A viajar pelo mundo desde a sua passagem pelos Horizontes de Veneza, “A Noiva”, a nova ficção de Sérgio Tréfaut – depois de “Raiva” (2018) – tirou o público da Mostra de São Paulo da sua zona de conforto ao apontar um espelho geopolítico para a sina de mulheres assoladas por códigos culturais da realidade iraquiana. Na trama, que chega agora aos cinemas portugueses, uma jovem europeia, Bárbara, rebatizada Umm (vivida por Joana Bernardo), foge de casa para se casar com um guerrilheiro do Daesh. Torna-se uma das chamadas “Noivas da Jihad”. Três anos mais tarde, a sua vida mudou dramaticamente. Vive num campo de prisioneiros no Iraque, onde, mãe de dois filhos, está grávida outra vez. Mas, agora é uma mãe viúva, de 20 anos, e será brevemente julgada pelos tribunais iraquianos. O drama abre uma discussão sobre a lavagem cerebral, imigração ao reverso e afirmação de identidade. Tréfaut aborda todos esses vértices da geometria da exclusão na entrevista a seguir.

Qual é a ideia de fé que se esconde por trás de diálogos como “a esse, Alá não concede perdão”? Que mundo é este que você encontrou na conceção – não só estética, mas geopolítica – de “A Noiva” e de que mundo partiu? O que apanhou no Iraque, em 2012? O que te levou lá, ao largo de um projeto documental? Esse projeto acabou?
Primeiro, tive, entre 2004 e 2009, alguma intimidade com o universo árabe e islâmico, sobretudo no Egito. Depois, entre 2012 e 2014, estava a preparar um documentário em Bagdad sobre a falsidade da tese de Estado norte-americana, segundo a qual, as eleições e uma imprensa livre trariam a paz e a democracia para o Iraque.
Foi exatamente o contrário: trouxeram uma guerra civil mortífera e causaram o surgimento do Daesh, formado essencialmente por militares sunitas. Este documentário, que estava em fase de pesquisa, não pode ser levado a bom termo devido à tomada de Mossul pelo Estado Islâmico. Foi nesse momento que comecei a investigar, já para uma ficção, a trajetória dos jihadistas de origem portuguesa. Escrevi um primeiro tratamento, baseado na realidade. Era a história de um jovem negro, que partia dos subúrbios de Lisboa para ser convertido ao Islão radical em Londres, onde tentava ser jogador de futebol. Era treinado na África e ia combater na Síria. Mas, fiquei insatisfeito. Achei que parecia um biopic da Netflix. Foi então que descobri, já em 2018. a história das viúvas, o que me fascinou. Rapidamente, escrevi este argumento, tentando que o espectador se sentisse intrigado com o mistério de uma jovem. Se os próprios pais não conseguem entender as filhas que fugiram de casa para se casar com jihadistas, como é que eu posso dar explicações simplistas?As rezas que surgem em dois momentos diferentes do filme têm uma progressão e uma diferença entre elas. A primeira é uma reza que pede punição para os infiéis como totalmente exteriores à protagonista. Ela aproveita para falar com Allah e pedir um novo marido. Também se refere ao filho que traz no ventre e que gostaria de não ter. A segunda reza pertence ao universo da dúvida. Ela praticamente anuncia que tanto pode crer, como não crer, e admite a punição dos inconsistentes, que passam de um lado para o outro da barreira. Por fim, já sem qualquer reza, no diálogo final, ela admite já não acreditar no paraíso.
O que justifica a adesão juvenil ao Daesh?
Contrariamente ao que muitos imaginam, o que mais justifica essa adesão são valores idealistas. Os jovens aderem sempre às seitas mais extremistas, convencidos de estarem praticando “o Bem”. Por isso, no Brasil, rio muito com a recorrente expressão segundo a qual alguém é “do bem”. Para mim, isso não significa nada. Somos todos capazes do melhor e do pior.
Como foi o processo de construção do seu guião? O que veio de fontes reais e o que veio de apostas ficcionais?
É o cruzamento de várias histórias reais, com alguns diálogos transcritos ipsis verbo da realidade. As locações (definidas desde a escrita) são as mais realistas possíveis. Existem também cenas que saíram só da minha cabeça. Com base numa pesquisa ampla, eu quis levar o espetador a um lugar onde nunca tinha estado e conviver, sem julgamentos, com uma menina que, por um lado, esteve associada aos crimes do Estado Islâmico e, por outro, ainda é uma adolescente de 20 anos. Está totalmente arrependida? Não está? A única coisa de que eu tenho a certeza é que agora ela procura salvar a pele.
“Raiva” fez com que te associássemos a um cinema de esmero formal singular. Como é a ideia de pensar a luz e a construção do plano, num projeto como “A Noiva”?
A nível fotográfico, “Raiva” é um filme de homenagem a grandes momentos da história do cinema. Nesse sentido, quase parece um exercício formal, em preto e branco, onde cada plano pode impressionar pela sua beleza. Quanto ao filme “A Noiva”, apesar de conceber os planos, com muito cuidado narrativo – o que é particularmente óbvio na cena da execução -, apesar de procurar que tudo conduza o espectador para um falso sentimento de “verdade”, o tratamento da imagem é oposto ao naturalismo realista. Fiz questão de reduzir as cores, retirar brilhos, criar algo que é o oposto da imagem de reportagem.
Qual é a dimensão do feminino que “A Noiva” te revelou?
Aquilo que descobri, durante as filmagens, e não poderia ter escrito, por falta de experiência, é como funciona a dinâmica das mulheres que vivem juntas, num matriarcado, sem homens. Como as crianças passam a ser de todas. Há uma solidariedade feminina muito interessante nesse universo muçulmano em que – geralmente de fora – apenas conseguimos ver o domínio opressivo masculino.


