Nayola: Recordações de uma África impregnada de guerra

(Fotos: Divulgação)

Aplaudida com ardor no Festival de Annecy, não apenas pelo seu caudaloso painel geopolítico, mas por servir de megafone a vozes femininas abafadas pelos canhões coloniais, Nayola é a produção que leva um dos mais premidos realizadores da cena animada portuguesa, José Miguel Ribeiro, à seara das longas-metragens. Imã de prémios com A Suspeita (1999) e de risos com Passeio de Domingo (2010), o cineasta deslumbrou na 46ª Mostra de São Paulo e chega agora à Monstra | Festival de Animação de Lisboa.

Com base no texto teatral Caixa Preta”, de Eduardo Agualusa e Mia Couto, o cineasta faz um balanço dos traumas bélicos de Angola. A trama segue três gerações de mulheres afetadas pela guerra civil, mas também por espectros das guerras coloniais: a avó Lelena, a filha Nayola e a neta Yara. Um segredo doloroso, uma busca imprudente, uma música de combate, um amor suspenso e uma jornada de iniciação. Essa é a fórmula do argumento.

Que bússolas históricas te guiaram na direção de África e no percurso para as guerras coloniais? Que faróis te orientaram o olhar nesse mundo de sangue em derrame pela violência europeia? Que Zé foi à África (ainda que na Geografia do Cinema) e que Zé voltou dela?

África estava dentro de casa dos meus pais, em Lisboa. Estava dentro do álbum de fotografias do meu pai fardado de militar com palmeiras ao fundo e macacos com trela na Guiné Bissau. As imagens eram janelas de histórias exóticas, distantes da rua em que cresci. Um bairro de jovens famílias recentemente regressadas da guerra colonial. Um bairro cheio de crianças da minha idade com casas decoradas com máscaras africanas e goesas. Todos vivíamos com a África nas paredes, nas palavras (“bué bom!”) e, só mais tarde, compreendemos que aquilo tudo estava impregnado de guerra. A minha curta-metragem anterior, Estilhaços conta a história de um jovem que descobre que a raiva da guerra que encontra dentro de si foi-lhe passada pelo pai.“Ninguém volta da guerra”. Agora, com o filme Nayola, descubro – através da peça de teatro A Caixa Preta, escrita pelo angolano Eduardo Agualusa e o moçambicano Mia Couto – as consequências da guerra numa família de três gerações de mulheres. Mas agora com um olhar africano sobre as consequências da guerra colonial e, consequentemente, da guerra civil de Angola. Para realizar este filme, tive de fazer quatro anos de pesquisa pelos livros de autores angolanos, músicos angolanos, documentos históricos, análise social, artistas plásticos africanos e viagens à Angola. Passei os últimos 9 anos mais próximo de Angola que de Portugal. Mais próximo do olhar e sentir feminino que a peça do Mia e Agualusa já tinha, mas precisava de ser ainda mais desenvolvido. O argumentista Virgílio Almeida, que tem raízes profundas em Angola, trabalhou durante estes quatro anos na escrita do guião enquanto eu desenhava.

Como foi o processo de construção daquele mundo na busca pelas cores, na busca por traços? Que técnicas empregou ? Que meios tecnológicos usou?

Toda a criação gráfica do filme começou com uma pesquisa alargada de arte tradicional africana, com foco principal nas máscaras utilizadas nos rituais de dança para comunicar com o mundo dos mortos. Havia foco, também, na arte contemporânea africana, como os trabalhos do artista Kiluanji Kia Henda, os desenhos e instalações de William Kentridge e as pinturas de Malangatana.  O filme tem duas linhas temporais paralelas: O PASSADO, onde acompanhamos a Nayola à procura do marido Ekumbi, e o PRESENTE, com a rapper Yara que vive com a avô Lelena numa casa, que uma noite é assaltada por um mascarado. No PASSADO, construímos uma linguagem gráfica e pictórica capaz de nos ligar a uma dimensão do Belo, uma Natureza intensa na cor, mas, também, na expressão das pinceladas aplicadas nos cenários por meio de gestos firmes com texturas fortes. No PRESENTE, construímos uma linguagem gráfica mais próxima do real fotográfico, capaz de nos colocar em Luanda e sentir a poeira no ar, o cheiro a gasóleo dos carros e a vitalidade da rotina dos luandeses. O PASSADO é animado na técnica de desenho animado 2D. O PRESENTE é animado na técnica de 3D. Duas linguagens gráficas distintas para situar o espectador no tempo e espaço, mas também para deixar marcado que a mãe Nayola, percorre um dos caminhos e a filha, o outro. Caminhos paralelos que apenas os sonhos e a fantasia conseguem ligar.

“África estava dentro de casa dos meus pais, em Lisboa”, diz o animador

Como avalia a animação que se faz hoje em Portugal? O que há de mais pop nela? E o que há de autoral?

A animação de curtas-metragens portuguesas tem mostrado, ao longo dos últimos 20 anos, a qualidade e diversidade artística dos autores portugueses conceituados, mas, também, a renovação geracional com novos realizadores a surgirem todos os anos. É esse o caso de João Gonzalez, que tem conquistado o mundo com a sua recente curta-metragem Ice Merchants ou a realizadora Laura Gonçalves, com o filme O Homem do Lixo. As duas longas-metragens portuguesas que saíram este ano estiveram na competição oficial de Annecy, demonstrando também uma qualidade reconhecida neste e noutros festivais internacionais. Isso deixa altas expectativas para os próximos projetos de longas que estão em produção. A parte mais frágil da animação portuguesa é, para já, a produção de séries de animação, que são difíceis de financiar em Portugal, especialmente pela falta de investimento dos canais da televisão portugueses. Aqui vejo ainda um longo caminho a percorrer.

O que viabiliza um filme como NAYOLA em termos financeiros? Quanto custou? Quando estreia?

O financiamento de uma longa-metragem como a “Nayola, em Portugal, só é possível com o apoio bianual de 1 milhão de euros do Instituto do cinema e audiovisual, mas, também, pelo recentemente criado apoio do turismo, que complementa este apoio do ICA (Instituto do Cinema e Audiovisual), permitindo, depois, completar a montagem financeira por meio de coproduções internacionais. No nosso caso, somos uma coprodução com Bélgica, França, Holanda e Portugal, para um filme que custou 3,5 milhões de euros e demorou cerca de nove anos a ser produzido. A “Nayola vai estrear primeiro em Angola, por altura do carnaval, durante o mês de fevereiro, e, depois, em França, no dia 8 de março, o Dia Internacional dos Direitos da Mulher. Nas semanas seguintes, chegará às salas de cinema da Bélgica, Holanda e Portugal.

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