Já em cartaz em solo brasileiro, “Tempos de Barbárie – Ato I: Terapia da Vingança” foge das convenções hollywoodianas acerca do revanchismo como se vê em “Death Wish” e toma um caminho mais sociológico, menos preocupado com o entretenimento oco e mais interessado em fazer um paralelo entre uma narrativa de vingança e a realidade violenta da América do Sul.
O realizador Marcos Bernstein, que conversa com o C7nema nesta entrevista, já foi premiado no Festival de Roma com “Meu Pé De Laranja Lima” (2012) e esteve na Berlinale há 19 anos com “O Outro Lado da Rua” (2004). A sua trama mais recente, hoje em circuito no seu país, é detonada por uma tragédia. Durante uma tentativa de assalto, a filha da advogada Carla (interpretada por Cláudia Abreu) é baleada e fica em estado grave. Sem respostas, Carla tenta seguir a vida procurando ajuda em grupos de apoio. Sem conseguir aceitar o destino da filha e a falta de soluções por parte da polícia, ela transforma a busca por justiça numa procura por vingança e testa os seus próprios limites para ver até onde poderia ir.

Qual é a dinâmica do revanchismo de “Tempos de Barbárie – Ato I: Terapia da Vingança”?
Normalmente, o suposto vingador adota o papel de investigador e de juiz e vai atrás de um culpado. Ele tem decisões tomadas desde o início e persegue esse objetivo. Existe a proposta de ter um(a) personagem que decide ir atrás de tentar descobrir quem é o responsável pela sua dor. Não é uma investigação para pegar quem acionou o gatilho, mas o responsável pela cadeia de eventos que resultou na sua tragédia. Ela vai atrás da busca de entender o que se passou consigo, mesmo dentro da sua loucura. O terço final do filme reflete isso. A tal terapia da vingança é o movimento em que tenta se chegar a uma conclusão, mas não se chega a ela no fim das contas.
O que uma atriz como Cláudia Abreu oferece de mais potente na construção da dramaturgia?
Trabalhar com grandes atores é sempre um prazer artístico gigantesco. É um desafio descobrir um diálogo que, dentro da sua proposta, consiga permitir que eles tragam o melhor deles ou ajudá-los a surpreender o público com coisas inesperadas. A Cláudia Abreu é uma atriz fantástica, que todos conhecem, e tem nas mãos uma personagem forte e controversa, com muitas camadas. Ela começa com tudo meio certo na vida e um fator externo começa a destruir essa afetuosidade conquistada pela personagem ao longo da sua trajetória passada. Aos poucos, isso vai levando a um caminho de autodestruição. Ela traz os próprios questionamentos para a narrativa. Faz parte de uma certa inteligência do realizador conseguir absorver e compreender essa contribuição, encontrando os limites dentro da trama, absorvendo o máximo do que essa atriz faz.
Qual é o Brasil de que você fala em “Tempos de Barbárie – Ato I: Terapia da Vingança”, ou seja, que ecos das recentes viradas históricas do país passam pela sua dramaturgia?
Ecos não apenas do passado recente, mas de uma situação histórica que a gente parece não conseguir resolver. Há assuntos complexos que se complementam, de crítica social, de ordem judiciaria, de investigação. Tudo isso não funciona no país e, o que talvez mude o cenário, ou seja, parte do contexto da conjuntura, é o facto de que, recentemente, tudo ficou mais explícito. São certos setores da sociedade tentando legitimar essas possibilidades reativas do cidadão comum de se autodefender ou de reagir, em lugar de buscar uma solução da sociedade com políticas públicas. Isso é quase uma afirmação de que já que nada funciona, é um “Defenda-se aí”, um discurso que legitima crimes. O filme dialoga com isso, que não é uma situação só brasileira. O filme dialoga com a radicalidade do mundo contemporâneo, do mundo do algoritmo, do sim e do não, da falta de diálogo e falta de busca por consenso.
O quanto as suas incursões na direção afetam a sua forma de escrever guiões?
Esse diálogo com a direção, depois de quatro filmes, é sempre de ensinamentos mútuos. É tanto o argumentista que alerta o realizador para a compreensão do texto e do diálogo e da proposta visual, quanto o contrário. O realizador informa o que é viável e o que sai do papel. É um diálogo constante, que, às vezes, fica separado no set. Eu não me preocupo se é um texto meu. Estou protegendo o projeto e vou descobrindo as coisas conforme caminho. O cinema tem tantas variáveis que dificilmente você pode se apegar a uma forma pré-concebida. Coisas que você imaginou não são mais possíveis por conta de financiamento que não sai, locações que não facilitam. É uma adaptação para ir em busca para o projeto ir caminhando. Você vai dialogando com essas funções artísticas e, depois desse diálogo, tem a reflexão sobre o que você fez e o que aconteceu. Isso acaba refletido quando exerces isoladamente as funções.

