Alan Minas: “Os limites entre transtorno mental e sanidade são bastante questionáveis”

(Fotos: Divulgação)

Você não Sabia de Mim” faz parte da programação do Doclisboa e o cineasta brasileiro Alan Minas apresenta um trabalho desenvolvido num Centro de Dia que abriga pessoas com transtornos mentais. O resultado é um filme forte, ao mesmo tempo intenso e comovente, que termina por retratar aquilo que fica dos enormes sofrimentos das pessoas que sofrem destas doenças: a solidão e a exclusão a que são sujeitos.

O cineasta, que há alguns anos apresentou no FESTin, em Lisboa, a obra de ficção “A Família Dionti”, lançou recentemente na Feira do Livro o seu projeto literário “O Mundo nos Cabia”. Já “Você não Sabia de Mim” nasceu quase por acaso dentro daquilo que eram pesquisas para um filme de ficção. No filme, o cineasta e a produtora Dani Vitorino propõe aos frequentadores do Centro que façam o seu próprio filme – elaborando histórias e sugerindo temas.

Como salienta o realizador ao C7nema, são pessoas que, independente do grau de comprometimento da doença, possuem uma grande sensibilidade para perceber o que se passa ao seu redor – algo facilmente comprovável pela clarividência de muitos dos depoimentos…

Alan Minas

Os depoimentos são muito tocantes. No final do filme, um dos participantes pede para ser teu amigo e quer certificar-se de que, se mudares de número de telefone, que o informes… A solidão é o ponto essencial do teu retrato?

O dispositivo de trabalho foi mediar a realização fílmica dos participantes e os deixar livres a sugerir os temas que mais lhe apraziam. O roteiro poderia derivar de uma memória, de um sonho, ou ainda, apenas de um sentimento. Entretanto, apesar da profusão de motes por eles aventados, a solidão foi uma emoção que atravessou todos os filmes, seja de forma direta ou entremeada às narrativas.

Trata-se de uma expressão irrefutável do isolamento e da falta de pertencimento, em que é muito comum estarem inseridos. É importante deixar claro que as pessoas que sofrem de transtornos mentais, independente do seu grau de comprometimento, são sensíveis, como qualquer um, ao que acontece em seu entorno e do modo como são tratados.

O filme tenciona trazer, de um lado, um enfoque positivo e buscar inspirar atividades criativas entre os participantes; por outro lado, aquilo que eles próprios deixam implícito são histórias de extremo sofrimento… Essa convivência de alguma forma te afetou pessoalmente ao longo da produção?

Desde a pesquisa até a versão final da montagem, as suas ações, reflexões e expressões afetaram profundamente o meu modo de agir, de pensar e de externar o que penso. Se, por um lado, revelaram-me o preconceito e a estigmatização que experienciam, por outro, reforçaram em mim as noções de que os limiares entre transtorno mental e “sanidade”, entre o aceitável e o intolerável pela sociedade, são bastante questionáveis. Trata-se de bordas muito ténues ou, quiçá, inexistentes, mas que, infelizmente, são impostas por um sistema de padrões normativos.

O projeto lembra, de alguma forma, os filmes de Eduardo Coutinho – pelo cunho humanista e pela força das entrevistas selecionadas. Ele é uma referência?

Definitivamente, o cineasta é uma grande referência em meu trabalho, não apenas nos documentários que realizo, mas também nas ficções. Cinema é imagem, mas não só isso, é também a palavra: em sua oralidade, na expressão do corpo a complementá-la e, até mesmo, a palavra não pronunciada é, por vezes, sugerida.

Eduardo Coutinho revela tais subtilezas em sua vasta e rica obra, assim como nos aponta que o cinema é feito de encontros – que se iniciam na pré-produção, aparenta terminar na sala de projeção, mas ainda segue dentro de cada espectador. É diante da câmara, durante a interlocução, que o que é real se altera e nos concede o cinema.

Como surgiu o projeto, esse retrato de um espaço de tratamento para saúde mental?

Eu frequentei o Núcleo de Saúde Mental Casa Verde, durante 11 meses, a fim de realizar uma pesquisa para um argumento de ficção. A cada visita, indiferente do meu estado de espírito no dia, sempre saía da casa com meu ânimo elevado. Algo especial acontecia, mas eu não buscava racionalizar nem encontrar explicações para isso, apenas desfrutava daquele bem-estar.

Após a pesquisa concluída, senti que, de alguma forma, eu seguia conectado àquelas pessoas e àquele lugar. Foi então que eu e Dani Vitorino, produtora do filme, decidimos realizar o documentário, que, no seu desejo de nascer, acabou vindo ao mundo antes mesmo da ficção. 

Últimas