“Siete Perros” à conquista do Cairo

(Fotos: Divulgação)

Já com três longas-metragens no currículo – “Venezia” (2017), “El tercero” (2014) e “El invierno de los raros” (2010) – o argentino Rodrigo Guerrero apresentou o seu novo filme, “Siete Perros”, em estreia mundial no Festival do Cairo, concorrendo assim à Pirâmide de Ouro do certame. 

No filme estamos em Córdoba e seguimos Ernesto, um homem que mora com os seus sete cães num prédio. A sua rotina diária solitária gira em torno das necessidades dos seus animais de estimação, do seu problema de saúde e da falta de dinheiro. Os vizinhos forçam-no sistematicamente a pensar em tirar os animais do apartamento, mas Ernesto não quer viver sem os cães e não tem condições para mudar de casa. É partir deste relacionamento do homem com os cães e com os vizinhos que Rodrigo Guerrero constrói o seu filme, sempre entre a comédia e o drama.

Li uma notícia que contava a história de um homem que vivia com 9 cães num edifício e tinha de se livrar deles pelo incomodo que estes provocavam”, explicou-nos o realizador sobre a inspiração para o projeto, numa entrevista no Cairo, adicionado que apesar de existir um caso real como fonte, quer ele quer a argumentista do filme, Paula Lussi, o homem da notícia real nunca foi contactado. “Os cães são também uma espécie de ligação com os vizinhos, aquilo que faz o protagonista contactar com eles. Ele é um homem solitário e reservado e o facto de ter os 7 cães obriga-o a sair de si próprio e encontrar-se com outras pessoas. Quando lemos a notícia gostamos do confronto de algo aparentemente individual, uma situação pessoal que podia ser resolvida de forma coletiva por todas as pessoas que habitam naquele microcosmos, naquele edifício. (…) No meio disso filtram-se igualmente pequenos momentos da vida das pessoas que habitam no prédio. Todas as pessoas têm os seus problemas e nesses contactos quotidianos descobrimos certas coisas, as quais não têm tanta relação com o Ernesto, mas que em algum momento ele acede. De alguma maneira, nos vínculos que ele tem, a ideia era trabalhar um pouco no que vai acontecendo aos outros, mas sempre com ele como foco. Por isso mesmo nunca vemos nada da vida dos vizinhos sem que ele esteja presente”.

Um guião aberto e uma estética particular

Quando se trabalha com 7 cães, é impossível ser muito preciso no guião com aquilo que se deseja e vai acontecer. Por isso mesmo, Rodrigo confessou-nos que usa o dispositivo apenas como um “detonador”, cabendo aos cães e ao protagonista, interpretado magistralmente por Luis Machín, muitas das surpresas e a força natural que todo o filme apresenta: “Não respeito exatamente o que está nele, pois não quero que as pessoas aprendam todos os textos de memória. Prefiro que percebam a situação que vão gerar e transitá-la para o ecrã. Além disso, quando temos 7 cães em cena é muito imprevisível o que vai acontecer. O que os cães faziam e como o Luís tinha de reagir, não estava no guião. Teria de ser algo natural e ele reagia. (…) Trabalhei a estética com  a diretora de arte e o diretor de fotografia. Pretendia trabalhar em cores como o verde e o marron e dar-lhes potência, um tratamento de arte mais barroco certas vezes, como a própria personagem do Ernesto era. Além das cores, a iluminação foi também potenciada.

De uma comédia dramática para “terror social”

Extremamente feliz com a estreia mundial do filme no Cairo, Rodrigo Guerrero está já a preparar um novo filme, o qual será extremamente diferente de “Siete Perros”.  Ao C7nema, ele confidenciou: “É algo distinto. Abordo o matrimónio de um casal mais velho, na casa dos 65 anos. O casal vive num bairro residencial perto da cidade. São essoas economicamente bem e que uma noite são assaltadas por três ladrões. Um roubo violento, mas durante ele, o homem do casal consegue capturar um dos ladrões e fazê-lo refém numa cave da sua casa. É um filme bem mais violento e se quisermos podemos chamar de terror social. Será um desafio para mim e vamos ver como me saio com ele”.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/7ulf

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