La Primera Mujer: as fronteiras da normalidade segundo Miguel Eek

O filme é exibido no Cinefiesta a 26 de novembro.

(Fotos: Divulgação)

Num texto escrito na Tunísia em 1967, mas publicado apenas em 1984, o filósofo Michel Foucault cunhava o termo “heterotopias” (“hétero” + “topos”). Com este conceito pretendia designar aqueles espaços que, existindo numa sociedade, invertem ou contestam todos os outros espaços dessa sociedade. São heterotopias os cemitérios, os lares de idosos, os hospitais psiquiátricos, as prisões, mas também os museus, as bibliotecas, os bordéis e até as colónias. Constituem “espaços-outros” esses locais para onde ora tudo converge, ora tudo se afasta; espaços em que o tempo se concentra absolutamente ou é interrompido propositadamente; espaços cuja entrada e saída é alvo de um controlo particular.

Trazendo à luz estes espaços, Foucault esclarecia, em parte, o fascínio que eles despertam, o que justifica tanto o interesse que lhes é dedicado como a facilidade com que são ignorados. Hoje, para a maioria, uma biblioteca ou uma prisão evitam-se, mas quando lá se entra é com grande curiosidade.

O Hospital Psiquiátrico de Maiorca, onde começou a ser gravado o documentário “La Primera Mujer”, é um destes locais. “Eu estava muito curioso para saber mais sobre a normalidade e ‘anormalidade’”, conta ao C7nema Miguel Eek, o realizador. “Sinto que eu próprio estou neste limite entre a normalidade e a ‘anormalidade’. Não tenho uma doença mental, mas não me sinto ‘normal’. Desde que era criança que fazia coisas estranhas. Tentava fazer filmes aos 10 anos, lia livros estranhos, ouvia música que mais ninguém ouvia, gostava de estar sozinho, esse tipo de coisas que nos fazem sentir diferentes. Desde criança que adoro estar com os “freaks”, com as pessoas que estão nas margens da sociedade, que não se ajustam. Sinto-me muito próximo deste tipo de pessoas. Sinto que muitas vezes são mais autênticas as conversas e ideias que oferecem do que aquelas que temos porque estamos tão contaminados pela ideia de normalidade, pela ideia do que é bom ou mau, do que está na moda ou fora da moda, do que devemos ou não fazer. Há muito tempo que tenho esta atração a esta forma diferente de pensar.”

Antes de filmar “La Primera Mujer”, Eek realizou vários documentários cujos temas se aproximavam desta dinâmica das heterotopias, de espaços de desvio e de exceção. Em “Ciudad de los Muertos” (2019) filmou a equipa de trabalhadores do cemitério e mortuário de Palma de Maiorca. Com “Vida Divina” (2016) explorou como os votos religiosos convivem com a vivência quotidiana em locais como um convento, uma prisão, ou uma paróquia. Agora, Eek queria “saber mais sobre a saúde mental, não em termos de informação, mas em termos de emoções; saber mais sobre este tipo de problemas através de personagens”.

Por isso, o realizador abordou o Hospital Psiquiátrico de Maiorca sem ter ainda qualquer ideia do que queria realmente gravar. Ofereceu-se para lecionar um workshop de realização de documentários de forma a conhecer os pacientes, e para que os residentes o conhecessem a ele. Queria oferecer-lhes algo e não apenas chegar ao hospital e começar a observá-los. Assim, passou vários meses a trabalhar em conjunto com os pacientes, filmando-se uns aos outros. “Nós filmávamo-los, mas eles também nos filmavam. Tinham câmaras, e conversávamos sobre as doenças, o amor, o sexo. Foi uma espécie de terapia de grupo. Eles estavam muito felizes porque normalmente não têm este tipo de experiência.”

Foi durante este processo que Eek conheceu Eva, a mulher que dá título ao filme. “Eu fiquei tocado pela sua empatia. Ela era alguém muito ligada aos outros residentes, ajudava-os muito e era muito curiosa sobre eles.” Rapidamente percebeu que o filme que estava a gravar não seria sobre um conjunto de personagens, mas sim sobre ela. “A Eva tinha um objetivo, o que é algo muito raro e estranho ali, devido à medicação e à doença. Eles [os pacientes] são muito passivos nos seus objetivos, não têm desafios, só têm uma rotina que cumprem todos os dias. Mas ela tem este sonho poderoso de sair dali e ir à procura do filho.”

Começou então a desenhar-se o projeto para “La Primera Mujer”. No filme seguimos de perto o percurso de Eva, desde a sua vida no hospital, onde ocupa os dias em workshops de cerâmica, convívios com outros pacientes, e muito cigarros, até conseguir uma vaga num apartamento subsidiado pelo Estado, onde passa a ter uma vida mais independente. Embora partilhe a casa e o quarto com outras pessoas, Eva arranja um trabalho como empregada de limpeza e reencontra um amigo de infância com quem desenvolve uma relação. Mas faz tudo tendo sempre em mente o mesmo sonho: conhecer o filho, que lhe foi retirado aos 6 anos devido à instabilidade da sua saúde mental, que a levou à toxicodependência.

Passados 15 anos, Eva está gora estável e considera-se uma nova mulher. Segundo o realizador, “ela compreendeu rapidamente o interesse e a importância de partilhar a sua experiência com outras pessoas. Penso que sabe que é um caso de sucesso, na medida em que é uma das poucas pessoas que saíram da instituição. Ela empenhou-se em inspirar as pessoas”. E é esse o grande triunfo de “La Primera Mujer”: através desta extraordinária protagonista, o filme consegue dissipar os grandes tabus em torno da saúde mental e dos internamentos em hospitais psiquiátricos através de uma mensagem profundamente empática. 

Isso só foi possível porque Eek e Eva desenvolveram uma relação especial. “Nós tornámo-nos grandes amigos. (…) Eu fui muito aberto com ela. Ela partilhava comigo muito, mas eu também partilhava muitas coisas sobre a minha vida, os meus problemas, a minha vida privada. Creio que isto foi muito importante para que ela sentisse que estávamos a fazer um filme entre amigos.” Depois, Eva aprendeu com facilidade a estar em frente à câmara naturalmente. O realizador notou nela uma grande fotogenia, e sentiu que, mesmo tratando-se de um documentário, ela era uma grande atriz. É essa genuinidade e abertura de espírito por parte de Eva que torna este retrato tão íntimo, convidando-nos a nutrir uma espécie de amizade por ela.

A metodologia de Eek é também responsável por isso. O realizador admite que, de certa forma, não sabe nem gosta de escrever argumentos para os filmes, porque não quer que o que acontece seja expectável. “Eu quero que a vida nos surpreenda durante a rodagem e quero ver como conseguimos capturar esses pequenos momentos de situações reais”, explica. “Claro que a câmara afeta as personagens, mas nós passámos tanto tempo com a Eva que conseguimos ter esta capacidade de a conhecer realmente.” Assim, conseguiram que a equipa de filmagens se tornasse invisível, e Eva esquecia-se das câmaras, o que a permitia conectar-se verdadeiramente às situações que estava a viver. A estratégia passava sempre por ter duas câmaras: uma que filmava um plano geral, aberto, que situava Eva no espaço, e uma segunda que captava um plano mais próximo, em que os sentimentos e emoções transpareciam. Visto que Eek opta por não intervir diretamente nas situações, não há entrevistas nem uma interação direta de Eva com a câmara, a qual se torna uma espécie de “mosca na parede” a testemunhar o que ocorre.

Há apenas uma exceção a esta regra, que ocorre numa cena passada num tribunal local, em que Eva presta declarações a propósito do pedido do seu filho, agora com 21 anos, para ser oficialmente adotado pela família que o acolheu. Neste caso, a cena teve de ser reencenada, pois não foi permitido gravar a audiência oficial. Mas para Eva e para Eek era importante filmar este momento. “A Eva voltou a viver este momento (…) e isso foi importante para ela se explicar, explicar porque é que teve a vida que teve e o que podiam esperar dela.” O sonho passava por acreditar que, um dia, o filho poderia ver o filme e assim compreender melhor a sua mãe biológica. 

A surpresa chegou quanto “La Primera Mujer” já estava em fase de pós-produção. Eva recebeu uma chamada do filho, e mantiveram o contacto durante alguns dias, conta-nos o realizador. Mas o rapaz, que hoje é já um homem, não queria conhecer Eva necessariamente com o objetivo de formar uma relação duradoura. Apesar disso, Eva está a lidar bem com a situação, na opinião do realizador, e tem conseguido gerir os seus problemas de saúde – embora isso se tenha tornado mais difícil com a pandemia. Como para tanta gente, o confinamento foi um período complicado para ela, mas ao ultrapassar estes desafios a sua confiança e autoestima têm-se consolidado.

Depois de fazer este filme, sinto-me mais ligado a esta ideia de que não sou ‘normal’ e estou feliz com isso. A Eva ensinou-me imenso sobre isso. A sua empatia ensinou-me imenso.” É com estas palavras que Miguel Eek descreve o efeito que “La Primera Mujer” teve para si, e os espectadores, perante a ternura do filme e o respeito e dignidade com que trata Eva, certamente sentirão essa mesma empatia.

Quanto ao futuro, Eek está a produzir dois filmes. Um deles já foi gravado e está no processo de ser montado. Trata da masculinidade a partir de um grupo de homens que fazem um retiro juntos numa casa isolada no meio da floresta, onde abrem os corações para sarar feridas. O outro filme está em desenvolvimento há já 8 anos, e é uma coprodução portuguesa. Trata-se de um documentário sobre Amílcar Cabral. “É um filme sobre o olhar de Amílcar Cabral a partir dos seus poemas, das suas cartas pessoais e dos seus textos políticos. Através dos arquivos e do seu trabalho estamos a tentar criar uma cinebiografia especial.” Segundo o realizador, os dois projetos têm abordagens muito diferentes, pois um é um retrato íntimo e outro é um enorme trabalho de arquivo que tem levado imensa preparação e muitas viagens a África.

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