Javier Polo: “Não fui eu que escolhi os flamingos cor-de-rosa, foram eles que me escolheram”

"The Mystery of the Pink Flamingo" é exibido no Cinefiesta a 27 de novembro.

(Fotos: Divulgação)

À primeira vista, a premissa de “The Mystery of the Pink Flamingo” é simples: descobrir porque é que os flamingos cor-de-rosa se tornaram um símbolo do kitsch, um elemento decorativo presente em todo o género de objetos, e uma imagem aparentemente omnipresente na cultura pop. Javier Polo, o realizador por detrás deste híbrido entre documentário e ficção, viu-se rodeado por estes animais um pouco por todo o lado, e desenvolveu uma “febre de flamingos”. “A ideia do filme veio da minha própria experiência, mas eu sinto que não fui eu que escolhi os flamingos cor-de-rosa, foram eles que me escolheram”, confessou o realizador em entrevista ao C7nema. “Eu não conseguia escapar, era tão inevitável que a única forma de curar esta febre de flamingos doida era fazendo literalmente um filme sobre isso.”

Assim que comecei a investigar sobre eles, encontrei histórias surpreendentes e personagens muito coloridas que sem dúvida mereciam um filme.” Nascia assim este documentário sui generis, que através de entrevistas com personalidades excêntricas e muito divertidas, incluindo John Waters e Allee Willis, inquire sobre estas aves como pretexto para refletir sobre como a cultura visual influencia profundamente as nossas auto-perceções, identidades e criatividade.

O protagonista do filme, Rigo Pex, é um músico que parte numa viagem até aos EUA em busca da origem desta proliferação de imagens de flamingos. Polo, que é seu amigo, descreve-o como “um músico, um performer, um diabo da Tasmânia, um apresentador e um agitador cultural, nessa ordem…” e declara que “ele representa completamente o que uma alma livre é”. A esta lista também se pode agora juntar a profissão de ator, pois Pex, que é mais conhecido pelo nome artístico Meneo, interpreta aqui versões não exatamente verídicas de si mesmo, encenando um desenvolvimento pessoal a partir desta viagem pelos estranhos caminhos da cultura kitsch. Na verdade, para Polo “o kitsch era também outra coisa que já me atraía há muito tempo, bem como todo o universo estético do flamingo cor-de-rosa e a liberdade e alegria que causa”.

Essa hibridez entre o documentário e a ficção é o que mais se destaca em “The Mystery of the Pink Flamingo”, e Polo desafia abertamente o traçar de linhas claras entre os dois universos. “Creio que, felizmente, estamos a viver uma verdadeira mudança e os limites do mundo da ficção e do mundo do documentário estão a ser quebrados cada vez mais. É importante brincar e divertirmo-nos no processo de realizar um filme, e há formas infinitas de fazer um filme, porque é que haveríamos de pôr limites nisso?

A outra grande inspiração para o realizador, que no passado lançou o documentário “Europe in 8 Bits” (2013) sobre música feita em 8 bits a partir de antigas consolas de videojogos, é precisamente a música, que no seu mais recente filme tem também um lugar cimeiro. Para Polo, “a música é o que me faz levantar todos os dias, e não há um dia na minha vida em que eu não tenha pelo menos três horas de música a serem tocadas nos meus ouvidos. (…) É algo que está sempre a ressonar na minha mente e que me afeta de maneiras de que eu próprio não tenho consciência. Adoro música e pessoas que são apaixonadas por música, e tenho quase a certeza de que ela vai ser uma parte fundamental dos meus filmes, quer falem sobre isso ou não.” Neste caso, é evidente a inspiração musical um pouco por todo o filme, que se revela no ritmo da montagem, no espetro de cores da fotografia e, claro, na produção musical de Rigo e os seus passos de dança memoráveis.

Neste momento, o realizador e o irmão, Guillermo Polo, estão a colaborar na pré-produção do seu primeiro filme de ficção, uma comédia negra a ser realizada por Guillermo com o título “Pobre Diablo”, cujas gravações terão lugar no primeiro semestre de 2022. Entretanto a dupla já tem outros dois filmes de ficção debaixo do olho, para os quais estão a reunir financiamento, enquanto Javier está a desenvolver duas séries televisivas documentais em Madrid. “Está muita coisa a acontecer e isso significa muito trabalho, mas o futuro parece muito promissor visto que isto é aquilo que adoramos fazer”, remata Javier.

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