fazer um documentário sobre eles“.

Küstendorf termina neste sábado com a cerimónia de premiação das curtas-metragens e a exibição de “Disco Boy“, de Giacomo Abbruzzese.

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