Nascido na Malásia em 1957, Tsai Ming-Liang tornou-se a partir da década de 1990 num dos mais importantes cineastas a oriente, especialmente em Taiwan, onde se estabeleceu.
Estreou-se com “Rebels of the Neon God” (1992) na Berlinale e dois anos depois levou a Veneza, ganhando o Leão de Ouro”, “Vive l’ amour” (1994). Em 1996 foi a vez de “The River” conquistar o júri da Berlinale e, desde então, multiplicaram-se os projetos de um cineasta que anda de mãos dadas com o mundo da arte contemporânea.
Nesse sentido, em 2009, “Face” tornou-se o primeiro filme a ser incluído na coleção do Museu do Louvre “Le Louvre s’offre aux cineastes” e, mais recentemente, o taiwanês tem sido convidado para participar em várias exposições e festivais de arte, apresentando ideias estéticas como “Hand-sculpted Cinema” (Cinema esculpido à mão) e “The removal of industrial processes from art making” (A remoção de processos industriais na criação artística), além de promover o conceito de “Art Museum as Cinema” e “The Author’s Intended Way of Viewing”, onde se introduz novos modos de exibição de filmes como forma de equilibrar o mercado comercial.
Presente em Locarno para receber o Pardo alla carriera na 76ª edição do festival, o realizador que se impôs por abordar temáticas como a alienação e o isolamento social, com um tratamento especial sob o ponto de vista da urbanidade, mantém o seu ar jovial, mas sente já o peso dos 65 anos. “Uma coisa que a idade me trouxe é a perda da força”, disse Tsai Ming-Liang a um grupo de jornalistas, onde se encontrava o C7nema, na cidade suíça: “Quando olho para trás, para as minhas criações, fico surpreendido com a força que tinha. Já não tenho essa força e não conseguiria agora fazer alguns dos meus filmes”.
Para o realizador de “Stray Dogs” (2013), o cinema deve continuar a ser “visto num grande ecrã”, mas não necessariamente nas salas de cinema tradicionais, como aquela que expôs no seu brilhante “Goodbye, Dragon Inn” (2003): “Os museus ganharam uma nova importância e muitos deles têm salas de cinema. É assim emergente um novo circuito de exibição, estando estes espaços a ocupar o lugar das salas tradicionais. Neste registo, os criadores têm mais liberdade para criar”, disse o cineasta, acrescentando que ele mesmo continua permanentemente nessa demanda: “Vou prosseguir a fazer filmes da forma que fiz o “Days” (2020), ou seja, mais simples, de baixo orçamento e com uma equipa pequena. Quero desindustrializar o processo. Estou ainda à procura de mais e mais liberdade quando faço filmes.”

E essa liberdade não passa apenas pelo ato de criar, mas igualmente de exibir: “A escolha onde os meus filmes são mostrados não depende só de mim. Em alguns casos, podem ser os governos a escolher, via atos de censura, ou então as empresas de distribuição, e até mesmo formas de adaptação a tradições locais”. Por isso mesmo, a busca de liberdade tem que ser contínua, reconhecendo que na última década a sua escolha de projetos está muito ligada a essa desafetação da indústria. “Nos últimos anos tenho trabalhado mais em pequenos filmes, talvez porque envelheci e estou cansado de trabalhar na indústria do cinema tradicional. Os museus, como local de exibição dos meus trabalhos, ganharam força e, no processo, também descobri novas maneiras de fazer filmes, como a Realidade Virtual, que não tem nada a ver com o cinema tradicional. (…) Um autor tem de criar e ser criativo, o que na indústria do cinema não é fácil. Precisas de sorte. Ser realizador é uma escolha, e nessa escolha podes optar por fazer filmes comerciais ou obras mais pessoais. Cada um escolhe à sua maneira, mas acima de tudo têm de estar satisfeitos com a escolha“.
Assumindo que tem vários projetos para diversos museus, Tsai Ming-Liang deixou a hipótese de fazer um filme baseado nas suas experiências como sexagenário. Sobre isso, brincou: “Estou à espera do Lee Kang-sheng fazer 60 anos para realizar esse filme”.

“Os meus filmes ajudaram à legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo em Taiwan”
Tendo consciência de como os seus filmes ajudaram na chegada da legalização dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo em Taiwan, Tsai Ming-Liang relembrou os caminhos pedregosos que a comunidade LGBT atravessou para chegar a essa resolução. “Quando cheguei a Taiwan há 30 anos, havia um ativista local incansável a levar essa discussão para a rua. Durante 30 anos, ele fez isso, sendo insultado no processo. Mas quantos tipos de pessoas fez Deus? Apenas homens e mulheres? Não necessariamente. Não somos Deus, por isso não sabemos quantos tipos de pessoas existem. Além do mais, os gays não decidem ser gays. Não é uma escolha.”
O Festival de Locarno termina a 12 de agosto.

