Vencedor do prémio de interpretação na secção Un Certain Regard do Festival de Cannes, o franco-tunisino Adam Bessa ganhou um forte impulso para a sua carreira na atuação. Já presente em pequenos papéis no cinema francês em filmes como “Haute Couture” (brevemente nos cinemas) e no sucesso da Netflix “Extraction” (Tyler Rake: Operação de Resgate), que vai ter uma sequela onde surge novamente em cena com Chris Hemsworth, o ator de 32 anos teve em “Harka” o seu primeiro grande papel no cinema.
No filme, passado no interior da Tunisia, ele é Ali, um homem que mal ganha a vida a vender gasolina contrabandeada. Quando o pai, de quem se mantém distante, morre, ele vê-se de repente no comando da sua família, prestes a ficar desalojada por falta de pagamento ao banco. Refém de uma sociedade onde a corrupção das autoridades é um facto e onde muitos dos sonhos do pós Primavera Árabe mostraram não se concretizar, Ali vai ter de lidar com a situação e encontrar um rumo para si e para a sua família.
Foi em Cannes que nos encontrámos com Adam Bessa, abordando a sua participação em “Harka” e as suas ambições para o futuro.
Como foi a experiência de voltar à Tunísia para filmar este filme?
Era algo que procurava há muito tempo, voltar e filmar algo desta escala, com esta ambição no que queríamos retratar. Acho que desde miúdo tinha esta ambição.
E estudou a personagem? Que investigação fez para desempenhar o seu papel?
Fomos para lá três semanas antes de filmar e encontramo-nos com alguns contrabandistas com quem a produção mantinha contacto. É um submundo em Tunes e tive em contacto com eles. Conheci os seus hábitos, sotaques, etc… Eu cresci entre França e a Tunísia, mas sempre fui uma pessoa da cidade, que é muito diferente do sítio que filmamos. Por isso tive de conhecer estas pessoas, os seus hábitos e a realidade. E tive de ganhar aquele bronze que carregavam, para me misturar entre eles. Durante as filmagens mantive-me sempre dentro da personagem. Além disso, a duas semanas de se iniciarem os trabalhos fui informado que o projeto seria filmado em película e que no máximo teria apenas a hipótese de fazer 3 takes para cada cena. O orçamento era baixo e tínhamos poucos rolos de película, por isso tinha de ser assim. Tínhamos um máximo de 3 takes por cena, o que representou um desafio ainda maior. Acho que isso influenciou muito a razão de eu ter entrado e me mantido na minha personagem mesmo fora das filmagens.
Acha que essa pressão ajudou-o na sua performance?
Acho que sim, mas não tenho forma de o saber porque só fizemos assim (risos). O que posso dizer é que adorei o desafio e todos dias questionava a minha capacidade para o fazer. Era uma montanha russa de emoções para todos, pois era um desafio geral. Veja, no caso do diretor de fotografia, era também um enorme desafio, até porque este era o seu primeiro filme. E todos nós tínhamos não atores ao nosso redor, por isso o desafio era partilhado por todos.
Foi uma experiência muito diferente da que viveu em “Extraction” da Netflix ou no filme “Haute Couture” em França?
Sem dúvida. No “Extraction” tínhamos outro tipo de pressão, pois era um filme de grande orçamento e existiam grandes expectativas sobre ele. O tipo de pressão era radicalmente diferente, e os dois filmes, na forma e meios, são o 8 e o 80.
E quer continuar assim, a trabalhar entre dois mundos, dos blockbusters e dos filmes de menor orçamento?
Sim, mas uma coisa importante de dizer é que penso sempre nas audiências. Existem os filmes de autor, mas temos de pensar que muita gente tem empregos estafantes e a única coisa que precisa às vezes é um filme ligeiro para descomprimir da rotina laboral. Por isso acho que filmes como o “Extraction” são importantes para essa tarefa. Além disso, estes grandes projetos trazem alguma luz aos mais pequenos. Tenho consciência que este “Harka” não vai estar acessível a todos, mas certamente alguns vão chegar a ele por causa do facto de ter o tipo do “Extraction” nele. O meu papel nisto é também levar essas pessoas de uma história menos complexa para outra mais intrincada.
Sei que quando era pequeno não tinha a ambição de ser ator. Como é que chegou até aqui?
O meu irmão mais velho disse-me, quando eu tinha 12 ou 13 anos, que se eu quisesse fazer alguma coisa na vida teria de aprender inglês. Fiz isso, socorrendo-me bastante de filmes em inglês que via sem legendas. Esse foi o primeiro passo. Depois, não existiam videoclubes nem Netflix na época e por isso fazia o download de muitos filmes quando estava na casa dos 20 anos, o que me ajudou a progredir e ter contacto cada vez mais com o trabalho de atuação. Não quero parecer piroso, mas a minha maior influência no atuar vem mesmo das ruas, das pessoas que encontras no dia a dia. As ruas são a melhor escola. É aí que vês as pessoas reais e o seu comportamento.
Mas houve algum ator que o influenciou e inspirou a sua carreira?
Ao longo da minha juventude, o Joaquin Phoenix, sem dúvida. A Cate Blanchett também. Depende sempre do que gosto numa personagem. Por exemplo, adoro a Sophia Loren e o Mastroianni, que tinham uma forma de atuar que não encontrávamos no cinema americano. O mesmo digo do Tony Leung, com toda a poesia que carrega nos filmes do Wong Kar Wai. Mas se pensar em alguém que realmente ame, é o Gary Oldman. Acho que foi a pessoa que mais me surpreendeu no cinema, embora também goste do nível de empenho e precisão do trabalho de Daniel Day-Lewis. E a sua integração no trabalho do realizador, pois aquilo que é importante não é apenas o que fazes, mas a relação disso com a visão do autor. Nesse aspecto, o Daniel Day-Lewis é magistral.
Não mencionou nenhum ator francês…
Sim, é verdade. Não me identifico com nenhum deles. Bem, nos anos 70 sim. O meu ator francês preferido é o Alain Delon. Nas atrizes, a minha preferida é a Ana Girardot.



