Céline Sciamma: “O cinema de Hayao Miyazaki é único, incrivelmente democrático”

“Petite Maman - Mamã Pequenina” estreia a 17 de março

(Fotos: Divulgação)

Quando falamos de Céline Sciamma, existe um antes (Naissance des pieuvres, 2007; Maria-Rapaz, 2011; e Bando de Raparigas, 2014) e um depois de “Retrato de uma Rapariga em Chamas’”. Foi a própria que nos confidenciou essa realidade numa entrevista a propósito do seu mais recente filme, Petite Maman – Mamã Pequenina, que esta semana chega às salas nacionais.

Estreado com alguma surpresa no Festival de Berlim em 2021, o filme segue Nelly, uma menina de 8 anos que perde a avó e está a ajudar os pais a esvaziar a casa onde a mãe viveu em criança. Ela explora a casa e a floresta à volta, onde a mãe, Marion, costumava brincar e onde construiu uma cabana. Um dia, a mãe parte sem explicações e Nelly conhece uma menina, mais ou menos da sua idade. Ela está a construir uma cabana e chama-se… Marion.  

História de amadurecimento, Petite Maman – Mamã Pequenina, tem uma forte componente biográfica, mas encontra igualmente inspiração no cinema de Hayao Miyazaki, o único cineasta que, segundo Céline Sciamma, faz filmes de e para crianças que acabam por agradar a todos. 

O “Retrato de uma Rapariga em Chamas” foi um grande sucesso. Como criadora, como viu esse sucesso e até que ponto ele mudou a sua forma de ser?

Mudou muito. Podemos até dizer que há um antes e depois do “Retrato de uma Rapariga em Chamas”. A começar pela atenção que surgiu em mim, o interesse internacional, o que me tornou menos dependente dos meios locais.  A minha vida mudou bastante, até na perda da anonimidade, que representou um novo desafio, até físico! E trouxe-me a liberdade para fazer outras coisas, mas também uma maior pressão.

Petite Maman – Mamã Pequenina

Depois desse sucesso, foi  um pouco surpreendente quando o “Petite Maman – Mamã Pequenina” surgiu no Festival de Berlim, em 2021, até porque a maioria das pessoas nem sabia da existência do filme. Como se processou o desenvolvimento deste filme?

Sim, é verdade. Foi um filme que se desenvolveu muito rapidamente, mas já o tinha na mente há muitos anos. Em 2017 decidi avançar com o “Retrato de uma Rapariga em Chamas”, mas ele já existia no meu pensamento. Era um projeto caloroso e algo com que sonhava frequentemente. Mal tive a oportunidade de o escrever, em março de 2020, avancei. 

Inicialmente era um filme intemporal, direcionado às crianças, com um cunho fantástico e mitológico, mas com a pandemia todas essas questões ganharam uma forma mais real de ser, entrando no que chamamos função social do cinema. Com esta pandemia surgiu também uma nova urgência no falar com as crianças, reunir várias gerações, e apoiar o cinema. Foi por isso que escolhi Berlim para estrear o filme. O cinema teria de atravessar a pandemia e sobreviver. 

O quão pessoal e biográfico é este filme?

Creio que foi a primeira vez que trabalhei realmente sobre os meus fantasmas. A avó que vimos no filme assemelha-se muito à minha e foi a primeira vez que usei o cinema como capsula de ressurreição. Sem dúvida nenhuma que esse ato foi muito pessoal, mas simultaneamente acredito ser um ato possante para o próprio filme em si. Nós, cineastas, metemos elementos biográficos nos filmes porque acreditamos que eles estão carregados de algo que achamos essencial. Além disso, filmei o projeto na minha vila natal, que tem uma floresta modesta. Não é fácil criar trilhos e caminhos imaginários, além de navegar entre passado e presente.

Apesar dos elementos pessoais que falou, existem também outras influências óbvias. Por exemplo, do cinema de Hayao Miyazaki O que esse autor representa para si?

Para mim é um dos raros, para não dizer o único, que faz filmes endereçados às crianças que não dizemos que são exclusivos para um público infantil, mas para todos. É um cinema que navega entre invenções formais e grandes emoções. É um tipo de cinema único, incrivelmente democrático. Tive a chance de crescer com os seus filmes e adorava ver aquelas personagens femininas no centro da ação.

O Uutono tem uma grande marca neste mãe pequenina. Liga essa estação à própria infância?

É a minha estação do ano preferida. Sou uma filha do Outono. Há muito tempo que queria fazer um filme desta estação. O “Retrato de uma Rapariga em Chamas” também o era, mas tivemos muitos dias de sol. Sempre tive em mente este novo filme ser no outono.  É um período como que da natureza enlutada. Tem uma beleza mórbida. Pensei também no Miyazaki nessa escolha e nas filmagens trabalhámos muito nos detalhes, como o acrescentar mais folhas, etc. Era também um desejo meu trabalhar com as cores dessa estação e assim enriquecer o tom do filme. 

Petite Maman – Mamã Pequenina

Voltando ao “Retrato de uma Rapariga em Chamas”, o filme foi também uma incubadora de jovens cineastas. A Noémie Merlant e a Luana Bajrami falaram-me da grande influência que teve para o início das suas carreiras na realização. Como vê isso?

Fico muito feliz, pois demonstra a forma como todas trabalhamos nesse filme. Quando partilhamos o espaço da mise-en-scène, dou-lhes uma ideia dessa mesma mise-en-scène. Ofereço proximidade e mostro que são capazes. Essa passagem das duas para a direção significa que trabalhámos bem juntas, que refletimos em conjunto a mise-en-scène. Se fosse comigo, adoraria que me fizessem isso num set.

No caso da Luana, era óbvio para mim essa apetência. À segunda cena notei logo nela uma capacidade de direção, pois fazia as mesmas questões que eu fiz. As/os atrizes/atores conhecem bem o palco, o cinema e as incompetências que lhes surgem pela frente, por isso é relativamente fácil fazerem a transição para a realização.. Tem é de haver desejo….

Em 2021 vimos várias realizadoras com sucesso:  nos Oscars (Chloé Zhao), em Cannes (Julia Ducournau) e Veneza (Audrey Diwan). E antes disso a Céline também fez parte desse sucesso. Tem o sentimento que alguma coisa está realmente a mudar no mundo do cinema ou foi apenas uma situação circunstancial?

Bem, primeiramente acho que essas realizadoras fizeram grandes filmes (risos). Vivemos um tempo em que se despolitiza essa questão, e o facto desse olhar contar realmente. Na História do Cinema, o olhar no feminino foi apagado, esquecido, por isso espero que exista uma continuidade em dar-lhe relevância.

Acima de tudo queremos o nosso lugar, um futuro. E falo das mulheres e de todos os grupos marginalizados até agora. Mas o mundo é assim; vamos sempre viver momentos de comunhão e outros de confrontação. 

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