O Bom Patrão: Javier Bardem e a perversão do capitalismo

(Fotos: Divulgação)

Incluído na pré-seleção do Oscar de Melhor Filme Internacional de 2022, ao lado de 14 potenciais eleitos para a festa da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, “El Buen Patrón” entrou na disputa de 49 prémios, desde a sua estreia, na competição pela Concha de Ouro de San Sebastián, em setembro. Só nos Goya, o galardão mais famoso de “nuestros hermanos“, a ser entregue no dia 12 de fevereiro, em Valência, ele conseguiu 20 nomeações, batendo recordes.

A presença de Javier Bardem à frente do que a crítica, lá em Donostia, classificou como “comédia moral” ou “crónica de costumes sobre o capitalismo vorazcontribuiu para atrair os holofotes para a carreia mundial desta longa-metragem de Fernando León de Aranoa, que chega esta quinta-feira ao circuito português. E chega ainda com a moral de ter sido o quarto filme mais visto no seu país em 2021, com 539.760 espectadores.

O código de honra da minha personagem aqui é o lucro, é ganhar. Ganhar e se proteger. É uma pessoa antiética, cuja ‘doença’ vem do olhar do Fernando para a exploração”, disse Bardem ao C7nema na conferência de imprensa no lançamento em San Sebastián, onde foi ovacionado. “Um bom guião é um presente para um ator. E Fernando é um argumentista dos grandes. Alguém que está na minha vida há muito tempo, como amigo e como parceiro de arte, na criação. O nosso esforço aqui foi retratar o abuso de poder de um homem sem escrúpulos, capaz de atropelar os direitos fundamentais dos seus funcionários”.

Em cartaz na Amazon Prime hoje com o recém-lançado “Being the Ricardos”, pelo qual recebeu uma nomeação aos Globos de Ouro), Bardem foi estreou “El Buen Patrón” dois meses depois de ter perdido a mãe. A atriz Pilar Bardem, laureada pelo filme de culto “Nadie hablará de nosotras cuando hayamos muerto” (1996), morreu no dia 17 de julho de 2021, quando o filho, hoje com 52 anos, engatou a maratona global de divulgação da nova versão de “Duna”, sob a direção de Denis Villeneuve, na qual vive Stilgon.

Bardem mal teve tempo de sofrer o luto, sob demandas diversas, a maioria de Hollywood. Ele tem um greencard afetivo em Los Angeles desde que concorreu ao Oscar pela primeira vez, em 2001, por “Before The Night Falls”, de Julian Schnabel. Concorreu mais duas vezes: em 2011, por “Biutiful” (pelo qual recebeu a distinção de melhor interpretação em Cannes, numa vitória ex aequo com Elio Germano, por “La Nostra Vita”), e em 2008, por “No Country For Old Men”, dos irmãos Coen, pelo qual recebeu a estatueta de melhor ator secundário. “Ganhei numa época em que havia trabalhado com o Milos Forman, em ‘Goya’s Ghosts’, que me apresentou um prato delicioso de costelas de porco”, disse o ator ao C7nema, numa entrevista anterior ao seu reencontro com Aranoa, quando ambos filmaram “Loving Pablo” (2017). “Produzi um documentário dele, “Invisibles”, em 2007, por acreditar na sua visão social”.

Vinculado à tradição do cinema político europeu dos anos 1970, como o italiano “La classe operaia va in paradiso” (Palma de Ouro em 1972), “El Buen Patrón” é uma espécie de outra face de uma moeda moral e social que Aranoa e Badem usam como escambo com a realidade desde “Los Lunes al Sol”, que conquistou o prémio máximo de San Sebastián, em 2002, e se tornou um dos filmes mais populares do cinema espanhol. Ali, o cineasta consagrou a sua estética, pautada num humor de tom etnográfico, investigando os excluídos pelo sistema financeiro e aqueles que os excluem. Aquele que exclui, no novo filme da dupla, é Hernán Blanco (Bardem), dono de uma metalúrgica que faz-se passar por um pai para os seus empregados, mas é capaz de explorar a boa vontade deles sem nenhum pudor.

Da mesma forma, ele disfarça o seu sexismo numa postura avessa a práticas machistas, mas abusa das mulheres que o cercam, em nome do prazer. “Não aposto na vilania, tratando Blanco como mau. Não quero que a história de um executivo como Blanco se resuma a maniqueísmos”, disse Aranoa ao C7 em San Sebastián. “Preciso complexificar a personagem de Javier para, a partir dela, promover um estudo da solidariedade possível no ambiente do trabalho”.

Últimas