Noémie Merlant quebra os clichês em “Mi Iubita, Mon Amour“

(Fotos: Divulgação)

Figura de destaque no cinema francófono pela sua presença em filmes como “Retrato de uma Rapariga em Chamas“, “Paris 13“ e “Jumbo“, Noémie Merlant teve a sua estreia na realização de longas-metragens com “Mi Iubita, Mon Amour“, que chegou esta semana aos cinemas nacionais.

Daqui a um mês serei uma mulher casada”, diz a realizadora e atriz na primeira sequência filmada num carro, onde ela se encontra com três colegas para uma road trip que ganha contornos especiais quando o carro é roubado e as jovens têm de ser acolhidas por uma família roma que as ajuda a ultrapassar os contratempos.

A Céline Sciamma fez-me entender que posso seguir os meus desejos“, disse-nos a atriz em Paris quando promovia “Retrato de uma Rapariga em Chamas“, ainda antes de terminar as filmagens deste objeto cinematográfico que apelidava de “cinema guerrilha”. “Muitas vezes colocamos as pessoas em caixas, estilo: tu és atriz. A Céline ajudou-me a sair dessa caixa, desses rótulos. De expor o que penso e quero mais vezes. Há muito que ambicionava experimentar a escrita e a realização, por isso ela ajudou-me a expandir [o meu mundo].

Um ano depois dessa entrevistas, e já depois de brilhar em “Jumbo“, como uma jovem que se apaixona por uma atração de um parque temático, voltámos a entrevistar Noémie Merlant, desta vez em Cannes, no famoso terraço da Unifrance, onde ela nos falou deste “Mi Iubita, Mon Amour“. “Foi muito intenso o processo de filmagens, pois tínhamos apenas 15 dias para o fazer. Nada estava realmente preparado, mas isso foi intencional. O Gimi-Nicole Covaci (protagonista e argumentista ) deu o primeiro passo, a ideia. As atrizes do filme, que viajam comigo nesta despedida de solteira, são minhas amigas na vida real. O Gimi lançou a ideia de contar uma história de amor. Encontramo-nos com ele na Roménia. Escrevemos o guião e a espontaneidade da fabricação do texto trouxe uma energia particular para o tipo de filme que é: sobre amizades, amor, riscos e capacidade de reinvenção.”

Foi algo único“, explicou Gimi-Nicole Covaci. “Tivemos sempre juntos, não apenas nas filmagens. Foi uma experiência de alegria. Não era uma rodagem normal. Às vezes éramos atores, outras vezes trabalhávamos no guarda-roupa, etc. Fazíamos muitas coisas diferentes. As filmagens normais não são assim. Isso permitiu-nos ir além da experiência de ator e entrar na pele de todos os elementos que compõem uma equipa (…) Havia um guião e tudo estava bastante detalhado, mas existia também a espontaneidade. Gostamos muito da ideia de viver o momento e ver o que ele nos dá. De pegar na energia do grupo e passá-la para o filme “.

Gimi-Nicole Covaci

Para Noémie, avançar para o projeto, mesmo sem meios, foi certamente uma escolha arriscada que teve de tomar, construindo toda a estética a partir dessa mesma opção. Além do mais, para a jovem cineasta, “era muito importante quebrar os clichês e as barreiras” que muitas vezes são impostas em relação à comunidade roma, uma questão que certamente teve forte impacto no desenvolvimento do filme: “É a família do Nino (Gimi-Nicole Covaci) que nos acolhe. As pessoas da comunidade rom são sempre apresentadas no cinema de uma certa maneira que era importante reverter. Nós começámos o filme com um certo desconfiar a esses roma, para depois desconstruir isso e construir aos poucos uma observação diferente sobre eles e sobre a amizade. Tudo até um ponto da história em que já só interessavam as emoções e não as pessoas e o que elas são.” 

Já Gimi-Nicole Covaci confessa que ama a arte, o cinema e a atuação, e que fazer filmes em torno dos ciganos é mesmo um dos seus objetivos: “Como ciganos sentimos que vivemos em dois mundos paralelos. Um mundo que nos faz pensar muito nas coisas, mas onde falamos pouco dos ciganos. E um mundo que quando fala dos ciganos, fa-lo de forma muito estereotipada e negativa. Gostaria de mudar isso. Sei que sozinho não consigo, mas tentarei pois no final somos todos seres humanos e somos todos semelhantes. Para nós é especialmente duro viver estas coisas todas, pois gostaríamos de sentir que olhavam para nós como ‘normais’. E quando falo em ‘normais’ é deixarem-nos ser o que somos sem olharem para nós com diferença“.

Quanto à influência de Céline Sciamma nesse avançar para a carreira de realizadora, Merlant reforçou as palavras anteriormente ditas, mas acrescentou outro nome que a ajudou a dar o derradeiro passo: “A Céline Sciamma é alguém que nos impulsiona, que nos instiga a ousarmos, a nos exprimirmos. Ela é muito inspiradora como mulher. Mas existem outras  que me influenciaram. Por exemplo, quando vi o filme da Hafsia Herzi em Cannes (Tu mérites un amour, 2019) tive o clique final para elaborar o meu filme da maneira que o fiz. O seu filme deu-me a derradeira força para me lançar como realizadora.”

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